Considero o livro “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói, um dos mais belos e impactantes que já li na vida. É um livro pequeno, de leitura razoavelmente simples, mas com uma das mensagens mais profundas que já tive acesso. Ele nos ensina sobre a morte e mais ainda sobre a vida. O livro começa com a informação da morte de Ivan Ilitch, que é recebida na repartição em que trabalha sem tristeza aparente, já que seus colegas, ao receberem a notícia, discutem quem será promovido em seu lugar. Depois dessa cena inicial, mostrando a aparente banalidade de sua morte para aqueles que ficaram, o autor volta no tempo para nos contar um pouco sobre a vida desse personagem.

Ivan Ilitch era um respeitado juiz, que durante toda a sua vida se guiou por três pilares: busca por respeitabilidade social, preocupação com carreira e manutenção da aparência de uma vida correta. Ele vivia uma vida que Tolstói classificou como conveniente, ou seja, fazia aquilo que se esperava dele e, ao que parece, durante a vida, até se sentia satisfeito com isso. No entanto, a história muda quando ele sofre uma doença que nenhum dos médicos consegue explicar muito bem. A partir de então, a história dá um salto e se transforma em um processo psicológico de aproximação da morte, com todos os questionamentos que lhe são próprios.

Em uma cama, sem saber ao certo o que estava acontecendo, o protagonista nos mostra que seu verdadeiro sofrimento não era físico, mas existencial. Pressentindo que sua morte se aproximava e que ninguém queria conversar sobre isso com ele, passou a questionar a si próprio sobre a vida que havia vivido e se ela havia tido sentido com aquilo que ele verdadeiramente esperava da sua existência. Nesse processo passou a perceber que a vida que havia vivido era um arremedo da vida que pulsava dentro de si. Conclui que havia vivido uma vida em torno das expectativas sociais e que havia se deixado de lado. 

É perturbador ver que Ivan Ilitch vai percebendo aos poucos que aquilo que ele havia considerado uma vida boa talvez não passasse de uma mentira. Durante toda vida o personagem havia organizado suas escolhas segundo aquilo que era socialmente esperado: tinha um casamento conveniente, uma carreira respeitável e uma conduta que jamais provocou qualquer estranhamento em seu círculo social. 

E nada disso parecia errado enquanto estava vivendo, contudo, com a aproximação da morte, ele passou a perceber que não havia vivido a vida que pulsava dentro de si, mas sim a vida que os outros consideravam apropriada. Aquilo que antes era considerado por ele uma existência desejável, nos momentos que antecederam sua morte, lhe pareceu um verdadeiro absurdo diante daquilo que a alma desejava verdadeiramente.

O ponto filosoficamente mais perturbador do livro é quando percebemos, junto com Ivan, que ele reconhece o vazio da vida que havia escolhido apenas horas antes de sua morte, quando já não havia muito a ser feito a não ser lastimar. O que o protagonista nos mostra que é possível passar anos de nossas vidas acreditando que estamos vivendo a vida que queremos, apesar das angústias que rotineiramente nos mostram que não estamos, mas preferimos ignorar em nome das conveniências. 

O que verdadeiramente atormenta Ivan Ilitch é que, aquilo que antes parecia uma existência equilibrada, se mostrou, nos momentos que antecederam sua morte, uma sucessão de equívocos, guiados mais pelo olhar alheio do que por uma busca autêntica de sentido. 

O alerta que atravessa toda a narrativa é o de que vivemos com as outras pessoas e não há como nos desvencilharmos delas, pois elas são parte daquilo que somos, no entanto, quando deixamos que apenas os desejos alheios comandem nossas vidas, corremos o risco de, ao final, não conseguirmos nos enxergar na vida que vivemos. 

A vida em sociedade exige compromissos e responsabilidades, e isso não é um problema, ele só surge quando permitimos que esse olhar externo guie inteiramente nossas escolhas, se tornando o único (ou o mais forte) critério válido para nos orientar.

A grande mensagem que Tolstói nos deixou foi a do perigo, não de morrer, pois todos vamos um dia, mas sim o de passarmos uma vida inteira desempenhando papéis que não nos cabem, pelo simples desejo de satisfazermos as expectativas alheias, porque acreditamos que só assim seremos amados e respeitados. 

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O livro é um convite para que não deixemos as travessias que devemos fazer para outro momento, pois pode não dar tempo, e nada deve ser mais angustiante do que saber que já não há mais meios possíveis para sermos quem deveríamos ter sido na vida que está prestes a se encerrar. 

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