“Mora na filosofia/ Pra que rimar amor e dor?”, questiona Monsueto em uma de suas músicas mais conhecidas. Na estreia como diretora de longas-metragens, a atriz e dramaturga Grace Passô responde à pergunta do sambista, com foto na capa de um dos discos na sala da residência dos personagens de “Nosso segredo”.
Leia Mais
Ao acompanhar a temporada de luto de uma família belo-horizontina em uma casa cheia de lembranças impregnadas em colchas, mantas e almofadas de crochê, nos retratos nas paredes e nos vinis na estante, Grace não apenas consegue mostrar por que é necessário coadunar amor e dor para seguir no enfrentamento da dureza concreta cotidiana. Ela aponta o caminho de saída da agonia silenciosa pela imaginação de uma criança capaz de escutar – e enxergar – a saudade. Como também canta Monsueto, não é caso de ver para crer. O que os adultos do filme precisam é acreditar para, enfim, enxergar.
Grace contou ao Estado de Minas que “Nosso segredo” foi intencionalmente criado a partir da perspectiva da infância “justamente para que fosse possível olhar o luto do ponto de vista de quem está descobrindo a vida, de quem está cheio de esperança”. O foco no olhar curioso e inquieto do caçula Tutu (Efraim Santos, encantador) é um dos múltiplos acertos do filme. Sozinho ou acompanhado pelas criações de sua mente, Tutu reaproxima pessoas que se amam, mas que, naquele momento, não se enxergam nem se escutam. O garoto conduz a família a atravessar a lama dos dias mortos para degelar “olhos tão sós num mar de água clara”, como canta Geraldo Azevedo em “Caravana” na belíssima sequência inicial, filmada no carro dirigido pelo irmão mais velho, Gilson (Robert Frank, irrepreensível), motorista de aplicativo, com um passageiro misterioso (o músico Mateus Aleluia, imponente).
Além de estabelecer a conexão regional com o pai ausente (o paraibano Nanego Lira), mostrado na foto na carteira de Gilson, a escolha de uma das canções mais delicadas do cantor pernambucano como trilha de uma Belo Horizonte serena e alaranjada nos (e)leva para uma dimensão quase irreal: trânsito civilizado, gentileza entre anônimos, conversas amistosas sem interrupções de WhatsApp e pontuadas por ensinamentos enigmáticos (“Há coisas que a gente sabe, mas não quer saber”, diz Marcelo, o passageiro-entidade interpretado por Aleluia, e a frase ganha outro sentido quando repetida no final). Pela fotografia luminosa de Wilma Esser, estamos em outro lugar que, ao mesmo tempo, é o nosso lugar. Um ambiente familiar.
Em poucos minutos, entramos na casa onde Grace irá reger, com sutileza e precisão, sua sinfonia de vozes, ruídos e silêncios. Nos cômodos e no quintal, cada ator e atriz tem seu solo, cada um mais memorável do que o outro, ainda mais quando emoldurados pela trilha do pianista Amaro Freitas. Efraim, Frank, Ju Colombo (Sueli), Jéssica Gaspar (Grazi), Flip (Guto), Marisa Revert (Anamélia), Gláucia Vandeveld (Lêda), Juan Queiroz (Sidney). Todos brilham. Ninguém desafina.
Se a primeira parte do filme é um drama de pungência poucas vezes visto no cinema nacional contemporâneo, Grace Passô ousa no último ato ao enveredar por dois gêneros: o terror psicológico e o realismo fantástico. Mas o faz como Jordan Peele (“Corra!”), com a apropriação dos códigos para ampliação do impacto do que tem a dizer. “Quis mostrar uma família negra, trabalhadora, brasileira, que precisa continuar a vida depois de perder alguém e encontra no afeto e na união um modo de atravessar esse momento difícil”, afirmou a diretora ao Estado de Minas pouco antes da primeira sessão em BH, na última quinta-feira, no Cine Belas Artes.
Pelo olhar do caçula, essa família, então, se defronta com uma aparição que surpreende, desconcerta, fascina, amedronta. Somente neste momento eles conseguem enxergar – e dimensionar – o peso descomunal da perda que habita a residência e está dentro de cada um. Impulsionados por um áudio repetido em feitio de oração, tentam sair do estado paralisante. Pés no chão, mãos à obra, é hora de tocar as vidas depois da morte.
O primeiro longa-metragem de Grace Passô estreou em fevereiro em Berlim e foi exibido na França, Uruguai, Jordânia e Argentina antes de vencer o Festival de Gramado e entrar em cartaz em mais de 20 cidades brasileiras, entre elas BH, Betim, Contagem e Juiz de Fora. É do mundo, do Brasil, de Minas Gerais. Tem uma coisa que a gente agora sabe e precisa dizer. Feito em casa, “Nosso segredo” é nosso tesouro.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
“NOSSO SEGREDO”
(Brasil, 2026, 109 min.) Direção: Grace Passô. Com Ju Colombo, Robert Frank e Efraim Santos. Em cartaz nos cines Belas Artes, Centro Cultural Unimed-BH Minas, Cidade, Contagem, Monte Carmo e Ponteio.
