Rotineiramente gosto de me perguntar o que verdadeiramente me pertence daquilo que carrego comigo. Não estou falando de bens materiais, pois estes não se levam dessa vida, mas no sentido de vínculos genuínos e presenças que verdadeiramente importam, sem as quais não seria possível contar a minha história. Pensando nos amigos, essa é uma pergunta que parece boa a princípio mas, se formos bem honestos, são poucas as relações que resistem ao tempo sem se tornarem cerimônia ou saudade daquilo que já não existe mais. Por isso, aqueles de nós que estão em processo de amadurecimento e que têm relações de amizade que atravessaram décadas sem perder o frescor são verdadeiros agraciados.
Recentemente vi uma entrevista de uma atriz de teatro italiana, hoje com quase oitenta anos, que, ao ser perguntada o que havia mudado na sua vida ao longo de décadas, respondeu sem pestanejar que o que havia mudado era sua capacidade de reconhecer, com muito mais precisão do que quando era jovem, quais pessoas na sua vida estavam de fato presentes e quais apenas ocupavam o espaço da presença, sem nunca estarem de fato ali. Segundo ela, a velhice lhe trouxe um dom precioso, que era o de ver com clareza quem ficaria se não houvesse mais nada a ganhar. Achei a resposta dela muito boa, principalmente porque não tenho esse dom e sempre achei que todo mundo ficaria, mas ela me mostrou que somente os verdadeiros amigos permanecem. E que, reconhecê-los, é uma forma de sabedoria que somente o tempo nos ensina.
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Acho que Aristóteles conseguiu traduzir isso quando disse que a amizade é condição para a existência. Modernamente costumamos chamar a todos de amigo: aquele utilitário, que serve enquanto o interesse em comum permanece; ou aquele amigo do “prazer”, que dura enquanto a companhia é agradável. Colocamos todos no mesmo nível. Mas o filósofo grego não estava interessado nessas relações instrumentais, mas na amizade virtuosa, que é exatamente aquela em que cada um deseja o bem do outro pelo que o outro é, e não pelo que o outro oferece ou representa. Esse tipo é raro, pois demanda tempo para desabrochar e para que todos consigam ver as imperfeições, as mudanças, as perdas e, ainda assim, decidam permanecer.
As longas relações de amizade não vivem de projeções. Não daquelas imagens idealizadas que construímos sobre o outro antes de o conhecermos de verdade. Elas se solidificam justamente na verdade de cada um. Elas se fortalecem nos anos de conhecimento real acumulado ao longo de uma vida compartilhada. O que a atriz descreveu, sem usar Aristóteles, foi a amizade virtuosa revelada pelo avesso, ou seja, pela descoberta tardia de quantas relações que pareciam sólidas eram, na verdade, apenas funcionais. Essa fala, ouvida sem esperar, em um dia repleto de compromissos, trouxe em mim a certeza de que vale mesmo a pena os vínculos construídos devagar, sem pressa e sem cálculo, que hoje estão nas nossas vidas com a solidez que só pode oferecer uma amizade que foi testada e permaneceu.
É de Aristóteles também a ideia de que o amigo é o outro eu. Não um eu reflexo de nós, mas um espelho através do qual nos vemos com mais clareza e mais compaixão do que seríamos capazes se estivéssemos sozinhos. Não é por acaso que esse “outro eu” não se constrói na intensidade de promessas, pois ele só se sedimenta em anos de presença real e na escolha de permanecer, ainda quando os tempos se mostrarem muito difíceis, ainda quando não houver mais nada a ganhar além da própria amizade. É essa a espécie de vínculo de que precisamos à medida que envelhecemos.
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