Há cerca de 41 anos, Bruna Lombardi viveu como jagunço durante três meses da gravação da minissérie “Grande Sertão: Veredas”, adaptação do clássico de João Guimarães Rosa, que foi ao ar na TV Globo em 1985. No interior de Minas, ela deixou de lado toda a vaidade para se entregar à interpretação de Diadorim. Dessa experiência, anotada em diário e anotações pessoais, surgiu o livro “Diário do Grande Sertão”, lançado em 1986.
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Nesta terça-feira (18/8), a atriz e escritora participa do projeto Sempre um Papo TCE Cultural, em BH, com dois novos projetos: o relançamento de seu diário sertanejo, que comemora quatro décadas com edição ampliada e fotos dos bastidores das gravações da série, e o lançamento do romance “Mulheres que sentem os espíritos”.
Clássico de Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas” completa 70 anos em 2026. A ideia de relançar o diário surgiu de Afonso Borges, idealizador do Sempre um Papo e amigo de Bruna Lombardi.
“Guimarães Rosa é o mestre, um dos maiores escritores de todos os tempos. Fazer parte desse universo foi muito importante. Já conhecia o trabalho dele, mas poder vivenciar tanto a obra quanto o Brasil profundo, o sertão, é uma força da natureza que continua dentro de mim”, afirma Bruna.
O novo volume conta com textos que ela pensou não caberem no livro de 1986, seja por medo de dar spoiler sobre a série da Globo ou por acreditar que fossem muito íntimos para serem publicados. Nesta nova edição, Bruna não deixou nada de fora e ainda adicionou o poema “Sertão”, que encerra o livro.
“Mulheres que sentem os espíritos” e “Diário do Grande Sertão” são produções diferentes – ficção e relato pessoal – que se encontram em um ponto comum: a força da mulher. No diário, Bruna Lombardi persegue a "Diadorim obstinada”, como narra no livro.“Esquisita, feia e até medonha”, mas forte para enfrentar tanto as gravações, que impuseram sacrifícios ao elenco, quanto o próprio sertão mineiro, por vezes inóspito.
“Sempre fui muito voltada ao universo das mulheres, da nossa conexão com nós mesmas. Ninguém está sozinho no mundo, nós somos todos. Não somos ilhas, somos um continente. Para mim, a causa feminina é muito profunda", diz ela, destacando a força da sabedoria da mulher.
Espiritualidade
Esta força feminina norteou a atriz durante as gravações. Vivenciou o perigo real: um cavalo feroz correu para longe com Bruna, a Diadorim, montada nele. Em momentos assim, ela anotava o que sentia nos papéis à sua frente. À noite, passava a limpo num caderno.
“Foi a forma que deu para fazer ali. Escrevi este livro para não enlouquecer, porque o que eu estava vivendo era enlouquecedor de verdade. Precisava juntar meus pedaços, de uma certa compreensão de mim mesma naquelas circunstâncias”, explica. Para Bruna Lombardi, escrever é sua forma de manifestação mais íntima.
Minissérie 'Grande Sertão: Veredas' é protagonizada por Bruna Lombardi, como Diadorim, e Tony Ramos, no papel de Riobaldo
“Escrever era uma contenção, junto com a contenção de Diadorim, que é profunda. Foi tanta informação, tanta coisa para processar, era tão grande a aventura e o tamanho da coisa”, afirma.
Luto e mundo espiritual
No romance “Mulheres que sentem os espíritos”, a personagem principal, Lorena, precisa lidar com a perda da mãe, Laura, que criou a filha sozinha. Laura era conectada ao mundo espiritual, enquanto a filha sempre rejeitou esse universo. Ao lado de Dora, irmã de criação, ela busca conhecer as origens da mulher que as criou e moldou.
A ideia de escrever sobre mulheres ocorreu a Bruna quando ela ainda estava no sertão mineiro, imersa naquele universo. Observando as sertanejas e as condições em que viviam, pensou nas mulheres da própria família.
“Este livro estava dentro de mim há muito tempo, germinando sem eu ao menos saber. Quando veio, foi de uma forma muito natural e muito mágica, porque veio quase pronto, eu só precisava trazê-lo à vida.”
A espiritualidade de Laura se parece com a de muitas mulheres brasileiras: “Perto da cama, o terço pendurado junto com o olho grego, o mati. Na mesinha, pequenas estátuas de Santo Antônio, São Francisco, Buda, Jesus, Vishnu, Poseidon, São Jorge, Oxum, Oxóssi e Iansã”, escreve Bruna.
A autora diz que o livro se conecta ao sincretismo brasileiro. “Minas é um estado profundamente religioso. A Bahia, muito perto daqui, tem igrejas que aceitam o sincretismo naturalmente. Essa mistura retrata nosso país. Na verdade, uma só fé. Respeito muito a fé e a busca do ser humano pelo entendimento, por proteção e por um poder maior.”
BRUNA LOMBARDI
Projeto Sempre um Papo TCE Cultural. Nesta terça-feira (18/8), às 19h, no auditório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (Av. Raja Gabaglia, 1.315, Luxemburgo). Entrada gratuita, com distribuição de ingressos por ordem de chegada. Os livros serão vendidos no local.
“DIÁRIO DO GRANDE SERTÃO”
- De Bruna Lombardi
- Autêntica
- 160 páginas
- R$ 79,90 (físico) e R$ 55,90 (e-book)
“MULHERES QUE SENTEM OS ESPÍRITOS”
- Romance de Bruna Lombardi
- Record
- 335 páginas
- R$ 79,90
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