A imagem de uma pessoa com deficiência frágil e sem desejo sexual passa longe de "London", que faz sua estreia mundial neste domingo (6/9) na Semana Internacional da Crítica, seção dedicada a novos talentos que ocorre em paralelo ao Festival de Veneza, na Itália.


No filme, o personagem-título trabalha como dominador em um inferninho de Porto Alegre. A obra é a estreia na direção de longa-metragens dos gaúchos Victor Di Marco e Márcio Picoli, que já haviam chamado a atenção com curtas como "O que pode um corpo?" (2020) e também assinam o roteiro.



Victor, além disso, dá vida ao protagonista London, um jovem PCD como ele. "Nosso grande desejo era falar sobre um corpo com deficiência, que é algo recém-descoberto no audiovisual brasileiro, mas também ir além", comenta Victor.


"A ideia era criar uma história que fizesse o público se conectar com o nosso personagem e repensar a sua vida também". Na trama, London divide seus dias entre o trabalho no clube de sexo no qual realiza os fetiches dos frequentadores, como enrolá-los em papel filme, deixando apenas um pequeno orifício para que possam respirar, e encontros casuais marcados por aplicativo de pegação.



Márcio explica que a escolha de colocar o personagem nessa posição de controle foi deliberada. "A representação da pessoa com deficiência sempre era no lugar de 'ai, aquele personagem horrível tomou uma deficiência como punição' ou 'aquele personagem está bem, vem a deficiência e acaba com a vida'", conta.


"A gente queria inverter essa lógica. É um personagem que justamente não consegue controlar tanto o seu corpo, então ele se coloca na posição de controlar o corpo do outro, de poder imobilizar o outro", explica.


"Foi um jeito que achamos de explorar o fetiche dando camadas, não só para o personagem, mas também para quem habita aquele espaço". Durante a pesquisa para estabelecer o universo habitado pelo personagem, além de ler pesquisas acadêmicas sobre trabalhadores sexuais, a dupla conversou com muitos desses profissionais.


Também visitou lugares como "saunas, inferninhos e puteiros". "Foi uma coisa muito orgânica para mim", afirma Victor. "Não teve essa coisa de 'nossa, vou entrar no mundo do sexo, no mundo do fetiche', porque isso já está na minha vida".


Casados, os criadores contam que a intimidade impediu qualquer constrangimento na hora de gravar as sequências de maior voltagem erótica. "São as cenas mais divertidas de gravar", conta Márcio.



"Enquanto casal é algo tranquilo porque não consigo ver o Victor ali; vejo o London. Eu convivo muito com Victor, então sei exatamente o quão diferente eles são. A gente transa, né?".


Apesar de terem a deficiência como característica em comum, Victor também faz questão de se separar de London. "É óbvio que ele tem coisas minhas, assim como tem coisas do Márcio. Não tem como escrever um roteiro sem que os roteiristas se coloquem um pouco na história", afirma.


"Mas, enquanto construção de personagem, foi como qualquer outro trabalho que fiz como ator. Tem a questão de ser um ator com deficiência fazendo um filme que também fala sobre isso", admite.


"Isso deve chegar nas pessoas de um jeito que desperta uma certa curiosidade. Mas espero muito que elas se conectem com o personagem e consigam esquecer um pouco essa dicotomia".


Victor também destaca que, em nenhum momento, o filme discorre sobre qual é a deficiência do personagem, de modo que não é possível dizer se é a mesma que a dele.


"O que prova que o filme não fala só sobre deficiência é que, se tu tira a deficiência do London e coloca, sei lá, uma doença ou qualquer outra diferença ali, o filme segue funcionando do mesmo modo", afirma.


"Porque esse não é o ponto. É uma escolha política porque o que me interessa não é tratar a deficiência enquanto dispositivo narrativo", explica. "O que a gente faz é tratar a deficiência enquanto linguagem cinematográfica. A partir do momento que a deficiência vira algo estético, o jogo muda".


Na ficção, o personagem recusa fazer exames que poderiam levar a uma conclusão sobre sua condição. Na vida real, Victor diz que prefere não especificar qual é sua deficiência.



"A deficiência carrega um mistério", diz. "Acho que o London abraça esse mistério de não saber o futuro dele. E faz esse convite às pessoas a abraçarem o mistério também".


Segundo ele, os PCDs colocam em evidência que ninguém tem certeza de nada na vida, algo que ele avalia como poético. "Acho que talvez isso seja o que inquiete tanto quem não tem deficiência", avalia.


Márcio concorda com a escolha. "A gente está em um momento muito forte de etiquetações", diz. "Tudo gera bolhas, tudo gera essa ânsia das pessoas de serem algo. Enquanto a gente tem um mundo inteiro indo atrás cada vez mais de rótulos, de etiquetas, a gente tem um personagem que está o tempo inteiro tentando buscar sua individualidade e negar tudo isso".


Sobre a estreia em uma vitrine tão prestigiada quanto a Semana da Crítica, a dupla conta que a ficha ainda está caindo. "Tenho certeza de que esse filme vai ajudar a diversificar ainda mais o olhar sobre o nosso cinema", comemora Márcio.

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"Ficamos muito felizes com essa oportunidade de mostrar um filme pequeno como o nosso, mas ao mesmo tempo tão grande de coração, de mensagem e de potência".


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