Em 2019, o produtor musical João Marcello Bôscoli lançou o livro de memórias “Elis & eu: 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe”, no qual traça um retrato íntimo de uma das maiores cantoras da história da MPB. É nesta obra que se baseia o documentário “Elis & eu”, que estreia nesta terça-feira (25/8) no Universal+. Dirigido pelo cineasta André Bushatsky, o longa revela facetas pouco conhecidas e o lado maternal de Elis Regina (1945-1982).
O depoimento de João Marcello é o eixo central do documentário. Somam-se os de outras pessoas próximas de Elis, como seu outro filho, Pedro Mariano; Wanderléa, cantora e amiga; Celina Silva, ex-secretária pessoal; Natan Marques, guitarrista e diretor musical de seu último show; e Julio Maria, autor da biografia “Elis Regina - Nada será como antes” (2015). Entrevistas de arquivo de Rita Lee, Milton Nascimento, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal e Maria Rita também compõem o material.
“Elis & eu” traz muitas imagens de arquivo da vida íntima da cantora, que permaneciam guardadas no baú da família, e conta, também, com passagens dramatizadas, com a atriz Lilian Menezes no papel de Elis, e os atores mirins Antônio Menqui e Victor Constantino interpretando João Marcello com, respectivamente, 6 e 9 anos. O autor do livro diz que transformá-lo em documentário foi uma forma de ampliar a conversa afetiva sobre sua mãe, levando sua história para além das páginas.
Ee destaca que escreveu “Elis & eu: 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe” movido por dois estímulos: transmitir memórias ao seu filho, que em 2019 estava com 8 anos, e mostrar para o público em geral um pouco da Elis “do portão para dentro, porque não se tem notícia dela na intimidade do lar”.
LIBERDADE
João Marcello afirma que André Bushatsky teve total liberdade para fazer a adaptação. “Nós, os filhos, sempre procuramos mandar uma mensagem de que, se alguém quiser fazer alguma coisa sobre nossa mãe, não vamos interferir”, diz.
O diretor, por sua vez, assente que teve essa liberdade, mas diz que procurou ser fiel ao livro. “Não precisei perguntar para o João o que podia ou não podia, mas tive cuidado com o texto dele, porque é tudo muito lindo e muito visual; as cenas estão ali”, afirma.
Ele explica que a opção por incluir passagens dramatizadas foi para trazer “aconchego e uma sensação de nostalgia”. Bushatsky batizou essas cenas de “pílulas de afeto”. “São composições imagéticas, momentos que não carecem de explicação para provocar a sensibilidade”, diz.
Ele destaca que, durante a pesquisa para o documentário, foram reunidas mais de 1.500 imagens de arquivo e cerca de 200 horas de vídeos, ampliando o retrato íntimo e histórico da artista. “João tem o baú dele, um acervo bárbaro, mas também tivemos uma pesquisadora conduzindo uma força-tarefa, indo atrás de veículos de comunicação, procurando matérias que tivessem relação com nosso tema”, conta. Para João Marcello, o documentário materializa cenas que estavam na sua cabeça.
“São lembranças dessa figura em casa, uma pessoa extrovertida, que ria, que recebia os amigos, que tinha que elevar o tom eventualmente”, diz. Sua memória também reconstrói episódios marcantes da trajetória da mãe, como a viagem dela aos Estados Unidos para a gravação do álbum “Elis & Tom”, em 1974; a montagem do espetáculo “Falso brilhante”, em 1975; a visita que fizeram a Rita Lee (1947-2023) na cadeia, em 1976; e a participação no festival Live Under The Sky, em Tóquio, em 1979.
“SEMPRE MAIS”
Em determinada passagem do documentário, num registro de arquivo, Elis comenta: “Sou muito ambiciosa em todos os níveis, quero mais sempre”. Nos depoimentos colhidos por Bushatsky, há falas que a classificam como uma “mulher masculinizada”, que “mandava em tudo”.
João Marcello diz que, em casa, ela também exalava essa força, mas não era, por conta disso, menos feminina ou menos mãe. Ele considera que Elis representa um modelo de poder que os homens almejam, mas nunca alcançarão.
“Eles vão matar, prender, gritar, mas nunca vão chegar à plenitude desse poder, que se impõe sem deixar de ser acolhedor”, diz. “Nunca me senti oprimido. Essa força de minha mãe não se virava contra mim como agressão ou imposição. Acho que o poder de verdade, com o qual todos os homens sonham, é esse poder feminino, que não oprime, não machuca, não grita. Tive a chance de conviver com isso, com essa mulher que bancava tudo, que não tinha medo de nada”, afirma.
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“ELIS & EU”
Documentário baseado no livro “Elis & eu: 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe”, de João Marcello Bôscoli, com direção de André Bushatsky. Estreia nesta terça-feira (25/8), no Universal+, disponível nas plataformas Prime Video, Claro TV+, Vivo TV, Meli+ e UOL Play.
