A montagem mineira de “Otelo”, dirigida por Túlio Drummond e Marco Perpétuo, que faz uma releitura da tragédia de Shakespeare, nasceu quase por acaso. Começou como um exercício dentro de uma oficina de direção teatral promovida pelo Grupo Galpão, no ano passado. E terminou sendo sucesso de público na recém-encerrada 51ª Campanha de Popularização Teatro e Dança.


Durante o processo formativo, os participantes criaram cenas curtas, a partir do texto de Shakespeare; afinidades surgiram, o grupo se consolidou e a ideia de levar a tragédia ao palco ganhou corpo.


Prevista inicialmente para os dias 26 e 27 de janeiro e 2 e 3 de fevereiro, no Teatro Marília, a montagem esgotou as quatro sessões logo nas primeiras semanas de venda de ingressos, iniciadas em dezembro. Diante da procura, a produtora Iris Prattês decidiu abrir uma apresentação extra – aposta arriscada, segundo ela –, que também teve boa resposta do público.


O resultado foi interpretado como sinal de que o espetáculo teria fôlego para novas temporadas. “Vamos ter esse respiro do carnaval e, talvez em março ou abril, fazer mais uma temporada em Belo Horizonte. Depois, queremos seguir para Rio e São Paulo, que, querendo ou não, ainda é onde as coisas acontecem”, afirma.


O cenário, composto inteiramente por andaimes, foi pensado para facilitar a circulação da trupe e reforçar a ideia de atemporalidade. “Queríamos trazer uma peça clássica que conseguisse, de alguma maneira, pautar assuntos que ainda permeiam muito nossa sociedade”, afirma Túlio. Para ele, a estrutura metálica permite deslocar a ação tanto para o século 17 quanto para a contemporaneidade.


A trama gira em torno de Otelo, general mouro a serviço da República de Veneza. Respeitado por suas vitórias militares, ele é, ao mesmo tempo, estrangeiro em uma sociedade branca e aristocrática. Apaixona-se por Desdêmona, jovem veneziana de origem nobre, e casa-se secretamente com ela.


Ao redor deles estão Iago, alferes de Otelo que se sente injustiçado por não ter sido promovido; Cassio, o oficial escolhido para o posto; e Emília, esposa de Iago e dama de companhia de Desdêmona. Ressentido, Iago inicia uma campanha silenciosa de manipulação. Explora as inseguranças raciais e afetivas do general, compromete a reputação de Cassio e cria circunstâncias que fazem Desdêmona parecer infiel. Mais do que agir diretamente, ele insinua, sugere e conduz Otelo à dúvida.


VIGILÂNCIA

Gradualmente, o general passa da confiança absoluta à vigilância obsessiva. Exige provas da fidelidade da esposa quando já está dominado pela narrativa construída pelo subordinado. Desdêmona, por sua vez, permanece leal e perplexa, incapaz de compreender a transformação do marido. O desfecho é trágico. Convencido de que age em nome da honra, Otelo mata a esposa e, ao descobrir que foi enganado, suicida-se. Iago é preso, mas se recusa a explicar seus motivos.

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“Podemos trazer para essa peça elementos como racismo, feminicídio e manipulação de informação. São assuntos que queremos levar para o lugar da educação, porque a arte é capaz de transformar. Exatamente por isso, queremos levar essa peça para o maior número de pessoas possível”, diz Túlio. n

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