Quinze dias depois do anúncio de que a 6ª edição da Semana do Cinema Negro em Belo Horizonte não iria ocorrer, os organizadores do evento confirmaram que o festival será, sim, realizado neste ano. Após o anúncio do cancelamento devido a falta de patrocínio, surgiu um interessado em se associar à organização do evento.


Layla Braz, idealizadora da Semana do Cinema Negro, disse ao Estado de Minas que a organização ainda está na fase de assinaturas do contrato, período em que o nome do novo correalizador não será divulgado. O evento deve ocorrer entre os dias 14 e 18 de outubro, em local ainda a ser anunciado.


“Desde o início do ano, tentamos vários editais, buscando patrocínios. Quando se esgotaram as possibilidades, cancelamos. Mesmo depois de uma edição de destaque a gente não conseguir recursos para o projeto é muito frustrante. Parece que, enquanto não tivermos 10 anos, vamos sempre voltar ao zero”, afirma Layla.


Em 2025, o festival teve apoio da Lei de Incentivo à Cultura de BH e da Polícia Nacional Aldir Blanc. Este ano, sem esses incentivos, o novo correalizador entrou com uma quantia próxima ao orçamento das edições anteriores. “A gente vai conseguir fazer o evento de maneira confortável e digna para a equipe e o público”, diz a idealizadora.


Na 5ª edição da Semana do Cinema Negro, o cineasta estadunidense Charles Burnett veio ao Brasil para exibição e comentários de três de seus filmes: “A aniquilação de Fish” (1999), “O casamento do meu irmão” (1983) e “O matador de ovelhas” (1977). Burnett é um expoente da chamada L.A. Rebellion – movimento de estudantes cineastas negros em Los Angeles.


Neste ano, a Semana não poderá contar com outro grande nome que a organização almejava trazer a BH. “A gente queria trazer o Haile Gerima, também da L.A Rebellion. Ele estreou um filme este ano no Festival de Berlim. Estávamos tentando, mas é difícil com realizadores internacionais. Não tem tantos patrocínios como festivais de maior porte”, explica Layla.

ACESSO


A Semana do Cinema Negro é uma oportunidade para a população preta descobrir novos acessos à cultura. “Cada festival tem um público: a CineBH tem mais cinéfilos; o Forum.doc tem um público mais academicista e um viés voltado ao cinema indígena. A Semana busca trazer pessoas negras ao cinema. Sempre ouço relatos de pessoas que não sabiam que havia coisas gratuitas no Palácio das Artes [que abrigou a 5ª edição] e não sabiam que poderiam se ver através das telas”, comenta Layla.


No ano passado, o grupo AfroVelozes, composto por corredores pretos de BH, organizou uma corrida em volta do Palácio das Artes antes de uma das sessões da Semana do Cinema Negro. Os participantes na sequência assistiram a um título exibido na seção do festival Conversas para Quando o Tempo Não Existir.


Em suas cinco edições, realizadas no Cine Humberto Mauro, do Palácio das Artes, e no Cine Santa Tereza, o festival exibiu 300 filmes e atraiu mais de 30 mil pessoas, considerando atividades presenciais e on-line, como sessões, debates e ações formativas.


Uma das mostras do festival, a Cine Escrituras Pretas, destaca títulos de realizadores brasileiros. Para a edição deste ano, a seção recebeu em torno de 300 inscrições.

A movimentação do cenário preto mineiro no audiovisual tem alcance além do regional. Entre os 15 filmes habilitados a representar o Brasil no Oscar, em lista divulgada pela Academia Brasileira de Cinema (ABC), dois são de realizadores pretos e de Minas – “Nosso segredo”, de Grace Passô, e “Vicentina pede desculpas”, de Gabriel Martins. A ABC deve divulgar o título escolhido no próximo dia 16.

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*Estagiário sob supervisão da editora Silvana Arantes

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