Todo Natal, Seu Lauro (Everaldo Pontes) diz que aquele será o último. Dessa vez, ele tem razão. A cena de abertura de “Ao sabor das cinzas”, longa dirigido por Taciano Valério, apresenta uma família pernambucana reunida para celebrar a data. Rica, cercada por obras de arte e com um mordomo servindo taças de champanhe, a família parece distante.



Em um plano-sequência, a câmera de um celular registra a comemoração na vertical, até que o patriarca intervém para ensinar a neta a filmar na horizontal. “É muito mais bonito”, diz o avô. A morte de Seu Lauro, dias depois, dá início ao conflito que movimenta o longa. “Ao sabor das cinzas” estreia no circuito comercial nesta quinta-feira (22/10), depois de ter sido exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro passado.



Quando uma assistente social telefona para a casa de Bethânia (Verônica Cavalcanti) para comunicar a morte do pai, Isadora (Isadora Gibson), filha de Bethânia, se antecipa à família. Ela vai ao hospital, autoriza a liberação do corpo e paga para que a funerária o leve à cidade onde nasceu.



A ideia para o filme surgiu em 2015, a partir de um argumento simples, conta Taciano Valério. Na primeira versão, duas irmãs entravam em conflito após a morte do pai. Uma morava em Recife e trabalhava como advogada; a outra vivia no interior e cuidava das coisas do patriarca. A disputa sobre o local do enterro seria o ponto de partida da história.



O projeto ficou guardado por alguns anos, até que, entre 2018 e 2019, o diretor chamou o parceiro de escrita Ivan Soares Santos para desenvolver o roteiro. “Começamos a incrementar, como se diz, colocar mais apelo no filme”, conta Valério.



EMBATE


Bethânia e a irmã, Laura (Maria Lima), entram em um embate sobre o destino do corpo, sem saber que Isadora já havia se antecipado e providenciado o traslado do avô. Enquanto uma defende que o pai seja enterrado em Caruaru, a outra quer que ele descanse em Campina Grande, cidade onde nasceu. Ao chegar ao hospital para autorizar a liberação, Bethânia descobre que o corpo já foi retirado com autorização da filha.



Enquanto isso, Isadora produz vídeos sobre os segredos da família. Ela decide romper o silêncio em torno da história do avô. Em uma conversa com um cúmplice, a jovem defende que chegou a hora de colocar tudo às claras. Afinal, como diz, a família gosta de guardar segredos e já passou da hora de revelá-los.



Aos poucos, a história de Seu Lauro ganha novos contornos, e a imagem do patriarca é colocada em questão. Para Taciano Valério, o filme discute a perversidade por trás de figuras capazes de conquistar a confiança e a simpatia das pessoas enquanto escondem outras facetas. “Nem todo sedutor é perverso, mas todo perverso é um sedutor”, afirma o diretor.



Para Valério, o filme discute a herança patriarcal e como ela está presente nas relações entre homens e mulheres. Isadora enfrenta o desafio de reconhecer essas marcas na própria família e lidar com o passado de alguém que ama. “Como denunciar alguém que fez parte de sua formação e por quem existe afeto?”, questiona o diretor.



CONFLITOS


Ao mesmo tempo em que os conflitos familiares se intensificam, dois funcionários da funerária protagonizam uma espécie de road movie durante o transporte do corpo. Lucas, que já trabalha no local, acompanha Renata, recém-chegada à funerária e que passa a ouvir o morto conversar com ela.



A relação entre os dois ganha contornos de romance e funciona como um respiro em meio à tensão da trama. “Estão ali se enamorando, se conhecendo, se paquerando. Ele existe também como alívio da narrativa”, conta o diretor.



Valério diz recorrer ao realismo fantástico para criar uma ruptura na narrativa e aproximar a história de questões contemporâneas, como a morte e a necropolítica. A estratégia também ajuda a construir Seu Lauro como um personagem que conquista a simpatia do público antes de revelar outras facetas.



“As pessoas se identificam com ele porque é muito engraçado. Depois, quando descobrem quem ele é, isso causa raiva. A gente tem que entender que esse perverso é muito sedutor”, afirma o diretor.



Dez anos depois de começar a escrever o argumento, Taciano vê o filme chegar ao circuito comercial com uma mistura de alegria e melancolia. “Existe uma alegria, mas existe também uma tragédia nessa alegria. Alegre porque a obra está feita. E melancólico porque não é uma ficção. Ele está muito mais próximo da realidade do que nunca. A gente fica melancólico porque não dá para assistir como ficção”, diz.

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“AO SABOR DAS CINZAS”
(Brasil, 2026, 84 minutos.) Direção: Taciano Valério. Com Everaldo Pontes, Verônica Cavalcanti, Maria Lima, Isadora Gibson e Bruno Goya. Estreia nesta quinta-feira (22/10), no Cine Belas Artes (Sala 1, 13h50).


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