Atriz australiana Elizabeth Debicki continua como princesa Diana em sexta e última temporada da série 'The Crown', da Netflix -  (crédito: Netflix)

Atriz australiana Elizabeth Debicki continua como princesa Diana em sexta e última temporada da série 'The Crown', da Netflix

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Os quatro primeiros episódios da sexta e última temporada da série The Crown, da Netflix, lançados nesta quinta-feira (16/11), não agradaram críticos e historiadores.

A temporada final tem dez episódios — os seis restantes serão lançados no dia 14 de dezembro. Ela retrata acontecimentos ocorridos no final dos anos 1990, incluindo o relacionamento da princesa Diana com o produtor cinematográfico e empresário egípcio Dodi Fayed e sua morte, num acidente de carro em Paris.

Também cobre as consequências de sua morte — na série, o fantasma de Diana aparece para o príncipe Charles e a rainha Elizabeth 2ª.

Em uma crítica de uma estrela, o jornal britânico The Guardian diz que a "série obcecada por Diana é a própria definição de um mau texto".

"Além de todos as falhas em sua forma, a temporada final do The Crown também é incrivelmente prejudicada por acontecer em uma época recente, parte de nossa memória viva. Mesmo que a trama fosse capaz de nos envolver, as recordações e consequentes questionamentos que se aglomeram na mente do espectador em cada cena tornariam isso impossível", escreveu a crítica do jornal, Lucy Mangan.

"(A série) começou a balançar na terceira temporada, perdeu totalmente o equilíbrio nas duas seguintes e agora está despencando no abismo."

Na opinião de Mangan, isso aconteceu "apesar das atuações unanimemente brilhantes de todo o elenco".

Cena da sexta temporada do 'The Crown'
Netflix
Princesa Diana iniciou relacionamento com produtor cinematográfico egípcio Dodi Fayed após seu divórcio do príncipe Charles

Anita Singh, do jornal britânico The Telegraph, fez coro com o Guardian, escrevendo que a "joia da Netflix chega a um beco sem saída", já que a nova temporada é "assombrada pelo fantasma bizarro da princesa Diana".

Sua crítica, de duas estrelas, nota que o uso do fantasma de Diana "no avião de volta de Paris para confortar um perturbado príncipe de Gales (Charles), e no sofá de Balmoral (residência da família real britânica na Escócia) para dar à rainha alguns conselhos amigáveis de relações públicas", acaba por soar "como desespero por parte do escritor Peter Morgan", que criou a série extremamente popular lançada em 2016.

Singh também criticou a forma como o acidente de carro é abordado.

"O caos do último dia de Diana e Dodi em Paris é transmitido, mas não há cenas dentro do túnel Pont d'Alma: corta-se do som do acidente para o telefone tocando em Balmoral. Todos os diálogos em que alguém dá a notícia da morte de Diana foram dublados; suas bocas se movem em silêncio, e nos concentramos nas reações", escreveu.

"Por que fazer isso? Se é por razões de gosto, por que a câmera capturou o rosto desnorteado de Harry enquanto ele fala a palavra "não"? Bom gosto significaria deixar essa cena para nossa imaginação", acrescentou.

Apesar de uma crítica de quatro estrelas, Carol Midgley, do jornal britânico The Times, observou que o fantasma de Diana "não foi o melhor momento da série", descrevendo-o como "peculiarmente autodestrutivo em uma temporada de quatro episódios de abertura poderosa e comovente".

No entanto, a crítica elogiou a atuação da australiana Elizabeth Debicki como Diana, chamando-a de "excelente".

"A empatia com que ela retrata as últimas oito semanas da vida de Diana e a semelhança entre as duas são extraordinárias, aquela inclinação de cabeça sedutora, uma alma um pouco perdida e solitária que termina em vários trajes de banho em glamourosas cenas, dignas da revista Hello!, a bordo do iate de Al Fayed", opinou.

Em sua crítica, Aramide Tinubu, da revista americana Variety, também abordou o relacionamento de Diana e Dodi.

"Morgan (Peter Morgan, autor da série) não oferece um romance turbulento, mas uma representação de uma amizade reconfortante que apenas começou a florescer e foi exacerbada pela percepção pública e pela obrigação familiar", escreveu Tinubu.

A crítica acrescenta que a nova temporada ajudou a série a "recuperar seu trono brilhante".

A temporada final aborda o frenesi da mídia em torno do relacionamento de Diana e Dodi (interpretado por Khalid Abdalla), culminando na perseguição por paparazzi que fez com que o carro em que ambos estavam perdesse o controle e colidisse com um pilar em um túnel em Paris. Ambos morreram em 31 de agosto de 1997.

