Premiado como o melhor filme na competição Olhos Livres e também pelo júri popular na Mostra de Cinema de Tiradentes deste ano, “Anistia 79”, de Anita Leandro, estreia no circuito comercial nesta quinta-feira (20/8).


Construído a partir de imagens que permaneceram inéditas por quase 50 anos, o documentário recupera passagens da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979, e convida o espectador a elaborar uma memória da ditadura militar.


No longa, personagens que estiveram presentes naquele evento são colocados diante das imagens cuja existência era ignorada e dão depoimentos sobre o período. A realização de “Anistia 79” é quase fruto de um acaso.


Após concluir seu primeiro documentário, “Retratos de identificação” (2014), que reconstitui a trajetória da exilada Maria Auxiliadora Lara Barcellos, desde sua prisão e tortura até o suicídio, no exílio, em Berlim, Anita Leandro seguiu com sua pesquisa sobre registros do período ditatorial.


Em 2015, ela foi para a França fazer um pós-doutorado sobre as imagens do exílio, sem, contudo, saber exatamente o que iria encontrar. A cineasta, pesquisadora e professora de cinema na UFRJ recorda que, depois de um ano, estava quase voltando ao Brasil de mãos vazias quando encontrou, em uma biblioteca da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, as imagens da Conferência de 1979, registradas por dois exilados, que ficaram guardadas em um porão, desde que foram captadas.


Assistindo aos vídeos, Anita reconheceu personagens importantes da resistência à ditadura militar no Brasil. A bibliotecária, então, a colocou em contato com Hamilton Lopes dos Santos, exilado em Paris e responsável pelas filmagens, registradas ao longo de três dias, resultando em quase duas horas de arquivos.


ORIGINAIS

“No dia seguinte fui tomar um café com ele, que me disse que tinha os registros originais da Conferência, que reuniu mais de 500 exilados brasileiros, entre juristas, escritores e intelectuais”, conta.


A ideia inicial da diretora era estruturar o documentário a partir daquelas imagens, que, como diz, “"são muito importantes e já são um filme em si”. Foi o próprio Hamilton, depois de assistir ao material montado, com som digitalizado – e se emocionar muito –, quem sugeriu que seria importante encontrar as pessoas que aparecem nos registros.


“Aí começou o percurso da combatente aqui para ir atrás dessas figuras, porque estão morando em diferentes lugares do Brasil, algumas em outros países”, diz a cineasta.


Depois de reunir as condições financeiras necessárias, ela começou, em 2023, a colher os depoimentos de Luiz Eduardo Greenhalgh, Heloísa Greco, Dirceu Greco Monteiro, Branca Moreira Alves, José Pedro da Silva, Marijane Lisboa, Jean Marc von der Weid, Denise Leal, Mariana Conceição Leal e Denise Crispim, além do próprio Hamilton, após assistirem, pela primeira vez, ao material recuperado.


“O dispositivo de filmagem foi concebido em função do que queríamos com a exibição desse arquivo”, diz. Ela explica que as falas atuais dizem daquele momento, da participação de cada um que dá seu depoimento sobre o que foi a Conferência e sobre aquele período que precedeu em algumas semanas a assinatura da Lei da Anistia no Brasil.


INTIMIDADE

“Eu sabia que precisava criar um ambiente de intimidade, para que as pessoas pudessem se relacionar com esse material de arquivo como se fosse no cinema. Criamos esse ambiente na casa de cada um que visitei”, afirma.


Uma das personagens, Denise Crispim, ocupa o centro da narrativa. As imagens de seu depoimento no Tribunal Bertrand Russel II, em 1974, abrem o filme. Presa e torturada quando estava grávida, Denise não consegue falar, e seu testemunho é lido por um jurista.


Quatro anos antes, seu marido, Eduardo Leite, o Bacuri, havia sido preso, torturado por mais de 100 dias e assassinado no Dops. Décadas depois, Denise surge, em “Anistia 79”, assistindo não às imagens do Tribunal, que já conhecia, mas às da Conferência de Roma apresentadas por Anita, em que aparece ao lado da filha.


A cineasta diz que entende melhor o Brasil depois de ter feito “Retratos de identificação” e “Anistia 79” e avalia que os historiadores, sozinhos, não podem tudo, e que a sociedade civil precisa estar mais atenta.


“Por que temos, hoje, um Congresso tão tacanho, fortemente enraizado no escravismo? O que aconteceu com os torturadores? Por que a extrema-direita chega com tanta força? Por causa da impunidade, que foi premiada. Não fizemos o dever de casa. A história nos dá o caminho”, afirma.


SESSÃO COMENTADA

“Anistia 79” terá exibição nas duas salas do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes), nesta quinta-feira (20/8), às 20h. Na sequência da exibição, haverá bate-papo com a diretora Anita Leandro.


“ANISTIA 79”
(Brasil, 2026, 105 min., de Anita Leandro). Estreia nesta quinta-feira (20/8), no Cine Belas Artes(Sala 3, 16h10) e no Centro Cultural Unimed-BH Minas (Salas 1 e 2, às 20h, hoje); demais sessões: sexta (21/8), domingo (23/8) e terça (25/8), às 18h35, na sala 2; e quarta-feira (26/8), às 17h, na sala 2.

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