Fundada há 11 anos por Bete Coelho, Gabriel Fernandes e Ricardo Bittencourt, a companhia Teatrofilme vem, ao longo dos últimos tempos, investigando, em parceria com o escritor Caetano Galindo, as possibilidades de interseção entre literatura e artes cênicas. Essa pesquisa desembocou no espetáculo “Lia Lia”, estrelado por Bete Coelho, ao lado de Camila Pitanga.
A montagem chega a Belo Horizonte, na 3ª edição do Festival Sesi em Cena, com apresentações neste sábado (12/9) e domingo, no Teatro Sesiminas.
Adaptada do livro “Lia: cem vistas do Monte Fuji”, primeiro romance de Galindo, a peça parte do último capítulo de sua tradução de “Ulysses”, e de “Ana Lívia” (2023), dramaturgia original do autor. Bete, que responde pela adaptação e codireção do espetáculo, ao lado de Gabriel Fernandes, conta que, quando leu o romance, vislumbrou imediatamente a transposição para a cena.
“Fiquei muito mobilizada pela forma do livro e por essa mulher que vai surgindo aos poucos, sem jamais se deixar definir completamente”, diz, referindo-se à personagem que compartilha com Camila Pitanga. Lia é apresentada por meio de fragmentos de memória, sensações e relações que atravessam sua vida.
Com direção de arte de Daniela Thomas e direção musical de Felipe Antunes, a peça conta, ainda, com um coro cênico e com os atores Roberto Audio, Laís Lacôrte e Lindsay Castro Lima no elenco.
ATRIZES DIFERENTES
Para Bete, chama a atenção no romance a relação muito particular do autor com a palavra, com o ritmo da frase, com aquilo que é dito e também o que permanece em suspensão. “Outra coisa é que Lia não é apresentada como uma personagem extraordinária, no sentido convencional. É uma mulher, uma vida, e dentro dessa vida existe um universo. O livro olha para o que pode parecer cotidiano e encontra ali uma complexidade imensa. Isso também me interessa muito no teatro”, afirma.
A artista diz que o maior desafio da adaptação – na qual colaborou o próprio Galindo, somando trechos inéditos – foi preservar a fragmentação, os saltos, as lacunas, e, ao mesmo tempo, fazer com que a obra original tivesse uma vida teatral própria.
“Numa adaptação existe sempre a tentação de organizar, explicar, construir uma linha mais clara. Eu achava que seria um erro fazer isso aqui. Não queríamos ilustrar o romance, queríamos descobrir qual teatro existia naquele material”, pontua.
EXISTIR NA DIFERENÇA
Sobre o trabalho com Camila Pitanga, com quem divide o palco pela primeira vez, ela aponta que é um encontro desejado há muito tempo, que “acabou sendo mais rico do que se imaginava”. Segundo Bete, as duas são muito diferentes, e isso favorece a personagem.
“Lia precisava poder existir nessas diferenças. Nós duas fazemos Lia, mas cada uma traz para ela uma matéria muito própria, e isso amplia a personagem. Acontece aí uma coisa muito interessante: você percebe que uma pessoa não é uma coisa única, estável”, diz.
Ela considera que dirigir e atuar implica uma dificuldade extra, porque é preciso estar dentro e fora ao mesmo tempo. “Quando estou em cena, preciso me entregar completamente ao trabalho de atuação, mas existe também uma parte de mim que continua percebendo a arquitetura do espetáculo. Por isso a parceria com o Gabriel é tão importante”, ressalta.
Ela diz que pode estar dentro da cena porque sabe que há um olhar atento de fora. “Depois voltamos a conversar, a rever, a deslocar coisas.”
Desde que a montagem estreou, em março passado, o retorno tem sido o melhor possível, conforme afirma a atriz. Ela diz que, ao fim da apresentação, as pessoas a procuram para falar de lembranças, de momentos das próprias vidas que o espetáculo recuperou.
“Isso me interessa muito mais do que ouvir de alguém que 'entendeu' a peça. Tem sido muito bonito perceber como ela, que é tão fragmentada e tão aberta, consegue produzir uma identificação tão íntima”, comenta.
“LIA LIA”
Espetáculo com Bete Coelho e Camila Pitanga, no Festival Sesi em Cena, neste sábado (12/9), às 20h, e domingo (13/9), às 19h, no Teatro Sesiminas (Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia). Ingressos a R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia), à venda no Sympla. Sessão com audiodescrição no sábado e interpretação em Libras nos dois dias.
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“[BH] É onde comecei a fazer teatro e onde se formaram referências muito importantes na minha vida artística. Voltar à minha cidade com um trabalho tão importante da Teatrofilme é, de alguma maneira, reencontrar uma parte fundamental da minha própria história”
Bete Coelho
Atriz