A série também retrata os eventos que se seguiram ao acidente fatal, incluindo reações e respostas da rainha, do pai de Dodi, o empresário Mohammed Al Fayed, e do príncipe William tentando voltar à escola após a morte de sua mãe.

Em entrevista no festival de TV de Edimburgo, na Escócia, no início deste ano, os produtores do The Crown disseram que a morte de Diana foi tratada "com sensibilidade".

No entanto, Judy Berman, da revista americana Time, escreveu que a nova temporada é "estranhamente audaciosa", pois está "explorando o mistério dos últimos dias de Diana — bem como, infelizmente, sua vida após a morte imaginada — para uma pungência fabricada. Como a tragédia em que se fixa, é um desastre em uma escala que a série nunca viu antes".

Josh O'Connor como príncipe Charles e Ed McVey e Luther Ford como príncipes William e Harry em cena da sexta e última temporada do 'The Crown'
Netflix
Nova temporada inclui momento em que príncipe Charles (Josh O'Connor) dá notícia da morte de Diana a seus filhos, William e Harry (Ed McVey e Luther Ford)

A crítica de três estrelas do jornal britânico Financial Times diz que essas cenas são "indicativas de uma série sem inspiração; que se satisfazem em lançar mão de atalhos emotivos que externalizam a complexidade do choque e da dor da realeza".

Historiadores também criticaram a série pelo que chamaram de "imprecisões históricas".

Kelly Swaby, historiadora especializada na realeza britânica, disse à BBC: "Como historiadora, às vezes me dá vontade de chorar".

"Os espectadores geralmente esperam um certo grau de precisão com a série porque a qualidade da produção é muito alta, mas nem sempre isso é possível."

Em sua visão, a série lançou mão de "licença poética" sobre como os eventos sensíveis são retratados, até porque "ninguém sabe o que aconteceu a portas fechadas" — como quando o príncipe Charles deu a notícia da morte de Diana aos filhos.

A Netflix disse anteriormente que a série "sempre foi apresentada como um drama baseado em eventos históricos".

Imelda Staunton em cena da sexta temporada do 'The Crown'
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Imelda Staunton repete seu papel como Rainha Elizabeth 2ª, que anteriormente também foi interpretada por Claire Foy e Olivia Colman

Uma crítica de duas estrelas do jornal britânico The Independent observou que a série "rotineiramente privilegia a fofoca em detrimento da ressonância emocional: conversas altamente especulativas entre Diana e Dodi são incluídas — e impulsionam a trama".

O crítico do jornal, Nick Hilton, acrescentou que o "tom tabloide relega a rainha de Staunton (Imelda Staunton, atriz que interpreta a rainha Elizabeth 2ª) a uma personagem secundária, enquanto a princesa Margaret, de Lesley Manville, passa totalmente despercebida".

Daniel Feinberg, do site americano The Hollywood Reporter, também criticou a representação de outros personagens.

Em sua visão, o terceiro episódio especificamente "se torna um machado bastante brutal para Dodi, apresentado como um filho varão covarde, e para o pai Mohamed Al-Fayed (interpretado por Salim Daw), que se torna um estereótipo maquiavélico intrigante que não tem nenhuma semelhança com a versão simpática e cheia de nuances do personagem que conhecemos na quinta temporada."

Salim Daw como Mohamed Al Fayed em cena da sexta e última temporada do The Crown
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Salim Daw como Mohamed Al Fayed, que morreu no início deste ano aos 94 anos

O The Crown também foi acusado de inventar o papel que Mohamed Al-Fayed desempenhou no romance entre Diana e Dodi.

Michael Cole, ex-porta-voz de Al-Fayed, disse ao site americano Deadline que a insinuação de que o pai de Dodi arquitetou o relacionamento dos dois era um "total absurdo".

"Mohamed era um homem notável em muitos aspectos. Ele ficou encantado porque seu filho mais velho e a querida amiga de sua família, Diana, estavam juntos. Mas fazer duas pessoas se apaixonarem? Isso estava além de seus grandes talentos", acrescentou Cole.

Meg Bellamy como Kate Middleton e Ed McVey como príncipe William
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Segunda parte da temporada final cobrirá namoro de William e Kate

A segunda metade da temporada final, lançada em 14 de dezembro, cobrirá eventos como o Jubileu de Ouro da Rainha, o casamento do Príncipe Charles e Camilla e o namoro de William e Kate — agora o Príncipe e a Princesa de Gales — na Universidade de St Andrews.

Os príncipes William e Harry serão interpretados por Ed McVey e Luther Ford, respectivamente, na segunda metade da temporada. Kate Middleton será interpretada por Meg Bellamy.

É o primeiro grande papel dos três jovens atores.