Há mais de 40 anos refestelada no mundo do cinema e na lida com as artes, a espanhola Isabel Coixet é exemplo da expressão popular, refinada e globalizada. Aos 66 anos, ela é recorrente no circuito de festivais de cinema como Veneza, Cannes e Berlim, isso além de ter tido 10 títulos selecionados pelo prêmio Goya, o “Oscar espanhol”.
À lista de astros que já dirigiu, em que estão Tim Robbins, Juliette Binoche, Penélope Cruz, Ben Kingsley e Mark Ruffalo, agora, com o filme “Três vezes adeus” – que estreia nesta quinta-feira (24/9) em Belo Horizonte –, ela soma Alba Rohrwacher e Elio Germano, centrais para a trama em que a personagem Marta passa a vida a limpo.
Lúcida, divertida e muito informada, Isabel Coixet, uma notável amante de música e literatura, admira de Nina Simone a Os Mutantes, passando por Elis Regina e pelo filósofo de ponta, em sua avaliação, Vinicius de Moraes.
Autora de filmes como “Minha vida sem mim”, “A livraria” e “A vida secreta das palavras”, a espanhola aborda na entrevista a seguir temas como algoritmo, avanço da extrema-direita e inspirações pessoais.
“Três vezes adeus” termina com um grande pesar. Como se relaciona com sacrifícios de personagens?
Não encarei isso como um sacrifício. Michela Murgia (morta em 2023, e autora da semibiografia que inspirou o filme) escreveu aquele final ciente do que sabia sobre o próprio corpo, e traí-lo teria sido uma covardia estética e moral. O cinema tem uma tendência doentia de adoçar a morte, de transformá-la em uma passagem luminosa ao som de cordas. Eu queria que doesse como dói: com desajeitamento, com coisas não ditas, com uma tigela de arroz pela metade. Perder um personagem central obriga o espectador a conviver com a ausência, e a ausência é uma matéria-prima narrativa muito mais fértil do que qualquer redenção de última hora.
Você conhece o Cinema Novo? Como se relaciona com o cinema brasileiro atual?
Claro que conheço o Cinema Novo. Vi “Deus e o diabo na Terra do Sol” em um cineclube de Barcelona, aos 20 anos, e saí com a sensação de que o cinema podia ser uma forma de fúria organizada. Glauber Rocha entendeu que a estética da precariedade era uma posição política, não uma limitação. E o que acontece agora no Brasil me parece extraordinário: Kleber Mendonça Filho (de “O agente secreto”) filma a memória como se fosse um thriller – e ainda por cima com muito humor! –, e o que Fernanda Torres faz em “Ainda estou aqui” é de uma contenção maravilhosa que deveria ser estudada. Quanto à música: cresci ouvindo Elis Regina e continuo achando que “Águas de março” e todas as canções de Vinicius de Moraes contêm mais sabedoria sobre a vida do que a maioria dos tratados de filosofia que li. Também sou muito fã de Os Mutantes; sempre quis incluí-los em alguma trilha sonora... Não descarto essa possibilidade!
Como vê o avanço de narrativas de extrema-direita na Espanha?
Elas existem, e negá-lo seria ingenuidade. Onde governam, a primeira coisa que sofre cortes é a cultura, porque a cultura faz perguntas incômodas e eles preferem públicos obedientes. A ascensão dessas narrativas representa algo muito antigo disfarçado de novidade: o medo do outro, daqueles “que vêm tirar o nosso pão”, transformado em programa eleitoral. O que mais me inquieta não são os políticos – que, afinal, fazem um trabalho sinistro –, mas o cansaço das pessoas decentes, aquela tentação de olhar para o outro lado porque indignar-se cansa. O cinema não vai salvar ninguém, mas pode impedir que nos acostumemos.
Como tira aprendizados diante das oportunidades de coproduzir com outros países?
A Itália, com que fiz “Três vezes adeus”, me ensinou muito ultimamente, a começar pela língua: rodar o filme em italiano, sendo eu espanhola, foi como cozinhar na casa de outra família com as panelas deles. Isso me obrigou a ouvir de outra maneira. O Japão me ensinou o valor do silêncio em “Mapa dos sons de Tóquio”. O mundo anglo-saxão me deu a disciplina do roteiro. Mas, sendo honesta, a cultura que mais me formou é a das mulheres que leio: Natalia Ginzburg, Annie Ernaux, Clarice Lispector, Michela Murgia. Elas me ensinaram que o doméstico pode ser épico.
Você costuma explorar o melancólico. Acha que o cinema acesse níveis de cura para espectadores e público?
Desconfio da palavra curativo; soa a spa. Mas acredito que o cinema faz companhia, o que é diferente. Quando alguém sai de um filme meu e me diz “isso aconteceu comigo”, não se curou de nada, mas durante duas horas sentiu-se menos sozinho – e isso não é pouca coisa. Para quem filma, também funciona: já inseri em meus filmes lutos que não sabia nomear de outra forma. A melancolia dos meus personagens não é uma pose; é a constatação de que a perda é o preço de ter querido algo. E suponho que eu tenha nascido melancólica.
Como percebe a construção do masculino em seu cinema?
Interesso-me pelos homens que duvidam. O cinema produziu, durante um século, uma masculinidade de certezas, e as certezas me entediam profundamente. Os homens dos meus filmes costumam estar feridos ou aprendendo a ouvir – o que, talvez, seja a mesma coisa. Quanto ao feminismo, o que nunca perco de vista é que as mulheres que filmo são pessoas antes de serem símbolos: elas erram, desejam de forma equivocada, mentem. Uma personagem feminina exemplar é uma personagem morta. E o jornalismo me deu o ofício de olhar: você aprende que a verdade está no detalhe que ninguém considera importante, na maneira como alguém segura uma xícara enquanto mente para você. Isso, no fim das contas, é dirigir.
“TRÊS VEZES ADEUS”
(Itália/Espanha, 2025, 120 min.) Direção: Isabel Coixet. Com Alba Rohrwacher, Elio Germano e Silvia D'Amico. Estreia nesta quinta-feira (24/9), no Cine Belas Artes (Sala 1, 14h).
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