Muitos de nós simplesmente não escolhemos quando deveríamos fazê-lo. Adiamos e esperamos que a vida, os outros ou as circunstâncias produzam uma solução que nós mesmos não conseguimos assumir. Aos mais desavisados, pode parecer que quando não escolhemos estamos indiferentes em relação à vida ou então que não sabemos ao certo aquilo que desejamos.
Isso pode ser verdade para algumas situações, principalmente aquelas que demandam mais reflexão. Mas a falta de atitude à qual quero me referir hoje não é desse tipo, mas aquela que ocorre quando já sabemos o que deixou de fazer sentido, por exemplo um parceiro ou um trabalho já não correspondem mais àquilo que antes dotava nossa vida de significado, mas, mesmo assim, permanecemos paralisados.
Poderíamos pensar que a paralisia acontece porque temos medo de errar. Mas eu acredito que isso acontece na minoria dos casos. Errar é um dos movimentos de quem tem desejo de vida e, por essa razão, parece mais suportável, do ponto de vista existencial, errar do que permanecer imóvel. Para o erro cabe explicação, revisão e até mesmo sua incorporação na nossa própria história.
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Já a inércia não oferece nenhuma saída moral consoladora, pois ela simplesmente nos mantém onde estamos, sem que possamos justificar o motivo. Por isso eu acredito que o que verdadeiramente não nos deixa agir quando a vida suplica uma decisão é o medo da perda. Toda escolha importante exige que algo seja abandonado, quando escolhemos um caminho estamos fechando portas para outros caminhos que, até aquela decisão, eram possíveis. Decidir é deixar algo para trás, talvez para sempre.
E isso pode ser assustador. Por isso é que há decisões que pesam tanto. Esse tipo de decisão não envolve apenas a compra de um carro novo, a troca de casa ou o término de uma relação. Elas alteram a própria narrativa existencial que temos a nosso respeito. Ao escolher mudamos o rumo de nossas vidas e alteramos a pessoa que seremos a partir daquela decisão. Em toda escolha há uma espécie de luto pelas vidas que deixarão de ser vividas por nós e permanecerão apenas como algo que já foi um dia uma possibilidade.
Kierkegaard nos ensina que o ser humano não é apenas aquilo que ele é de fato, ele é também aquilo que ele pode vir a ser. Para ele, nossas vidas são atravessadas por possibilidades, que são aquelas versões ainda não realizadas de nós mesmos, mas que se abrem diante das nossas possibilidades de escolha. Mas justamente por termos tantas possiblidades e porque escolher envolve um grande trabalho de renúncia é que o autor nos afirma que a angústia se instala. É o peso da liberdade de escolher e ter que renunciar ao não escolhido.
O problema é que enquanto não escolhemos, acreditamos que nada foi perdido. Só que, ao mesmo tempo, muita vida autêntica deixa de ser vivida exatamente por não escolhermos. Acreditamos que, enquanto não decidimos, conservamos as portas ainda abertas. É como se, na fantasia, a hesitação deixasse nosso futuro intacto. Só que a vida não deixa de passar enquanto estamos reunindo coragem: envelhecemos, desejos se transformam, pessoas se cansam e os lugares deixam de nos esperar. E o que hoje parece uma oportunidade aberta, daqui a alguns anos pode ser apenas a lembrança do que um dia foi possível. Diante da nossa inércia, o tempo escolheu por nós!
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Somos feitos das escolhas que tivemos a coragem de fazer, mas também por aquelas que não conseguimos enfrentar. A vida que não escolhemos – e que nos chamava com urgência - sempre vai permanecer em nós como uma sombra, nos lembrando que houve um momento em que era ainda possível tentar, mas que nós não tivemos coragem de dar o salto decisivo rumo ao desconhecido.
