Peça escrita por Nelson Rodrigues em 1960, "O beijo no asfalto" foi a montagem escolhida pelo Grupo Oficcina Multimédia para marcar seus 50 anos de trajetória. Ao mesmo tempo em que abre um ciclo de celebração, o espetáculo – que estreia nesta sexta-feira (28/4) e cumpre temporada até 5 de outubro no CCBB-BH, com sessões de sexta a segunda-feira, às 20h – fecha uma trilogia dedicada ao dramaturgo, que começou com "Boca de ouro", em 2018, e seguiu com "Vestido de noiva", em 2023.
Encenada diversas vezes desde sua estreia, em 1961, a peça acompanha Arandir, homem que presencia um atropelamento e atende ao último pedido de um desconhecido agonizante: um beijo. O gesto de compaixão é transformado em escândalo, com imprensa, polícia, vizinhança e família construindo e chancelando uma narrativa de desvio sexual, crime e traição. A palavra de Arandir perde espaço para uma versão pública construída por interesses, preconceitos, chantagens e falsos testemunhos.
Diretora do Oficcina Multimédia, Ione de Medeiros, que também responde pela concepção cenográfica e pelos figurinos da peça, diz que a escolha de "O beijo no asfalto" para fechar a trilogia e comemorar o cinquentenário do grupo se baseou na atualidade do texto. "É uma peça que fala da questão da mídia, do poder, da transformação do pensamento por falta de informação, da incomunicabilidade, coisas que sempre vivemos e continuamos vivendo. Ela trata de hipocrisia e de individualismo em um mundo desumanizado", diz.
MODERNIDADE
Vencedora do Prêmio APCA de melhor direção por "Vestido de noiva", ela vê em "O beijo no asfalto" a modernidade dos clássicos. Ione observa que a peça dispensa atualizações em função dos elementos da contemporaneidade – avanço tecnológico, redes sociais, velocidade da informação. "É sobre uma verdade que vai sendo alterada, um fato que é espetacularizado e vai sendo recontado a todo momento. Parece que fala de agora, mas isso já existia quando Nelson escreveu o texto; existe desde sempre", ressalta.
Ela sublinha que a peça expõe práticas coletivas anteriores às redes sociais: a defesa da honra, o controle dos corpos, a suspeita diante do desvio e a conversão da família, da vizinhança, da imprensa e da polícia em instâncias de julgamento. A diretora destaca, ainda, o caráter direto do texto. "É muito próximo das pessoas, tem uma linguagem popular que não diminui a tensão ou a dramaticidade da peça. 'O beijo no asfalto' engana, porque tem um aparente senso de humor, mas, de repente, é uma tragédia", pontua.
Curiosamente, segundo Ione, o Oficcina Multimédia nunca priorizou o texto, que, ao longo da história do grupo, se integrava à dança, ao movimento, ao cenário e a outros elementos com igual valor. "Não tinha muito personagem e não tinha muita história. Era um jeito de fazer um teatro multimeios. Foi assim até encenarmos 'A casa de Bernarda Alba', de García Lorca, usando o texto na íntegra. Quisemos, depois, trabalhar com um dramaturgo brasileiro, e escolhemos Nelson Rodrigues, porque a linguagem dele é apaixonante", diz.
OLHAR CARINHOSO
Ela observa que a imagem desde sempre colada ao autor, de "anjo pornográfico", dado a falar de incesto e outros temas que são tabu, na verdade esconde um criador que olha para seus personagens com carinho. Isso está particularmente presente em "O beijo no asfalto", de acordo com a diretora. "Arandir faz o que acha que tem que fazer, um gesto de compaixão e humanidade, indo contra a opinião de todos, sem medo. Hoje em dia, em tempos de preconceito e cancelamento, isso é muito difícil", aponta.
A trilogia dedicada a Nelson Rodrigues tem foco no texto, o que não quer dizer que os outros recursos cênicos do Oficcina Multimédia tenham perdido espaço. Nos espetáculos do grupo o cenário integra a construção dramatúrgica, e não é diferente na nova montagem. As estruturas da cena são manipuladas pelos atores. Em "O beijo no asfalto", a cenografia organiza o palco em dois territórios: um externo, marcado por estruturas frias, simétricas e verticais, e um interno, que, de saída, sugere aconchego, acolhimento e intimidade.
Esse ambiente interno vai mudando de posição à medida que o enredo avança. Pela ação dos atores em cena, ele se aproxima da plateia, recua e se desfaz. A cidade invade a casa antes que os móveis sejam retirados. Isso acontece quando os personagens passam a olhar Arandir por meio da versão construída na rua. Quando o espaço doméstico desaparece, a cenografia apenas conclui uma destruição já consumada nas relações. "O cenário muda porque a realidade representada é feita de versões e enquadramentos", diz Ione.
Durante a temporada de "O beijo no asfalto" serão realizadas duas atividades extras, a oficina "A prática da rítmica corporal do Grupo Oficcina Multimédia", nos dias 9, 10, 16 e 17 de setembro, e um bate papo com Ione de Medeiros e Elen de Medeiros, pesquisadora de Nelson Rodrigues, no dia 24 de setembro. Mais informações no site do CCBB-BH.
USO DO VÍDEO
Outro elemento que compõe a construção dramatúrgica de "O beijo no asfalto" são vídeos produzidos especialmente para a montagem. Eles também estavam presentes em "Vestido de noiva", com a função de separar os planos da realidade, da memória e da alucinação que o texto indica. Já em "O beijo no asfalto", o vídeo cria um espaço de confidência, projetando o rosto dos personagens, que, em breves depoimentos, se dirigem à plateia e revelam sentimentos que não conseguem compartilhar uns com os outros. "Agora as imagens projetadas não ilustram, não ajudam na fantasia; elas servem às personagens, com esses pequenos depoimentos. É uma solução que reforça a contradição da peça: todos falam sobre Arandir, poucos falam com ele", diz Ione de Medeiros.
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"O BEIJO NO ASFALTO"
Peça escrita por Nelson Rodrigues, com montagem do Grupo Oficcina Multimédia, entra em cartaz a partir desta sexta-feira (28/8) até 5 de outubro, no Teatro 1 do CCBB-BH (praça da Liberdade, 450, Funcionários), com sessões de sexta a segunda-feira, às 20h (a apresentação de 4 de outubro, domingo de eleição, foi alterada para o dia 1º de outubro, uma quinta-feira, no mesmo horário das 20h). Apresentações com Intérprete de Libras: 4, 13, 19 e 28 de setembro. Apresentações com audiodescrição: 12 de setembro e 2 de outubro. Ingressos a R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB-BH.
