Cinema e teatro, teatro e cinema. “São coisas diferentes mesmo. Verdadeiramente”, diz Grace Passô. Com mais de 25 anos de palco, ela tem experimentado novidades em torno da tela grande. Não só questões de linguagem e de mercado, mas coisas mais comezinhas.



“Quando fomos estrear em Berlim, comentei: ‘Gente, acho o cinema chiquérrimo. Você se preocupa com roupa, em falar coisas legais, dar entrevistas. Na estreia no teatro, você nem lembra que tem que fazer propaganda, pois tem que dar conta.’ É algo atlético, pois para atuar você precisa estar viva sempre e plenamente.”



Mais celebrada artista mineira de sua geração, a atriz, dramaturga e diretora de 46 anos lança nesta quinta (27/8) seu primeiro longa-metragem. “Nosso segredo” chega aos cinemas após bem-sucedida trajetória em festivais.



Teve première em fevereiro, na Berlinale, seguiu para festivais na França, Uruguai, Argentina e Jordânia, até se consagrar, no último sábado (22/8), como o Melhor Filme de Ficção do 54º Festival de Gramado. Saiu de lá também com os Kikitos de Melhor Fotografia (Wilssa Esser) e Direção de Arte (Lucas Osório). Está também entre os 15 pré-selecionados pela Academia Brasileira de Cinema para ser o representante do Brasil no Oscar 2027. A definição do escolhido sairá em 16 de setembro.



Para este primeiro grande passo – até então ela havia dirigido um média e um curta –, Grace se valeu de uma história que conhecia a fundo. “Nosso segredo” partiu de “Amores surdos” (2005), segundo espetáculo do Grupo Espanca!, que ela cofundou. Foram mais de 200 apresentações e 34 mil espectadores. Foi o primeiro texto escrito por Grace.



Ela chama de “reescritura”, não de adaptação, a história que chega às telas. “A peça tem 20 anos, então as coisas foram modificando muito. Eu mesma já fui para outros lugares da linguagem, então fui me descolando da peça. O que resta é o cerne daquela história.”



CONSCIÊNCIA


O cerne, no caso, é a vida de uma família. Em “Nosso segredo” esta família é negra, algo que não estava no texto teatral. “Mas acho que esses 20 anos também são um recorte da minha vida, de um processo de consciência e militância que fui construindo.”



O luto marca a família de Suely (Ju Colombo), em Belo Horizonte. A perda não é falada abertamente nem por ela, a matriarca imparável nos afazeres, nem por seus filhos. São eles o primogênito Gilson (Robert Frank), motorista de aplicativo que passa a vida em movimento; a jovem Grazi (Jéssica Gaspar), que busca escapar da realidade através da música; o jovem Guto (Flip), que vive nas ruas uma vida que não tem coragem de levar para dentro de casa. E, finalmente, o caçula, o garoto Tutu (Efraim Santos). Em sua ingenuidade, ele vê o que os outros insistem em esconder.



Todos os personagens habitam uma mesma casa – a locação, por sinal, é a antiga residência da mãe de Grace, onde a diretora foi criada, no bairro Jardim Inconfidência, região Noroeste de BH. A casa é também uma personagem, pois é através dela que os sentimentos humanos vêm à tona. A construção “sua” ou “chora”, por meio de infiltrações, e treme sempre que algo importante acontece.



Ainda que o racismo não seja central, ele é presente, como não poderia deixar de ser diante da história de uma família negra no Brasil. “Os personagens têm idades diferentes. E cada geração lida de um modo diferente com questões raciais. Acho que a história tem uma coleção de situações que são muito comuns das nossas vidas negras. Na forma como essa família demonstra seu afeto, como resolve os problemas e também como atravessa o luto”, diz ela.



OLHAR POÉTICO


Uma das ousadias do filme foi colocar um menino como o personagem mais lúcido do grupo. “Eu queria mostrar esse olhar para o luto como algo poético. E acho que o olhar da criança é muito convidativo e generoso”, afirma Grace. Trabalhando com equipe e elenco majoritariamente mineiros, ela encontrou em Efraim Santos um trunfo. Quando Tutu aparece na tela, ele ilumina não só o filme, mas a história dos personagens que estão ali com ele.



Hoje Efraim tem 9 anos. Quando o filme foi rodado, ele tinha 6, não lia ou escrevia. Escolhido por meio de teste entre centenas de crianças, Efraim impactou Grace de tal forma que ela mudou o personagem – originariamente, seria uma menina de 7 anos. “O Efraim é autista nível 1. Já no segundo dia do texto, a mãe dele, Ana, nos explicou as questões dele. Ele é uma criança que topava jogar o tempo inteiro e viver o jogo de novo, como se fosse a primeira vez. E, basicamente, é isso que um ator faz.”



“Nosso segredo”, o próprio título entrega, esconde algo que só a parte final da narrativa vai desnudar. O que dá para falar é que o realismo fantástico, algo caro à obra de Grace como dramaturga, é utilizado no filme. “O fantástico é um jeito de ser um pouco mais épico, de lembrar o espectador que aquela história não é sobre aquela família, mas que ela metaforiza histórias de famílias de um modo geral. Tenho essa obsessão pelo fantástico porque ele me ajuda a escapar de certos padrões de realismo. Me ajuda a voar, a ter liberdade para as narrativas”, comenta Grace.



DE VOLTA AO PALCO


Neste semestre, Grace Passô retorna aos palcos em dois projetos. Um deles é como atriz de “Festa”, espetáculo da Companhia Brasileira de Teatro e do Teatro Experimental do Porto, com direção de Márcio Abreu. Também está em processo nova montagem que ela escreve, dirige e atua. Ainda sem nome, a peça vai reunir outros nove artistas de BH. Em novembro, haverá uma série de ensaios abertos na Funarte. A estreia será em março de 2027.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia



“NOSSO SEGREDO”
(Brasil, 2026, 109 min.) Direção: Grace Passô. Com Ju Colombo, Robert Frank e Efraim Santos. O filme estreia nesta quinta-feira (27/8), nos cines Belas Artes, Centro Cultural Unimed-BH Minas, Cidade, Contagem, Monte Carmo e Ponteio.


compartilhe