O show foi em São Paulo, muitos anos atrás. No meio da apresentação, Martinho da Vila teve vontade de ir ao banheiro. Não pensou duas vezes: “Mart’nália, segura aí um pouquinho”. E se foi. Quando retornou para o palco, “a plateia estava eletrizada”, ele relembra. Foi esse o batismo dela como cantora, a própria confirma. “Foi que nem aprender a nadar. Botou na ‘carcunda’, mergulhou, fingiu que estava longe, e deixou ir.”



Martinho e Mart’nália, unha e carne desde sempre, andavam se vendo pouco. “A vida é corrida, né? A gente estava se encontrando mais nas estradas do que dentro de casa”, diz ela. Foi desta maneira – e também garantindo que os dois iriam se divertir às pencas – que a terceira filha de Martinho convenceu o pai, hoje com 88 anos, a fazer uma longa turnê. A última dele por todo o país, diga-se.“Pai e filha”, temporada de 30 shows, chega a Belo Horizonte nesta sexta (4/9), no Arena Hall. Os dois desembarcam nesta quinta (3/9) na cidade.


“Meu pai sempre teve essa mania de chegar nos lugares um dia antes para conhecer. Então, estamos revisitando juntos os locais, as comidas”, diz Mart’nália. Martinho acrescenta: “Gosto de tudo daí – da comidinha mineira, do jeito que os mineiros falam, principalmente aqueles que não perderam o jeitinho, pois agora tá tudo misturado, né?”A temporada teve início em 30 de maio, no Rio. Juntos mesmo, Martinho e Mart’nália cantam na parte final da apresentação, que tem mais de 30 músicas no repertório. Antes, é cada qual com sua banda fazendo seu próprio repertório. Os shows deverão virar um documentário.



“A gente nunca fez show juntinho. Nos encontramos em palcos assim, em participaçãozinha. Então esse momento está sendo muito especial, pois ainda tem as duas bandas juntas”, comenta Mart’nália, que comemora 61 anos na próxima segunda (7/9). Existe um repertório prévio, obviamente, mas improvisos nunca faltam. “A gente faz um roteiro, mas não segue assim. É só para ter uma base, pois durante as apresentações vão surgindo coisas e a gente vai mudando”, comenta ele.



“DE AMOR E PAZ”



“Gosto de vê-la dançar. E cantar qualquer coisa com ela”, continua Martinho. Se for falar sobre uma preferida, ele cita “De amor e paz” (Luiz Carlos Paraná/Adauto Santos), gravada por Mart’nália no álbum “Pé do meu samba” (2002), trabalho produzido por Caetano Veloso. Anos mais tarde, pai e filha a defenderam juntos, no palco.



Por muito tempo, Mart’nália acreditou que “De amor e paz” era de autoria do pai, que a cantarolava muito em casa. Só que, até agora, a canção não havia entrado nos shows de “Pai e filha”. “Vamos cantar essa, pai?”, pergunta ela durante a entrevista ao Estado de Minas. Como assim, ela não estava? “Não está não”, diz Martinho. “Mas vai passar a ficar depois dessa conversa.”



Martinho nunca quis que nenhum de seus oito filhos seguisse a carreira artística. “Sempre fui contra os pais que querem que os filhos sigam sua carreira, que sejam médicos, dentistas, essas coisas. Não era a minha intenção, só que ao mesmo tempo eu me contradizia, pois chamava a Mart’nália para fazer um vocal para mim, cantar um pouquinho junto.”



Martinho não facilitou a vida de Mart’nália. Na década de 1980, ao lado da irmã mais velha, Analimar, entrou para a banda do pai como backing vocal. Cumpriu tal papel por muitos anos, não só com Martinho, como também com Alcione e Fundo de Quintal. Na época, chegou a lançar um álbum dedicado ao samba-canção, mas não foi daquela vez que ela foi para a linha de frente.



Mart’nália seguiu também como percussionista, se virando nas 11. Nos anos 1990, entrou para o grupo Batacotô. Chegou a gravar discos com o grupo, incluindo uma participação em “Aquarela do Brasil”, álbum de Dionne Warwick produzido para o mercado brasileiro. Lançou um segundo disco, “Minha cara” (1997), e a carreira foi decolando aos poucos. Paralelamente, passou a acompanhar, como backing e percussionista, Ivan Lins.



Até que o pai resolveu deixar o palco para ir ao banheiro. “(Depois da estreia a ferro e fogo) Ele começou a fazer disso um momento (no show). Aí ele podia sair, tomar a bebidinha dele. E me deixava lá. Se meu pai falou, eu tenho que ficar aqui. Não foi complicado (se assumir cantora) porque já estava tudo muito profissional, eu tocando com meu pai, com o Ivan Lins, com todo mundo. Só que depois não queriam mais me contratar (para banda de apoio). Aí eu tive que virar cantora mesmo”, diz ela.



Pai e filha seguem juntos e separados, pois Martinho e Mart’nália têm as próprias agendas individuais, de shows e discos. Ele tem o show de seus sucessos, e ela segue no final da turnê do álbum “Pagode da Mart’nália” (2024). Ambos estão pensando também nos próximos discos, que ficarão para 2027. O de Martinho será só com canções inéditas.



Ainda que ele próprio se assuma devagar, Martinho é imparável. Já publicou romance, memórias, livro infantojuvenil. Lança também neste ano nova coletânea de contos, “Soltando o verbo”. Mas o que gosta mesmo é de voltar para casa. No caso, é a Fazenda Cedro Grande, em Duas Barras, interior do Rio, quase na divisa com Minas Gerais.



Foi ali que ele nasceu – seus pais eram lavradores na fazenda, que, muito tempo depois, Martinho comprou. “Fico ali fiscalizando os passarinhos voarem, os peixinhos nadando no lago.” Quer mais o quê da vida? “Meu sentido da vida é Dorival Caymmi”, afirma.



“Meu pai sempre teve essa mania de chegar nos lugares um dia antes para conhecer. Então, [na turnê] estamos revisitando juntos os locais, as comidas. Gosto de tudo daí – da comidinha mineira, do jeito que os mineiros falam, principalmente aqueles que não perderam o jeitinho, pois agora tá tudo misturado, né?”



Mart’nália,
cantora


“Fico ali [na fazenda onde mora] fiscalizando os passarinhos voarem, os peixinhos nadando no lago. Meu sentido da vida é Dorival Caymmi”



Martinho da Vila,
cantor e compositor

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MARTINHO DA VILA & MART’NÁLIA
Show “Pai e filha”. Nesta sexta (4/9), às 21h30, na Arena Hall (Avenida Nossa Senhora do Carmo, 230, Savassi). Ingressos: a partir de R$ 180. À venda na bilheteria e no Sympla.





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