Ao longo dos últimos 13 anos, Ed Motta lançou três álbuns e se envolveu em várias polêmicas. Seu desejo, agora, é deixá-las de lado e focar na música. É com esse espírito que ele lança, no próximo dia 25, o disco “Toc toc”, que já teve dois singles divulgados nas plataformas, “Eu quero ser feliz” e a faixa-título.



O novo trabalho do cantor, arranjador e multi-instrumentista guarda características que, de certa forma, marcam um retorno no tempo, tanto do ponto de vista das letras quanto da sonoridade.
O primeiro reencontro que “Toc toc” promove é o de Ed com a língua portuguesa, já que seus três últimos álbuns foram compostos e gravados em inglês: “Perpetual gateways” (2016), “Criterion of the senses” (2018) e “Behind the tea chronicles” (2023).



O segundo resgate diz respeito à estética musical presente em seus primeiros trabalhos, com inspiração direta no soul e no funk norte-americanos das décadas de 1970 e 1980. O músico explica que “Toc toc” resulta naturalmente de seu processo de criação.



Ele diz que compõe com muita frequência e acaba, dessa forma, passando por vários estilos diferentes. “Num determinado momento, percebi que começou a aparecer uma leva de músicas com essa característica mais pop, uma coisa mais solar e, ao mesmo tempo, com uma pegada noturna, que tem a ver com a coisa dos bailes, da música para dançar. 'Toc toc' remete ao 'Conexão Japeri' (1988) e a 'Um contrato com Deus' (1990), meus dois primeiros discos”, afirma.



Ed observa que seu álbum anterior, que apresentava uma orquestração exuberante, com muitos instrumentos e muitas camadas, é completamente distinto do novo, que tem uma feição mais minimalista.



“Toc toc” é, segundo ele diz, um disco essencialmente feito a quatro mãos, as suas e as do produtor Michel Limma. Os dois pilotaram as gravações, tocaram tudo o que se ouve ao longo das faixas e conferiram ao disco uma textura eletrônica que remete a “Entre e ouça”, de 1992, também gravado a quatro mãos, com o produtor Bombom.



POUCAS COLABORAÇÕES



“No 'Toc toc', tivemos pouquíssimas colaborações, só o sax do Marcelo Martins em uma faixa e um vocal de apoio em outra”, pontua. Ele diz que voltar os olhos e ouvidos para a música negra norte-americana produzida entre as décadas de 1970 e 1980 foi um movimento natural.



“No meu dia a dia como ouvinte, rola de tudo, de música clássica a Black Sabbath. Agora, quis revisitar esse som meio eletro-funk do início dos anos 1980, que foi exatamente quando comecei a montar minhas primeiras bandas no colégio”, conta.



Sobre os três álbuns anteriores cantados em inglês, ele explica que foram lançados por selos europeus e representaram um esforço para aprofundar a inserção internacional de sua música. “Toc toc” sai por um selo alemão, o MPS, que lançou trabalhos de Baden Powell, Egberto Gismonti e Hamilton de Holanda, e que, conforme diz, está se abrindo mais para o pop. “O Blue Note, que sempre foi um selo radical de jazz, também está nesse movimento de abertura”, comenta.



Ainda sobre os álbuns anteriores, ele afirma: “Existe aí uma questão de sonoridade também, mas tenho a experiência, desde meu primeiro disco, de cantar esse estilo e alcançar essa sonoridade em português; me especializei em fazer esse estilo pegando coisas do português que lembram o inglês. Aprendi muito isso com Cassiano e Marku Ribas”.



O músico diz perceber, atualmente, uma “boa vontade muito grande de ouvir o português entre o público internacional”, o que foi uma das razões para retomar sua língua pátria. Outra é o desejo de estruturar uma série de shows a partir do lançamento de “Toc toc”, para atender ao que ele identifica com um público muito fiel no Brasil.



Ele, contudo, lamenta não haver garantia de que isso seja possível. “Nunca tive a sorte de conseguir organizar uma turnê, com shows em sequência. As datas sempre apareceram esporadicamente.”
No ano passado, em uma entrevista para a “Rolling Stone”, ele se queixou de que os shows no Brasil andavam escassos por causa de uma “censura velada” ou de um “linchamento” que sofre por expor suas opiniões.



“A dificuldade de estruturar turnê é uma coisa que vem desde o início da minha carreira, nunca tive essa experiência, mas, sim, esse cancelamento de que às vezes sou vítima por dizer o que penso dificulta muito a caminhada, fecha um monte de portas”, diz.

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CONFUSÃO NO RESTAURANTE


A polêmica mais recente em que Ed Motta se meteu é de maio passado, quando se envolveu em uma briga em um restaurante de luxo no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele alegou ter se sentido desprestigiado pela cobrança de uma taxa de rolha, já que era frequentador habitual do estabelecimento e nunca precisou pagar tal taxa. O músico arremessou uma cadeira no chão antes de deixar o restaurante. Ele foi acusado de agredir clientes de outra mesa e proferir insultos xenofóbicos contra funcionários, assim como amigos que dividiam a mesa. Posteriormente, Ed admitiu em áudios que bebeu demais e estava alterado. “Isso tem uma reverberação desagradável, muito ruim ainda, mas acho que aprendi minha lição com isso, uma situação realmente muito desagradável”, diz.



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