Sarah Sampp está pronta para decolar. Aos 22 anos, a jovem, nascida Sarah de Oliveira Sampaio e criada na Pedreira Prado Lopes, Região Noroeste de Belo Horizonte, se tornou presença constante nos palcos da cidade desde o lançamento do primeiro disco, em maio deste ano. Quem a vê em cena talvez não imagine que, antes de sonhar com a música, ela queria ser atriz.
No palco, Sarah tem a desenvoltura de quem já é íntima daquele espaço. Canta, dança, conversa com a plateia e ainda encontra tempo para produzir conteúdo para as redes sociais usando o próprio celular. A experiência no teatro ajuda a explicar essa presença. A artista fez aulas no Galpão Cine Horto e participou de projetos no audiovisual, experiências que, segundo ela, contribuíram para a maneira como ocupa o palco.
“Esse trabalho com audiovisual me ajuda muito nessa desenvoltura e na narrativa também. Gosto muito de trabalhar algumas narrativas no show”, conta.
Em 2018, aos 15 anos, Sarah entrou para a cena do slam. Incentivada pela mãe a escrever, teve na notícia do assassinato de Marielle Franco o impulso para fazer os primeiros versos. Pouco depois, passou a integrar o coletivo Pretas Poetas e a frequentar as disputas de poesia de BH.
A poesia nunca ficou para trás. Sarah costuma abrir os shows com declamações antes de entrar nos beats. Ao lado da DJ Roxy, canta, dança e interage com o público. Os refrões fáceis de decorar ajudam a aproximar quem está ouvindo pela primeira vez. Sarah ensina as letras durante a apresentação e, pouco depois, já vê o público cantando junto.
A relação com a música vem de casa. O avô tocava trombone de vara e o tio, pistom. Na Pedreira, também cresceu cercada pelo funk, pelos bailes e por uma movimentação cultural que ajudou a formar seu repertório.
“Acho que o lugar de onde você vem diz muito sobre você e sobre tudo que você faz e fala”, afirma. “Tudo que aprendi musicalmente, dos meus primos tocando, do meu tio, tudo foi ali na [Região] Noroeste, na Pedreira, no Santo André.”
A mãe, Magna Cristina, acompanha de perto esse caminho. Além de incentivar Sarah desde o início, hoje trabalha como produtora da filha e fica de olho nas oportunidades que aparecem. A rotina de uma artista independente, ela conta, exige atenção aos editais, festivais e projetos que surgem pelo caminho. “A gente fica de olho em tudo, em todas as oportunidades que aparecem”, conta a mãe.
Magna participa de um dos clipes da filha, enquanto o primo Miguel Marques produziu todos os vídeos do projeto.
Projeto de fôlego
Em “Visão piranha”, projeto de maior fôlego da artista, lançado em maio deste ano, o próprio nome já carrega uma provocação. Sarah se apropria de uma palavra historicamente usada para diminuir mulheres e dá a ela outro sentido, ligado a poder, liberdade e autonomia.
A ideia inicial era fazer um trabalho sobre o congado mineiro, projeto que permanece nos planos da artista. O caminho acabou sendo outro. “Visão piranha” virou uma mixtape que mistura música, audiovisual, moda, televisão e memória coletiva.
Sarah criou para o projeto uma espécie de emissora de televisão fictícia. Academias retrô, programas de auditório, comerciais de televisão, máquinas de escrever, televisores de tubo e carros antigos aparecem na construção desse universo, que reúne referências de R&B, Miami Bass, funk e hip hop com uma estética contemporânea e periférica.
A produção musical é de Brandu e Linguini, escolhidos por Sarah também pela relação com a cena local. “Queria trazer esses artistas locais mesmo, daqui, da cidade, da região”, explica.
Na estreia, aparecem nomes conhecidos do rap mineiro, como Djonga, de quem Sarah é prima e com quem já participou como backing vocal em uma turnê, e Mac Júlia. As músicas partem da própria vivência da artista, mas não seguem sempre pelo mesmo caminho. Sarah gosta de colocar lado a lado assuntos pesados e situações cotidianas, crítica social e diversão. O rap e o funk, dois gêneros importantes na sua formação, ajudam a construir essa mistura.
Dois mundos
“O funk foi um dos primeiros ritmos que gostei desde criança. O funk traz muito isso de curtir, de festejar, e o rap traz esse lado mais político de manifestação. Então, tento misturar esses dois mundos”, conta.
Essa dualidade também aparece na maneira como Sarah se apresenta. Ela pode falar de questões sociais e, na música seguinte, levar o público para uma situação cotidiana ou para uma festa. A intenção é não escolher entre os dois lados.
As referências para construir essa persona vêm tanto de casa quanto da música. Sarah cita a mãe e as tias, além de uma família que descreve como “muito artística e muito solta”. Entre as artistas que admira, estão Tasha & Tracie, Duquesa e Negra Li.
Aos poucos, o trabalho também começa a criar uma comunidade em torno dela. Sarah já tem um primeiro fã-clube, que reúne seguidores para compartilhar fotos e acompanhar as conquistas da artista. A mineira completa 23 anos no próximo dia 27 e tem planos de voar alto. Quer fazer parcerias com artistas de outros lugares, viajar, crescer a equipe, participar de grandes festivais e transformar a música em uma carreira cada vez maior. “Pretendo sair de Minas Gerais com a arte”, afirma.
No quarto, ela mantém um quadro dos sonhos. A colagem reúne um tapete vermelho, viagens, um carro, muitos seguidores e uma conta bancária cheia de dinheiro. No meio das imagens, a frase: “Tudo isso já pertence a mim”.
AGENDA
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No próximo dia 26, sábado,Sarah Sampp faz show no Parque Municipal, em Belo Horizonte, como atração do festival “Rango y Rolé”.Já em 16 de outubro,ela se apresenta na Autêntica.
