Há mais de 20 anos, desde que estreou na direção de longas-metragens com “Houve uma vez dois verões” (2002), o cineasta e roteirista gaúcho Jorge Furtado vem contando a mesma história. Esta se resume no boy meets girl, ou menino encontra menina, estrutura clássica das comédias românticas. “É a quinta vez que faço esse filme, né?”, ele concorda.
Até mesmo seu maior sucesso do gênero, “Saneamento básico” (2007), tem uma mulher forte (Marina, papel de Fernanda Torres) e um homem que vai atrás dela (Joaquim, vivido por Wagner Moura). Em “Muito prazer”, que chega nesta quinta (27/8) aos cinemas, o novo casal é interpretado por Daniel de Oliveira e Luisa Arraes.
Em Porto Alegre, ele vive o mineiro Rubem, que leva uma vida dura e errática como motorista de aplicativo. Acha que tirou a sorte grande ao herdar, de um tio, um motel. A herança se revela uma roubada, pois o imóvel está abandonado e atolado em dívidas. Rubem descobre o presente de grego ao chegar ao local e encontrar Grace (Luisa Arraes).
Antiga funcionária do estabelecimento, com a morte do dono, que lhe devia meses de salário, ela resolve ficar morando por lá mesmo, em uma das suítes. Para tentar sair do buraco, os dois decidem reabrir o motel. Mas não só. Com a ajuda de Nalva (Samantha Jones), começam a gravar os clientes e vender os vídeos, com as identidades protegidas, para sites eróticos.
“Conto sempre a mesma história, mas cada vez em um contexto diferente. Estamos falando de jovens que não têm muito futuro, não têm profissão e querem, a partir da internet, cavar um jeito de pagar as contas. Aliás, todos os meus filmes falam de dinheiro também. Pois esses jovens são falíveis, não são heróis, pois não acredito em heróis ou vilões. São pessoas que querem cuidar da vida e ser felizes”.
CELULAR
A partir da comédia romântica, Furtado queria falar sobre os algoritmos. “Quando a gente está na tela, aparece esse negócio dizendo ‘Se você gostou desse filme, vai gostar desse’. Como? Por quê? E como é que isso se aplica à paixão, à sexualidade? Se você gostou de uma pessoa, vai gostar de outra? Não, pois o amor, a paixão, não tem nada a ver com algoritmo. Se a gente não entende porque se apaixona, como é que um programa vai entender? E aí essa ideia começou a crescer, pois tem uma geração trancada em casa com o celular na mão.”
Nas pesquisas para o roteiro, Furtado descobriu dados que chamam a atenção. “A pornografia na internet explodiu. Hoje, a pornografia corresponde a 30% entre os sites de maior visita no Brasil. Os dois maiores têm mais consulta que o Instagram e o WhatsApp, só perdem para o Google.”
Ele se impressionou também com as categorias dos sites pornô. “Antes, era straight (hétero) ou gay. Quando escrevi o roteiro, eram 640 categorias. Nessa semana pesquisei de novo e são 3 mil categorias. É tudo o que tu quiser”, diz Furtado, que fez dessa categorização do sexo uma das piadas do filme.
Ainda que a pornografia on-line seja um tema quente da história, a narrativa é leve e bem-humorada – a classificação etária é 14 anos. “Eu queria fazer um filme em que os jovens pudessem assistir e dizer: ‘Pô, eu não sou tão estranho assim’.”
E o que o algoritmo diria para o público que curtiu “Saneamento básico”, que se tornou uma febre no streaming após o reconhecimento internacional de Fernanda Torres e Wagner Moura? “Acho que diria que se você gostou (do filme anterior), vai gostar de ‘Muito prazer’. Porque são comédias de personagens comuns, batalhando por alguma coisa juntos e que têm uma crise no meio. E tem política também, porque a comédia é sempre erótica e política de alguma maneira”, finaliza Furtado.
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“MUITO PRAZER”
(Brasil, 2026, 98min.) Direção: Jorge Furtado. Com Daniel de Oliveira, Luisa Arraes e Samantha Jones. Estreia nesta quinta-feira (27/8), nos cines Belas Artes, Cidade, Contagem e Monte Carmo.
