Em 2005, como convidado de honra do Festival Piano aux Jacobins, em Toulouse, França, Nelson Freire (1944-2021) teve carta branca. Para um dos recitais, convocou o flautista Maurício Freire e o pianista Gustavo Carvalho. Definiu também o repertório do duo: uma sonata de Fauré e uma sonatina de Radamés Gnattali.
São justamente estas duas obras, além de “Dança dos espíritos bem-aventurados”, de Gluck, música originalmente para flauta que ele costumava tocar como bis mundo afora, que abrem o Festival Nelson Freire. Desta quinta (20/8) a sábado (22/8), o “pianista dos pianistas” será celebrado no teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas. Repertório e musicistas foram selecionados também por sua relação com ele.
“Devemos cultuar os nossos mestres, valorizá-lo e trazê-los para a memória musical”, diz a produtora Carminha Guerra, do selo Karmim, que idealizou o Festival Nelson Freire – com patrocínio do Instituto Unimed-BH, via Lei Municipal de Incentivo à Cultura.
A intenção é fazer do evento um acontecimento anual. “Assim como Arthur Rubinstein é cultuado na Polônia, Vladimir Horowitz na Ucrânia, e Martha Argerich é a expressão máxima pianística da Argentina, o Brasil tem em seu filho de Boa Esperança o ápice da dignidade artística”, afirma a produtora.
Nesta noite, o programa terá dois duos. Maurício Freire e Gustavo Carvalho abrem e, na segunda parte, o pianista retorna ao lado de Lucas Barros, principal violoncelista da Filarmônica de Minas Gerais. Maurício Freire explica que violoncelo e piano foram escolhidos porque foi com este formato que Nelson Freire mais fez música de câmara. “Ele tocou, por exemplo, com Antônio Meneses e Mischa Maisky. Então, o cello foi um importante instrumento na vida dele como camerista.”
RELAÇÃO FAMILIAR
O sobrenome de Maurício não é uma coincidência. Ele e Nelson Freire são primos de segundo grau – o pai do pianista era irmão do avô do flautista, professor titular aposentado da Escola de Música da UFMG. “Tínhamos a relação familiar. Mas, com a música, só nos encontramos lá na frente; ele como solista e eu como primeiro flautista da Osesp.”
Com a orquestra paulistana, a partir de 2003, Nelson e Maurício Freire fizeram quatro turnês pela Europa. “No Brasil, não sei nem contar. Já como recital mesmo, teve essa vez em Toulouse. E foi importante para mim e para o Gustavo, pois nos deu uma vitrine”, comenta o flautista.
Gustavo Carvalho é o músico que mais vai tocar no festival. Integra os dois duos desta quinta e retorna no sábado (22/8), para noite dedicada a Chopin e Schubert, dois dos compositores preferidos de Nelson. A noite será aberta com três obras do austríaco, executadas a quatro mãos – Carvalho e Cristian Budu. Depois, cada um terá um momento solo.
Os dois pianistas, que são da mesma geração e mantêm um duo há alguns anos, também tiveram uma relação com Nelson Freire. Nascido em Belo Horizonte, Carvalho impressionou o mestre no início da adolescência. Nelson o ouviu tocar aos 11 anos. “Ele me impressionou muito. É alguém muito especial, preparado e de grande valor”, disse ele, certa vez, a respeito de Carvalho. Este, em 2004, venceu a segunda edição do Concurso Nelson Freire, no Rio de Janeiro.
SUCESSOR
Já o paulista Budu foi apontado pelo próprio pianista como seu sucessor. “Ele deve ter falado isso pelo fato de valorizar a filosofia musical que eu sigo. Ele não era uma pessoa que ligava para a questão de carreira, de estrelismo. Sei que as pessoas trataram Nelson Freire muitas vezes como um título, e não como um artista. Nelson Freire é, para sempre, um dos maiores artistas que temos”, afirmou Budu ao Estado de Minas em 2023.
A pianista Simone Leitão fará um recital solo na sexta (21/8), em programa que, além de Schumann e Chopin, terá “Carnaval das crianças”, de Villa-Lobos, que Nelson consagrou mundo afora. “A Simone também tem um lado afetivo [com Nelson Freire]. Quando adolescente, ela adorava matemática e química. Queria estudar engenharia química. Aos 16 anos, quando foi levada a um concerto dele, saiu tão impactada que mudou de vida”, comenta Carminha.
A produtora o conheceu na adolescência. “Eu estava na casa da minha professora de piano, a Vera Nardelli, que foi colega dele em Viena. ‘O Nelsinho está chegando, tenho que fazer um jantar para ele. Tome conta dos meus filhos e fique para o jantar’, ela me disse. Achei tudo um luxo e, a partir daí, acompanhei a trajetória dele”, relembra Carminha, que o trouxe algumas vezes para concertos em Belo Horizonte.
Programação
Quinta
. MaurícioFreire(flauta) e Gustavo Carvalho (piano)
Gluck – “Dança dos espíritos bem-aventurados”
Gnattali – Sonatina em ré menor
Fauré – Sonata para piano e flauta op.13
. Lucas Barros (violoncelo) e Gustavo Carvalho (piano)
Rachmaninoff – Sonata op. 19
Oswald – Elegia
Saint Saëns – “O cisne”
Sexta
. Simone Leitão (piano)
Schumann – Estudos sinfônicos, Op. 13
Chopin – Noturno, Op. 9, Nº 2
Villa-Lobos – “Carnaval das crianças”
Sábado
. Cristian Budu e Gustavo Carvalho (piano a quatro mãos)
Schubert – Rondó em Ré maior/Rondó em Lá maior/Fantasia em Fá menor
Chopin – Polonaise-Fantasie e Noturno Op. 55 (Gustavo Carvalho solo)
Chopin – Prelúdios e Camargo Guarnieri - “3 ponteios” (Cristian Budu solo)
FESTIVAL NELSON FREIRE
Desta quinta (20/8) a sábado (22/8), às 20h, no teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Ingressos: R$ 50 e R$ 25 (meia), à venda na bilheteria e no Sympla. Hoje, das 10h às 11h, haverá ensaio para alunos da rede pública de BH, também aberto ao público.
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