Nos nove shows da turnê “Barão Vermelho encontro” realizados até a chegada da banda a Belo Horizonte, neste fim de semana, todos terminaram com “Pro dia nascer feliz” (Cazuza e Roberto Frejat). “Depois dela, a gente não tem mais nada a dizer, é uma música de fechamento. Não que elimine as outras, mas, em termos de arranjo, ela tem uma coisa meio épica. Não propositalmente, pois a gente não sabia fazer nada então”, diz Frejat, de 64 anos.
Iniciada em abril, no Rio de Janeiro, e com o final batendo à porta (em 16/10, em São Paulo), a temporada com a formação original da mais rock and roll das bandas da década de 1980 chega a BH para duas apresentações no Arena Hall. Como a deste sábado (26/9) esgotou, foi aberta outra data, no domingo (27/9).
“É importante dizer que a tour acaba mesmo. Se as pessoas quiserem ver, tem que ser agora”, afirma o baixista Dé Palmeira, de 61. Ele era um garoto de 15 anos quando se reuniu a Cazuza (1958-1990), Frejat, Guto Goffi, 64, e Maurício Barros, 62.
A pergunta sobre “Pro dia nascer feliz” abre a entrevista com o Estado de Minas porque a canção de 1983 é, de certa maneira, a mais importante do Barão. Lançada no segundo álbum, “Barão Vermelho 2”, foi ela que fez a banda virar.
“VERSÃO DO NEY”
“No primeiro disco (1982), a gente trabalhou ‘Down em mim’ ‘Billy Negão’. Teve alguma repercussão na imprensa musical, mas não aconteceu nada no rádio e na televisão. A gente lançou ‘Pro dia nascer feliz’ e não aconteceu nada também. Aí o Ney (Matogrosso) lançou a música. (A do Barão) Começou a acontecer aproveitando o sucesso da versão do Ney”, relembra Frejat. Dé acrescenta: “Foi engraçado, pois durante uma época as rádios tocavam a versão do Ney e logo em seguida a do Barão, uma atrás da outra.”
Como turnê celebratória, “Barão Vermelho encontro” não precisa inventar a roda. A banda emenda todos os (muitos) hits, num show com quae 30 músicas. Guitarrista do grupo desde 1985, Fernando Magalhães está na banda, que se completa com o percussionista Cezinha (irmão de Peninha, morto há uma década, que tocou por muitos anos com o grupo), pelos metais Marlon Sette, Diogo Gomes e José Carlos Bigorna. Filho de Frejat, Rafael acompanha o grupo ao violão, na guitarra e também nos backings, ao lado de Jhusara.
Tanto Frejat quanto o Barão – que segue na ativa com Guto (“Sou o único que nunca saiu”), Barros, Magalhães e Rodrigo Suricato nos vocais – continuam suas próprias carreiras. O vocalista e guitarrista estava há nove anos sem tocar com seus antigos companheiros. Dé, por seu lado, há uma década não subia num palco. Ao sair da banda, ele tocou com muita gente, Adriana Calcanhotto, Cássia Eller, Ney e Bebel Gilberto. Hoje vive em São Paulo, trabalhando com trilha sonora na Globo – atualmente no “Programa do Bial”.
“Estava com muita saudade de tocar no palco, desse espírito do Barão, tanto que, quando me ligaram para convidar, topei na hora. Chego no show e pareço uma criança. Acompanhei artistas e tal, fiz vários trabalhos, mas estar no palco com eles é ir para outro lugar do mundo, uma catarse, onde você bota todos os seus demônios para fora”, diz o baixista.
Mesmo distantes, nenhum deles deixou de se falar nesses anos todos. “Nós quatro vivemos nossas vidas, e acho que o Cazuza também teria o mesmo sentimento se estivesse aqui. A gente começou junto quando não sabia nada sobre a vida, tocar, ser músico, ter carreira. Aprendemos juntos, tomamos porrada, tivemos os desequilíbrios dos exageros, dos fracassos e dos sucessos. Então acho que isso traz uma união como se fosse coisa de família”, afirma Frejat, que diz entrar “com uma alegria enorme no palco” para fazer o show.
“Sou meio suspeito, né? Gosto de tudo no Barão, participei de todos os momentos. Mas este está se tornando mais especial, pois estamos voltando ao passado nas relações afetivas. Isso acabou tomando conta do jogo, então está todo mundo muito feliz. E acho que merecemos ganhar esse presente”, afirma Guto.
“BARÃO VERMELHO ENCONTRO”
1Show neste sábado (26/9), às 21h, e domingo (27/9), às 19h30, no Arena Hall (Avenida Nossa Senhora do Carmo, 230, Savassi). Ingressos disponíveis para domingo, a partir de R$ 157,50, à venda na bilheteria e no Eventim.
O “DOIDO” EZEQUIEL
“Foi um mentor, o cara que bancou a gente. Foi quem avalizou e disse: ‘Isso aqui é relevante, importante’”. É dessa maneira que Frejat se refere a Ezequiel Neves (1935-2010), o jornalista e produtor musical de Belo Horizonte que se tornou figura indissociável do Barão e de Cazuza. “Ninguém pode provar nada – A inacreditável história de Ezequiel Neves”, de Rodrigo Pinto, será lançado em 12/10, às 22h, no Canal Curta! (no dia 15/10 chega ao streaming CurtaOn). “O documentário é a cara do Ezequiel”, comenta Frejat, logo concluindo: “Era um cara muito inteligente e doido. Bota doido nisso. Não era mole de encarar, mas foi fundamental em nossas vidas.”
SET LIST*
• “Maior abandonado”
• “Pedra, flor e espinho”
• “Pense e dance”
• “Política voz”
• “Tão longe de tudo”
• “Bete balanço”
• “Meus bons amigos”
• “Ponto fraco”
• “Tente outra vez”
• “Eu queria ter uma bomba”
• “O tempo não para”
• “Quem me olha só”
• “Down em mim”
• “Todo amor que houver nessa vida”
• “Codinome beija-flor”
• “Por você”
• “Amor, meu grande amor”
• “Vem quente que eu estou fervendo”
• “Malandragem dá um tempo”
• “Torre de Babel”
• “Declare guerra”
• “Cuidado”
• “Não me acabo”
• “Quando o Sol bater na janela do teu quarto”
• “Puro êxtase”
• “Bilhetinho azul”
• “O poeta está vivo”
• “Por que a gente é assim?”
• “Pro dia nascer feliz”
*Repertório sujeito a mudanças
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