Para o documentarista Bellini Andrade, da produtora Espinha Audiovisual, há uma Belo Horizonte que não é vista, mas ouvida. Perceber a memória coletiva em torno de uma capital que não está presente apenas em seus edifícios, monumentos ou fotografias, mas também nos sons que acompanham a vida de seus moradores, foi o que o levou a realizar o filme em média-metragem “Vozes da cidade”, que terá uma sessão de lançamento nesta quarta-feira (30/9), às 19h, no Cine Santa Tereza, com entrada franca.



O documentário reúne histórias de pessoas que têm na voz sua principal ferramenta de trabalho e convida o público a perceber a paisagem sonora de Belo Horizonte. Bellini colheu depoimentos de 12 personagens, entre locutores e vendedores, que contam suas histórias, revelando como a voz se tornou instrumento de trabalho. Ele diz que a ideia é registrar e preservar esse patrimônio imaterial da cidade: as vozes que ecoam pelas ruas, feiras, lojas, mercados e meios de comunicação.



“É um filme que parte de vivências minhas e de boa parte da população, da memória coletiva que guardamos dessas pessoas que usam a voz para vender seus produtos ou serviços. Me incomodava o fato de elas serem meio invisíveis”, diz. Ele explica que “Vozes da cidade” se concentra nos gritadores do Centro de BH, que vendem ouro ou anunciam promoções em lojas de variedades, mas não se limita a eles, investigando, também, na paisagem sonora dos bairros e aquela criada pelos meios de comunicação.



IRMÃS LOCUTORAS


“São muitas as possibilidades. Fomos buscar, por exemplo, a voz do Mineirão, que é muito conhecida de quem frequenta o estádio. Ninguém sabe que a dona daquela voz é a Pollyanna Andrade. Conversando com ela, descobri que a irmã, Isabel de Andrade, é a locutora da Arena MRV. As duas estão no documentário", diz. Ele destaca, também, Téssia Gonçalves, que apresenta, na rádio Inconfidência, “A hora do fazendeiro”, programa mais antigo do rádio brasileiro.



Bellini conta que ela substituiu a mãe, que cumpriu a função na emissora mineira por mais de 50 anos. Ele diz que a avó de Téssia também foi locutora de rádio, em São João Del Rei, numa época em que ter uma mulher nessa função era algo bastante incomum. “Tem coisas que são passadas de geração para geração”, pontua. Ele observa que nem só de vozes a paisagem sonora da cidade é constituída. Um exemplo é Antônio da Costa Lamas, o Seu Antônio, que vende beiju desde menino, quando acompanhava o pai na mesma lida.



“A comunicação dele é por meio de um artefato sonoro, a matraca, algo que ninguém mais usa, a não ser o beijuzeiro. No depoimento, Seu Antônio se emociona, diz que, depois dele, vai acabar, porque sabe que é uma profissão que está em vias de extinção. Ele anda em torno de 20 quilômetros por dia”, comenta o diretor. Bellini lamenta não ter encontrado um amolador de facas para incluir no filme, porque eles também têm um metódo próprio para anunciar a presença – uma espécie de gaita que vem de uma tradição da Galícia.



A HORA DO GRITO


Bellini chama a atenção para o fato de que há diferentes dinâmicas no uso da voz. Ele exemplifica com Christian Resende Silva, que trabalha como locutor em uma loja de meias no Centro da cidade, e Nana Mell, que circula pelos bares de Santa Tereza vendendo doces. “No depoimento que deu, Christian diz que, se não gritar, não vende. No caso da Nana, é o contrário, ela tem que abordar de maneira diferente, porque, se chegar gritando, ninguém vai comprar. Mas todas são vozes da cidade”, diz.



Ele explica que a escolha dos personagens que aparecem no documentário começou de maneira aleatória, com visitas regulares ao Centro da cidade e a alguns bairros. “Foi um trabalho de mapeamento, de chegar e abordar as pessoas. Tem muita gente que não quer gravar; o pessoal que anuncia ouro, por exemplo, é mais resguardado, porque sabe-se lá que ouro é esse, qual a procedência”, diz. Ainda assim, ele conseguiu um, Kaiky Henrique Silva. “Ele é ótimo, um cara muito desenvolto, o que também pesou nessa seleção”, afirma.



O documentário aborda, de forma tangencial, o impacto do avanço tecnológico para algumas dessas profissões. “Gerson Caburé é um cara das antigas, que rodava com carro de som fazendo locução para lojas, dirigindo e falando ao microfone. Hoje ele tem um estúdio caseiro, grava tudo antes e só dá o play no pen drive. Guto Mello é locutor de uma loja na rua Caetés e se diz também cantor de 'forrónejo', então ele fica cantando em cima de uma base pré-gravada para atrair o público”, conta o diretor. 

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“VOZES DA CIDADE”
Lançamento do documentário ,de Bellini Andrade, nesta quarta-feira (30/9), às 19h, no Cine Santa Tereza (Rua Estrela do Sul, 89, Santa Tereza). Entrada franca.


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