Um dos meus escritores favoritos é Dostoiévski, não por acaso, mas porque ele consegue fazer uma leitura da alma humana com extrema maestria, antevendo avanços que a psicanálise ainda levaria muitos anos para teorizar. No conto Noites Brancas, um homem solitário, que é chamado simplesmente de narrador, encontra, numa ponte de São Petersburgo, uma jovem de nome Nástenka e, ao longo de quatro noites de verão, oferece a ela presença genuína e toda a sua capacidade de amar. A jovem recebe aquilo com sincera gratidão e usufrui desse amor enquanto espera o retorno do homem que verdadeiramente ama. 

Quando esse homem chega, Nástenka vai embora e o narrador fica na ponte, parado. O desconcertante do conto é que quando ela se vai, ele agradece a Deus pela ventura de ter vivido aquele afeto, e ainda por cima, pergunta em voz baixa se aquilo seria o suficiente para a vida inteira de um homem.

Esse não é bem o desfecho que se espera do conto, por isso, quando fechamos o livro fica uma certa sensação de atordoamento, pois não sabemos se a reação do narrador é fruto de loucura, felicidade ou mera resignação diante do imponderável. 

Acho que o desconforto do texto vem, em grande medida, do fato de que Dostoiévski nos impede de julgar com facilidade qualquer um dos dois. O narrador não é apresentado como um homem despreparado para a vida ou ingênuo, nem tampouco a jovem Nástenka é retratada como uma pessoa cruel. O que o conto nos mostra é que de ambos os lados havia um ponto cego. 

No caso do narrador, desde o início ele parecia saber que estava se entregando para algo não correspondido. Se ele sabia completamente, não é possível afirmar, mas algo no conto nos deixa antever que se trata de uma escolha e não de puro acidente. E, ainda assim, sempre que leio o conto me pergunto se de fato ele sabia o que estava fazendo.

E, se sabia, por que entregou o que tinha de mais valioso? Talvez porque os amores impossíveis nos protejam das agruras dos amores reais.  O impossível tem uma atração que lhe é própria, e o narrador vai ao seu encontro com tudo o que tem, sem recuar ou se proteger. No impossível não há o risco de perder o que se tem, pois nunca se teve de fato.

Já em relação à jovem Nástenka, fica claro que ela não pretendia ferir, ela simplesmente não conseguiu ver, porque a dor da saudade lhe ocupava todo o campo de visão. A impressão que se tem é que quanto mais absorvida pela ausência daquele homem que amava, menos capaz era de perceber a presença do narrador como custo, e não apenas como conforto. Ela não o usou por má-fé, ela apenas não o viu com clareza suficiente para recusar o que ele lhe oferecia. 

Pode parecer que os personagens têm comportamento muito diferente, mas não é o caso, ambos são faces da nossa humanidade. Quem já não agiu dos dois modos, ainda que por alguns instantes? Eu já agi como o narrador nas vezes em que me entreguei profundamente a relações que viam em mim apenas mais uma peça útil no seu tabuleiro da vida. E já fui Nástenka quando, mesmo sem perceber, usei a presença do outro como amparo para uma dor que era só minha, sem oferecer em troca uma presença autêntica.

Em nenhuma das duas situações eu agi de má-fé ou estava plenamente consciente do que se passava nessas relações. Isso é importante para percebermos que, às vezes, histórias ruins não têm necessariamente mocinhos e vilões, mas tão somente seres imperfeitos lidando com suas próprias dores e contradições.

Isso não nos consola, mas também não nos exime de buscar aperfeiçoamento constante, cultivando em nós a capacidade de nos observar com honestidade para perceber quando estamos sendo feridos e quando estamos ferindo, ou seja, quando estamos usando da generosidade de alguém para suprir nossas carências.

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Se estamos doando onde não somos percebidos ou se estamos recebendo sem colocar na balança o custo que impusemos ao outro, devemos repensar nossa posição. O narrador ficou na ponte e agradeceu a Deus pela ventura que recebeu, quem sabe não possamos desejar um pouco mais para nós?

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