De certa forma, Belchior (1946-2017) precisou morrer em vida. Foi a partir de 2009, quando veio a público que o cantor e compositor cearense havia desaparecido, que o culto em torno de sua figura e sua obra cresceu – devoção esta que só aumentou quando ele, efetivamente, morreu.
Com lançamento neste sábado (29/8), no Canal Brasil, “Alucinação”, minissérie em quatro episódios, não tem a pretensão de explicar o que aconteceu com ele. “A série nos deixa mais com perguntas do que respostas. Acho que é uma chave de leitura para entender o Belchior”, afirma Eduardo Albergaria, cocriador (com Daniel Dias) e diretor da produção, que se inspirou na biografia “Belchior – Apenas um rapaz latino-americano” (2017), de Jotabê Medeiros. Albergaria e Dias foram os responsáveis por “Nosso sonho” (2023), cinebiografia de Claudinho e Buchecha.
Indo e vindo no tempo, a narrativa acompanha a trajetória de Antônio Carlos Belchior, o ex-seminarista e ex-estudante de medicina que se tornou um dos maiores nomes da música popular brasileira na década de 1970, a partir do lançamento de “Alucinação”, seu segundo álbum.
Os 50 anos deste trabalho estão sendo comemorados com a série e também com o longa-metragem “Viver é melhor que sonhar” (verso de “Como nossos pais”), que Albergaria finaliza para lançar nos cinemas em dezembro.
“O filme é focado no que gosto de chamar de inverno da vida. O momento final de Belchior, que mobilizou o Brasil diante da fuga e do autoexílio. Já a série é a jornada de Antônio, de como o Frei Sobral (como era chamado quando interno do Mosteiro de Guaramiranga, na década de 1960) vai se transformando em Belchior”, diz Albergaria.
ATORES
Além de terem o mesmo diretor, os projetos, independentes, têm dois atores em comum: Luiz Carlos Vasconcelos e Isabela Garcia, que interpretam Belchior na maturidade e Edna Prometheu, a misteriosa companheira dele.
Mas o protagonista de “Alucinação” é um jovem ator, o carioca Caian Zattar, escolhido entre mais de 800 candidatos. No decorrer dos episódios, o personagem vai se transformando, física e mentalmente. “Muitos dos que participaram dos testes são bons atores, mas eles, de alguma maneira, imitavam o Belchior. E o Caian, não. Para além da caracterização, tanto ele quanto o Luiz Carlos têm algo inato: eles têm um momento de hesitação, de silêncio, que o personagem precisa carregar.”
A minissérie foi toda rodada no Ceará, incluindo as passagens do cantor pelo Uruguai e a vida no Rio de Janeiro. O mosteiro que aparece no primeiro episódio, por exemplo, foi o mesmo em que ele viveu durante três anos com seminarista.
Além de passagens conhecidas da biografia do músico, e com o chamado Pessoal do Ceará (grupo do qual fizeram parte Fagner, Amelinha e Ednardo), a série apresenta situações que poderiam ter acontecido (ou não) com o artista. A série coloca o jovem Belchior ouvindo um causo de Luiz Gonzaga (em emocionante interpretação do mineiro Carlos Francisco) e também vendo o mar com Carlos Drummond de Andrade (na pele de Tim Rescala).
Houve um encontro célebre, e real, que a produção traz à tona. No último episódio, Carlos Bracher interpreta a si próprio pintando um retrato de Belchior. Os dois se conheceram quando o cantor bateu, sem avisar, na casa do artista plástico em Ouro Preto. Ele fez um portrait do artista, que desapareceu anos atrás. Na série, Bracher reproduz o próprio quadro. Uma série de telas dele também foi criada por ele para a abertura de “Alucinação”.
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“ALUCINAÇÃO”
A minissérie estreia neste sábado (29/8), às 22h, no Canal Brasil. Novos episódios aos sábados. Um dia após a exibição na TV, cada episódio será disponibilizado no Globoplay.
