A imagem que ilustra esta matéria – trabalhadores com as mãos em bloco de pedra que está sendo posicionado em um lugar – traz mais complexidade do que sugere. Este monólito de granito, assim como outros três que não aparecem na foto, é originário do deserto de Nevada, nos Estados Unidos. Um deles pesa 20 toneladas. Uma logística para lá de complicada os trouxe para Brumadinho, seu local definitivo.
“Não sei quanto tempo mais tenho pela frente, mas o que espanta a morte é ter sempre a mente ocupada. Nunca parei de sonhar e não vou parar enquanto estiver aqui”, afirma Bernardo Paz. Aos 77 anos, o empresário e colecionador de arte que mudou os parâmetros da arte contemporânea ao criar Inhotim, duas décadas atrás, está fazendo de novo.
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Na última semana, veio a público o que já se falava há um bom tempo. O anúncio de um novo museu de Paz, em área vizinha a Inhotim, com premissa semelhante: arte contemporânea em harmonia com a natureza. Desta vez, o nome não deixa dúvidas: Museu Bernardo Paz. “Ele foi escolhido com a ajuda de muita gente, para refletir de modo direto e simples a sua criação”, explica o próprio ao Estado de Minas, por e-mail.
A área de 126 hectares está recebendo 15 mil árvores e um milhão de plantas de pequeno porte. “Lidar com as árvores e com a paisagem tem sido minha maior paixão. Buscamos muitas árvores frutíferas e floríferas, que se encontram sempre de modo surpreendente”, explica Paz. O projeto prevê mais de 20 pavilhões, além de instalações e esculturas ao ar livre. Tudo da coleção pessoal de três mil obras de Paz. A inauguração, com seis galerias ao menos, está prevista para setembro de 2027.
Há quatro anos, Paz se afastou de Inhotim. O empresário fez doação definitiva das coleções do museu à instituição e um novo conselho se tornou a instância máxima da gestão. Hoje, é apresentado como fundador benemérito. “Espero que sejam bons irmãos e amigos”, diz ele sobre a relação entre os dois museus.
“Desde 2022, a ideia de começar um novo capítulo, cercado de árvores, artistas e amigos, cresceu. Quando percebi, o museu já estava sendo preparado. O que a idade me trouxe foi uma visão mais clara”, acrescenta.
Parte da equipe do Museu Bernardo Paz atuou na instituição vizinha, a começar pelo norte-americano Allan Schwartzman, cofundador de Inhotim, agora consultor curatorial sênior. Filha de Bernardo, Sofia Paz é a vice-presidente do museu.
LAND ART
O paulistano Paulo Miyada deixou o Instituto Tomie Ohtake para assumir o posto de diretor artístico. Foi ele quem detalhou ao EM alguns detalhes do projeto. Os monólitos supracitados integram “um trabalho chave, canônico dentro dos debates que perpassam o museu”, afirma Miyada a respeito do pavilhão dedicado a Michael Heizer.
O norte-americano de 81 anos é um dos fundadores do Land Art, movimento gestado na década de 1960 com artistas que criam a partir da paisagem natural. Desde então, Heizer vem desafiando o mundo da arte ao escapar dos limites da galeria e habitar a própria natureza. Sua obra-prima, “City”, é uma instalação escultórica de 2,5 quilômetros de extensão no deserto de Nevada.
O pavilhão, com projeto do PMCKM, dos arquitetos Maria Paz de Moura Castro e Mark Mueckenheim, vai receber duas obras de Heizer, “Displaced Replaced Mass #3” e “Negative Wall Sculpture #1”, ambas de 1993. “A construção do projeto do museu está necessariamente lidando com natureza e paisagem. E todos os nossos esforços são para que isso seja algo ativo, não só pano de fundo. A ideia é que você não consiga pensar nas obras de arte desvinculadas da experiência da paisagem. E nem o contrário. O Heizer desenvolveu uma obra que raramente funciona nos espaços museológicos tradicionais. Então, ele funciona como uma âncora de todo o projeto”, explica Miyada.
Em contraponto, ele continua, há um pavilhão dedicado ao artista mineiro Pedro Moraleida (1977-1999). “Como ele faleceu jovem, a produção será sempre a de um jovem artista. É muito intensa e experimental. Só recentemente Moraleida tem vivido um reconhecimento institucional que transborda Minas Gerais”, diz.
Bernardo Paz revela que a ideia de criar um novo espaço, cercado de árvores, artistas e amigos, surgiu em 2022, e acabou sendo concretizada
A galeria, com projeto da Vazio Arquitetura, de Carlos Teixeira, vai expor obras monumentais do artista que integram a coleção de Bernardo Paz e partes da coleção do Instituto Pedro Moraleida. O mesmo escritório assina o projeto do pavilhão de Anna Maria Maiolino. Também de Belo Horizonte, o Mach Arquitetos, de Fernando Maculan, está responsável pelos projetos das galerias das mineiras Sônia Gomes e Laura Belém.
“Neste primeiro grupo de pavilhões, a situação mais comum é de obras existentes que ganham outro caráter nesse projeto. O trabalho da Laura Belém, por exemplo, parte de uma instalação que já existiu. Só que no processo de criar um espaço para ela, o trabalho está quase que se recriando”, explica.
Para Miyada, os pilares com que Bernardo Paz concebeu Inhotim permanecem inalterados no novo museu. “Compromisso com a região, aposta na arte, na natureza e experimentação.”
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Dito isso, os momentos são diferentes. “Inhotim tem um cotidiano muito estabelecido e o nosso está sendo desenhado. A gente tem a chance de, desde agora, ter uma relação para amadurecer qual será a melhor forma de funcionamento de ambos que respeite as autonomias de gestão, financiamento, programação e que um não crie nenhum tipo de desafio para o outro. Ao mesmo tempo, que a soma dos dois seja a mais generosa possível para os visitantes”, finaliza. n
