Em 1944, Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) desembarcou em Belo Horizonte com a missão de assumir a direção do Instituto Belas Artes (atual Escola Guignard), onde ministraria o curso de desenho e pintura. O convite partiu do então prefeito, Juscelino Kubitschek (1902-1976), responsável pela implementação do instituto na cidade. 

À época, o pintor e desenhista de Nova Friburgo (RJ) não era nenhum desconhecido. Pelo contrário, já contava com grande prestígio nacional e internacional.

 



Formado pela academia de Belas Artes de Munique e tendo passado pela Belas Artes de Florença, suas obras já tinham sido expostas na Bienal de Veneza e no Salão de Outono de Paris. 

Em Belo Horizonte, Guignard assumiu a direção do Instituto Belas Artes, promovendo verdadeira revolução na relação de aprendizado e ensino de artes visuais no país – em suas aulas, ele não distribuía notas, não fazia chamadas e sequer entregava diplomas. 

“Um artista não surge pronto. Normalmente as pessoas visitam exposições e encontram um artista já com uma certa maturidade ou com uma certa qualidade. Mas esse artista percorreu um caminho. Ele foi iniciado”, diz o artista plástico e um dos principais pesquisadores da trajetória de Guignard, Paulo Schmidt, lembrando que o mestre fluminense foi o responsável pela iniciação de muitos artistas brasileiros. 

LEGADO

Schmidt é o curador da mostra “A paixão segundo Guignard”, que será aberta nesta quinta-feira (29/2), na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard do Palácio das Artes. A exposição integra a programação do “80 e Sempre”, projeto da Fundação Clóvis Salgado, em parceria com a Universidade do Estado de Minas Gerais (atual responsável pela Escola Guignard), para comemorar os 80 anos da instituição de ensino artístico. 

São aproximadamente 200 obras, entre desenhos, retratos e pinturas, de Guignard e artistas que foram alunos ou colegas dele no Instituto Belas Artes entre 1944 e 1961. Estão lá obras de Edith Behring e Franz Weissmann (professores assistentes de Guignard nos primeiros anos da instituição), Amílcar de Castro, Yara Tupinambá, Augusto Degois, entre outros. 

“Essa escolha é justamente para deixar evidente essa ideia de que nenhum artista nasce pronto. Mesmo os grandes nomes, como o Amílcar, a Yara, o Augusto Degois, todos eles passaram por uma iniciação”, diz Schmidt. 

Por mais que Guignard já fosse um artista profícuo quando chegou à capital mineira, a mostra não conta com obras anteriores a 1944. “Em uma exposição comemorativa aos 80 anos da escola, não fazia sentido para a gente inserir obras que fossem anteriores ao período em que ele chegou”, afirma o curador. 

A linha temporal escolhida da mostra, portanto, data das primeiras pinturas e desenhos que Guignard fez quando chegou a Minas Gerais, como paisagens do interior do estado e os retratos de Juscelino Kubitschek (realizado em 1944) e de Amílcar de Castro (1952). 

Os retratos, aliás, são constantes na produção de Guignard entre as décadas de 1940 e 1950. Isso, segundo Schmidt, se deve ao fato de que o artista veio sozinho para a capital mineira e não tinha por aqui amigos ou parentes. Retratar pessoas de seu círculo social foi uma forma de criar laços de amizade.

 

O autorretrato do artista e retratos de personalidades que ele pintou estão na mostra

map/divulgação

 

LÁBIO LEPORINO

Por trás da alegria e do bom humor que costumava esbanjar, Guignard escondia profundas dores. Além do lábio leporino, que na época não havia maneira de reparar, ele não tinha o palato (céu da boca). Era uma única cavidade nasal e bucal, que provocava constantes constrangimentos ao artista. 

“Certa vez, a Yara Tupinambá, que conviveu com Guignard, contou como era difícil fazer uma refeição com ele, porque muitas vezes acontecia de a comida sair pelo nariz dele”, diz Schmidt. 

As dores e sofrimentos do artista, no entanto, não costumam transparecer em suas obras. Talvez, elas sejam parcialme nte pinceladas nas telas com temática religiosa, que, diferentemente das paisagens e retratos coloridos, são dramáticas, soturnas e sofridas – vide o “São Sebastião” (1960), com o corpo e o rosto cravejados de flechas, e mergulhado em sangue. 

De modo geral, contudo, as cores claras e a delicadeza contrastada com um traço firme dão o tom nas pinturas dele. Além disso, a abstração e as formas geométricas também estão bem presentes, sendo um dos elos que ligam a produção exposta de Guignard com a de seus ex-alunos. 

“Temos três espaços em que dividimos as obras: a sala de figuração, a sala de abstração formal e a sala de abstração geométrica, que são linguagens muito variadas e que estão muito presentes nas obras dos alunos de Guignard”, aponta Schmidt. 

Mais uma exposição 

A programação do projeto “80 e Sempre” prevê a abertura da mostra “Era uma vez…”, na sede da Escola Guignard (Rua Ascânio Burlamarque, 540, Mangabeiras), no próximo dia 4 de abril, com entrada franca. Com curadoria do ex-aluno e atual professor da instituição Júlio Martins, a exposição reunirá obras dos atuais professores produzidas na época em que eram estudantes de graduação em arte. 

“A PAIXÃO SEGUNDO GUIGNARD”


Obras de Alberto da Veiga Guignard, Edith Behring, Franz Weissmann, Amílcar de Castro, Yara Tupinambá, Augusto Degois, entre outros. Na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Até 12 de maio, de terça a sábado, das 9h30 às 21h; domingos, das 17h às 21h. Entrada franca. Informações: (31) 3236-7400.

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