A definição mais condizente com os nossos tempos vem de Roberto de Carvalho. Ezequiel Neves (1935-2010) foi um proto-influencer. Ator, jornalista e produtor musical, passou para a história como o cara que lançou o Barão Vermelho. De Cazuza, foi parceiro em canções antológicas. Isto não é pouco. Só que Ezequiel foi muito mais.



Com estreia nesta segunda-feira (12/10), às 22h, no Canal Curta!, “Ninguém pode provar nada – A inacreditável história de Ezequiel Neves” apresenta uma trajetória riquíssima (menos em dinheiro) da forma mais fiel ao personagem. “É tudo ficcional, mas absolutamente verdadeiro”, afirma o diretor Rodrigo Pinto. A abertura dá o tom: “Atenção! Este filme foi feito com uso de inteligência artificial e outras drogas”.



A partir da morte de Ezequiel – em 7 de julho de 2010, dia dos 20 anos da partida de Cazuza, em decorrência de um tumor benigno no cérebro –, o filme recria sua trajetória, inclusive seu final. “A gente achava que ele tinha tido uma morte incompatível com a vida dele. O próprio Frejat diz que a ‘realidade dele é muito melhor do que a realidade efetiva’”, explica Rodrigo.



É uma fala de Roberto Frejat que abre o filme. Conta que Ezequiel chamava o tumor de “Toninho” e que havia pedido ajuda para encontrar um médico para dar uma “injeção de morfina para ele ter uma puta viagem e morrer”. O músico foi visitá-lo no hospital e descobriu que ele havia desaparecido. Tinha deixado um bilhete: “Não preciso de conselhos. Sei errar sozinho”.



SAÍDA DE BH


Com o próprio Ezequiel conduzindo sua trajetória, o filme reconstrói a vida dele, sempre a mil por hora. Nascido em Belo Horizonte, ele foi grande demais para a capital mineira careta e tacanha da época. Só saiu daqui aos 30 anos, em 1965, quando se mudou para São Paulo.



A marca de Ezequiel em BH está no teatro. Sempre à frente, era apaixonado por Samuel Beckett. Esteve na primeira montagem de “Esperando Godot” no Brasil – que foi na capital mineira.
Em São Paulo, se tornou crítico de música no “Jornal da Tarde”. Completava o salário vendendo maconha para os colegas. Foi chamado a atenção, já que havia agentes do DOPS na Redação. Pediu-lhe que lhe apontassem os homens a serviço da ditadura. Um deles era seu maior cliente.



No jornalismo, atividade que seguiu quando se mudou para o Rio de Janeiro, defendia com unhas e dentes aqueles que amava – os Rolling Stones foram sua maior paixão, sua alcunha era Zeca Jagger. Mas não poupava ninguém. Detestou “Araçá azul” (1973), de Caetano Veloso: “Os Augustos de Campos vão achar in”. Se tornou o crítico de rock mais influente do país. Inventava muito – criou, por exemplo, uma entrevista completa com Keith Richards.



FITA DEMO


Em meados dos anos 1970, tornou-se produtor musical da Som Livre, sem entender nada de técnica. Roubou de Nelson Motta uma fita demo do Barão Vermelho. Foi paixão à primeira vista, e Ezequiel se tornou mentor e produtor da banda. Mãe de Cazuza, Lucinha Araújo afirma que os dois eram almas gêmeas, de um terminar a frase do outro. “Culturalmente, foi ótimo para ele. Mas também provocou um lado terrível do Cazuza”, ela diz.



Com Rita Lee, foi amor e ódio. “Nos Mutantes ela era decorativa, não cantava nada. É a melhor show woman do país. Uma drogada moralista de quinta categoria”, é o que se ouve da boca de Ezequiel, a respeito de Rita, ao longo do filme. Homossexual, não gostava da cultura gay. “Gosto de homem.”



O longa se apoia em gravações que Rodrigo fez de Ezequiel de 2005 a 2009, muita imagem de arquivo, depoimentos – Maria Bonomi, Vânia Toledo, Maurício Kubrusly, Neville D’Almeida, Ana Maria Bahiana, além dos já citados – e uma dramatização em que Emílio de Mello encarna o personagem. O ator repete o papel que fez em “Cazuza: O tempo não para” (2004), de Walter Carvalho e Sandra Werneck.



Rodrigo foi muito amigo de Ezequiel, que conheceu em 1997. “Eu tinha uma banda de rock, Berro. Gravamos uma demo para mandar para ele. Um dia, me ligou em casa: ‘Recebi sua demo. Isso aqui é uma merda.’” Convidou Rodrigo para ir à sua casa. Na primeira meia hora de conversa, acabou com a banda. Depois, apresentou vários sons para ele.



Os dois ficaram próximos e Ezequiel acabou produzindo a banda. Mais tarde, Rodrigo começou a dirigir documentários curtos de música para o Multishow. “Às vezes, eu saía de uma filmagem e ia para a casa dele. Um dia, me falou: ‘Não vai me entrevistar não?’ Eu disse: ‘Deixa de ser pretensioso, cara’”. Mas não demorou a ligar a câmera.



Foram cerca de 60 horas de gravação. “Algumas histórias eram meio contraditórias, impossíveis do ponto de vista de tempo. Fui pesquisar mais e entendi que ele ia muito além do cara que eu conhecia.” Filmou Ezequiel até quando foi possível. “Ele não quis tratar o tumor, ser operado, porque teria que parar de beber.”

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A inteligência artificial, diz Rodrigo, foi utilizada em diversos momentos do filme: áudios, reconstrução de entrevistas, na voz dele, nos depoimentos das irmãs de Ezequiel. “Mas sempre levando em consideração o que a Ana Maria Bahiana fala: que o jornalismo dele era inventado, porém totalmente verdadeiro. Acho que o filme é muito fiel ao personagem”, conclui. 


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