Em agosto de 2022, quase às vésperas da eleição presidencial, publiquei neste mesmo espaço um artigo que intitulei “Nossa viagem sem destino”. Quase quatro anos depois, vejo com amargura que poderia transcrever hoje o mesmo artigo, sem que ele perdesse a atualidade.


Naquele artigo escrevi que a luta eleitoral que se desenrolava não era a luta de quase nenhum de nós, pois nada do que os brasileiros sonhavam ou desejavam estava propriamente em jogo. Era apenas um jogo de rivalidades, uma espécie de “reality show”, em que vitória e derrota não significavam nada. No final conclui que no mês de outubro não estaríamos escolhendo nada, apenas embarcando para uma viagem sem destino, ou seja, qualquer que fosse o resultado estaríamos caminhando para lugar nenhum.


Passados quatro anos penso que minha predição estava certa, pois a situação do país realmente não melhorou. Uma grande diferença, e não é pouco, é que nossa democracia não corre mais os riscos que corria naquela época, com as dúvidas lançadas sobre a lisura do processo eleitoral e os resultados das urnas. As instituições se mostraram resistentes, a grande imprensa foi ativa e, mais importante, a grande maioria da população brasileira ficou do lado da democracia.


Quanto ao mais, o Brasil continua sendo um país que cresce pouco, sua infraestrutura está sendo consumida sem reposição, a educação vai mal e o Estado está cada vez mais impotente para resolver problemas. Além disso, estamos caminhando para um estado de insolvência fiscal, cujas consequências podem ser destrutivas. Em janeiro de 2023 a dívida pública representava 71% do PIB. Neste ano, de acordo com o projeto de Lei de diretrizes orçamentárias, enviado pelo governo ao Congresso, a dívida fechará em 83% e no ano que vem chegará a 86% do PIB. Esses são temas que passam ao largo das campanhas e que não afetam o sentimento das pessoas, mas não podem ser ignorados pelo governo, pelo Congresso e pelos líderes do país, no setor público e no setor privado.

 


Problemas econômicos, quando não causados por fatores externos, fora do controle do país, podem ser resolvidos. Já tivemos crises antes, a pior delas a inflação crônica, e soubemos resolvê-las. Mas em cada caso havia um Governo que governava e um certo alinhamento político e institucional, tudo o que nos falta agora. Temos hoje um Governo cansado e sem ideias, a não ser a obstinação em continuar no poder. O que se passa por oposição não tem o que dizer ou propor, salvo a anistia para Bolsonaro e os generais.
O mais inacreditável é que a própria oposição desaparece quando se trata de aprovar medidas eleitorais que ferem o equilíbrio das contas públicas ou o ambiente de negócios. Nesses casos, governo e oposição se dão as mãos alegremente, todos competindo em irresponsabilidade, para se apresentar aos eleitores como benfeitores do povo.


A sucessão de 2026 repete o mesmo vácuo de 2022, com um ingrediente novo, que são os escândalos financeiros, que, desta vez, parecem alcançar parlamentares e autoridades de vários escalões e em todos os Poderes. Estes escândalos, se apurados com integridade, podem ser uma oportunidade para uma revisão institucional e até para produzir alguma surpresa nas eleições, malgrado o esforço de muita gente poderosa para abafar o caso, tumultuar as investigações ou adiar tudo para mais tarde.


O caso Master pode ser uma espécie de “mão de Deus” na vida brasileira, capaz de romper os pactos de poder vigentes, que até agora tem conseguido impedir qualquer mudança. Nosso sistema político tem defesas poderosas para manter tudo como está. Só um acontecimento externo muito forte pode abrir brechas na sua blindagem institucional e, ao mesmo tempo, dar à indignação pública a massa crítica capaz de levar a alguma forma de ação.

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Ainda há motivos para conter o otimismo. Os líderes no Congresso não vão permitir qualquer investigação parlamentar. O governo tem muito medo de um processo que pode sair do controle. O Supremo pode frustrar um desfecho completo. A esperança é que a “mão de Deus” não nos abandone.

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