Os chamados “super velhos” estão em voga: são pessoas acima dos cinquenta anos com corpos sarados, dotadas de boa saúde e visivelmente possuidoras de boas condições financeiras e algum capital social. De uns tempos para cá passou-se a chamar esse tipo de velho de NOLT (New Older Living Trend), atrelando-os a uma vida ativa, autônoma e produtiva. Ao contrário do modelo tradicional de envelhecimento, que é associado a exclusão e ao preconceito, os NOLT são apresentados como protagonistas de suas vidas, e isso parece ser algo muito bom em um mundo no qual, majoritariamente, o sujeito que envelhece ainda é estigmatizado.
Como disse, a princípio parece evidente que o termo carrega uma intenção positiva, buscando romper com as antigas narrativas atreladas ao envelhecimento, ao mesmo tempo em que afirma que a vida depois dos 50 anos não precisa necessariamente ser sinônimo de declínio. Isso parece ressoar diretamente no desejo que as pessoas em processo de amadurecimento têm de serem reconhecidas em sua autonomia e continuidade de sentido. Tudo isso é muito bom e é justamente por isso que o risco pode passar desapercebido. O modelo NOLT, quando propõe uma nova imagem da velhice, também delimita quem pode ocupá-lo.
O imaginário por trás do movimento NOLT não é neutro, mas sim repleto de premissas. Ele pressupõe trajetórias lineares de vida, acesso contínuo a bens materiais e simbólicos e um corpo que tenha sido permanentemente cuidado. Ou seja, trata-se de um ideal dependente de capitais acumulados ao longo do tempo, tais como econômico, social e cultural. Trata-se de um envelhecimento ativo, sem dúvida, mas é também extremamente restritivo. Talvez esse seja o envelhecimento dos sonhos, mas é preciso ser realista e admitir que ele não está disponível para grande parte das pessoas. Quem, de fato, tem condições materiais, históricas e corporais para sustentar esse ideal de envelhecimento?
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Em um país profundamente desigual, no qual a maior parte da população envelhece após anos de trabalho precário, acesso à saúde de baixa qualidade e pouquíssimas redes de proteção, o discurso NOLT deixa de ser inspirador para se tornar um marcador simbólico de pertencimento, distinguindo aqueles que conseguem atingir o ideal daqueles que ficam à sua margem. E isso só acontece porque o jeito NOLT de envelhecer vem se tornando normativo nas redes sociais e no imaginário popular, ou seja, um modo para se medir o sucesso ou o fracasso do envelhecimento, sem se levar em conta as inúmeras especificidades que separam as pessoas.
Parece inquietante quando o envelhecimento passa a ser avaliado por critérios de desempenho absolutos. Como se só houvesse um jeito certo de envelhecer, que seria necessariamente ativo, produtivo e esteticamente aceitável. Aqueles que não se encaixam no modelo porque condições adversas lhes sobrevieram na vida são tratados como culpados por sua baixa performance. E isso é perverso, pois transforma desigualdades estruturais em fracassos pessoais, naturalizando as antigas exclusões, só que agora com uma nova roupagem progressista.
A questão não é rejeitar o movimento NOLT enquanto discurso social válido, mas apenas o de recusar-lhe como parâmetro normativo de envelhecimento saudável. Combater o etarismo não é trocar a imagem do velho frágil pela do velho performático, como se apenas um modelo de envelhecimento devesse ser socialmente reconhecido. Se o movimento NOLT quer ser libertário, precisa reconhecer que há muitas outras formas de envelhecer, inclusive aquelas marcadas por limites, dependência e desigualdade histórica. Do contrário, estaremos apenas atualizando a exclusão, agora não mais pelo simples fato de envelhecer, mas por não envelhecer conforme o padrão considerado correto.
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