Com lançamento nesta terça-feira (29/9), no Teatro José Aparecido de Oliveira, na Biblioteca Pública, o longa-metragem “A morte da natureza-morta” nasceu de um grande infortúnio. Em 5 de dezembro de 2025, o cineasta Fábio Carvalho saía de um posto de saúde quando foi atropelado ainda no estacionamento. Com joelho, mãos, boca e ombros bastante lesionados, passou mais de um mês em cima de um sofá.
“Tinha que dormir sentado, ou seja, acordava de duas em duas horas, o que foi me causando uma impaciência terrível”, conta Carvalho, hoje plenamente recuperado. Um desvario o tirou do baixo astral. “Sonhei que estava filmando o cineasta americano John Huston. Acordei às 2h da manhã com o título e o filme na cabeça. Foi a minha salvação.”
Prolífico realizador desde a década de 1980, conhecido pela experimentação e pela ausência de concessões, Carvalho diz que este é o filme mais radical e político que já realizou, pois “não há nada mais político do que a arte pela arte”. “A morte da natureza-morta” é um filme também muito coletivo. O diretor contou com a colaboração de várias pessoas para dar conta do projeto durante sua recuperação.
Com a ajuda de Isabel Lacerda, parceira desde sempre, Carvalho abriu seu arquivo e selecionou imagens que não tinham entrado em projetos anteriores. “Digitalizamos material de vários formatos, de 16mm a Betacam. Chamei o (arquiteto) João Diniz como fotógrafo, o ator Rodrigo Leste, que nunca tinha trabalhado com cinema, e a (cantora lírica) Sylvia Klein.”
“COLAGEM”
Carvalho realizou as filmagens com um braço só. “E fiz uma colagem com o material todo (tanto por isso, o número de participações no elenco é grande). Não tem uma narrativa. Para quem conhece meu cinema, sabe que tento pesquisar a linguagem cinematográfica através do experimentalismo.” Até agora, não houve nenhuma exibição pública – apenas algumas pessoas próximas viram o filme.
Uma delas foi o poeta, professor e cineasta Luciano Fraga, que escreveu texto de apresentação de “A morte da natureza-morta”. “A poesia do filme não está necessariamente em uma narrativa ou em palavras. Ela está na repetição, no intervalo, no deslocamento, na matéria da imagem... Quem espera uma história claramente conduzida pode encontrar lentidão ou repetição. Mas essa possível dificuldade parece fazer parte da proposta: o filme não quer apenas ser visto; quer modificar a maneira como vemos.”
A sessão também vai comemorar os 75 anos do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC-MG), fundado em setembro de 1951.
“O mais importante (da época) foi o papel do CEC no desenvolvimento de Belo Horizonte. O Silviano Santiago, que fez parte de uma das primeiras gerações, destaca o papel modernizador que (o Centro de Estudos) teve para a cultura da cidade, na época muito limitada. O lazer da maioria da população era o cinema. Os fundadores perceberam que ele tinha algo além do lazer hollywoodiano. Promoveram uma verdadeira revolução no período”, afirma o jornalista e diretor Victor de Almeida, “cequiano” desde 1958 e hoje presidente do conselho curador.
Atualmente, a sede da instituição ocupa uma sala na Casa do Jornalista. Presidido pelo produtor Lourenço Veloso, o CEC, por me
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io de sua associação de amigos, consegue manter seu acervo, mas não “alçar novos voos”, ele diz.
“Temos que mostrar a relevância da instituição para a sociedade. A experiência do cineclubismo é de socialização, mas também do confronto de visões. Queremos voltar a viabilizar cursos e ter uma programação regular, criando grupos de discussão”, diz Veloso, que está à procura de parcerias.
