Vivemos em um mundo repleto de bolhas (digitais, afetivas e morais), que nos cercam apenas de semelhantes. Nas bolhas, tudo parece conectado pela lógica da convergência: pensamos de modo parecido, votamos de modo parecido e só queremos perto de nós aqueles que confirmam nossas crenças. Parece que a diferença, antes tão valorizada, se tornou incômoda e passamos a pensar que o dissenso é uma ameaça, e o outro, um risco a ser evitado a todo custo.
Nesse cenário, o improvável surge como uma espécie de caos ordenado, a pôr fim à calmaria que os semelhantes trazem. O improvável não é regido pelas estatísticas e escapa à lógica das afinidades e, não por acaso, expande nosso horizonte de sentido. São encontros que não deveriam acontecer ou alianças que não fazem qualquer sentido sob qualquer ótica, mas que, justamente por isso, podem ser tão auspiciosos.
Para citar um exemplo, tenho um grupo de amigas que, para os observadores externos, seria incompreensível a razão que nos une. Eu mesma confesso que ainda não sei bem o que nos une, só sei que é forte. Fisicamente somos muito distintas, temos idades diversas, formações e posições políticas discrepantes e, mais que isso, são trajetórias de vida absolutamente diferentes, visões de mundo divergentes e sensibilidades que nem sempre se encaixam, tudo isso reunido em deliciosas reuniões regulares em nossas casas.
Somos quatro: uma conta casos pelas metades e precisamos ficar adivinhando; a outra quer falar de filosofia enquanto está todo mundo gritando; a outra quer organizar a agenda até dos desconhecidos; enquanto a última dança e sorri, alheia a toda a confusão. E isso tudo acontece ao mesmo tempo: é caótico e engrandecedor, como poucos encontros são. Nada ali é previsível e talvez seja isso mesmo que nos transforma.
Nós só fomos possíveis porque aceitamos viver o improvável quando o mundo nos chamava ao óbvio. Enquanto as pessoas buscam homogeneizar até mesmo o afeto, ter a possibilidade de estar entre pessoas que pensam e agem diferente de nós exige coragem e abertura para o diálogo e para a aprendizagem.
Viver o improvável é um modo de resistirmos à lógica da semelhança que parece imperar na era dos algoritmos. Ele nos obriga a abandonar o conforto das respostas prontas para admitirmos que o mundo é muito mais complexo do que pode supor nossa vã filosofia. Enquanto o semelhante nos conforta, o improvável desafia nossa própria lógica, demasiado estreita para abarcar aquilo que está fora de nossa cosmovisão.
Além de surpreendente, há todo um aprendizado epistemológico no improvável, pois conviver com quem pensa diferente de nós relativiza nossas certezas, o que é profundamente benéfico para nosso crescimento pessoal e para a sociedade como um todo. É o improvável que nos ensina que tudo aquilo que acreditamos ser evidente, pode ser apenas um hábito; que o que comumente chamamos de verdade, pode não ser mais que uma perspectiva; e que todas as nossas certezas, a não ser a da finitude, são frágeis e carentes de verificações lógicas.
Enquanto estamos dentro de nossas bolhas, costumamos ter certeza da centralidade do nosso olhar sobre o mundo, mas quando nos expomos ao improvável, somos convocados à humildade diante da complexidade do real. Sem o improvável, nossas certezas deixam de ser convicções para se tornarem prisões... e assim o crescimento não acontece.
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Quando o tema são as nossas relações amorosas, em geral, buscamos relações que confirmem aquilo que já acreditamos e isso pode ser muito bom. No entanto, já pensaram também o quanto pode ser bom ou ainda melhor encontrar um amor que represente um desafio, exatamente por que não é o espelho que confirma o que já sabemos? Não seriam exatamente os encontros improváveis aqueles que podem nos oferecer as experiências mais intensas, exatamente por sair do roteiro previsível do desejo, nos expondo a formas de sentir que racionalmente jamais teríamos escolhido?
