Na política, o discurso moral é muitas vezes falso, embora esta falsidade só seja descoberta tardiamente. Na história do Brasil há riqueza de exemplos. Para os da minha geração, o melhor exemplo foi Jânio Quadros, um político aventureiro que venceu as eleições de 1960 usando como símbolo uma vassoura, que varreria toda a corrupção que havia no país. Governou apenas seis meses e no final da vida foi amplamente reconhecido como um político, não apenas venal, mas obcecado por dinheiro. Suas contas clandestinas na Inglaterra foram fonte de rumorosos conflitos entre seus herdeiros. Se não tivesse vencido aquela eleição, a história do horror que se seguiu, nos anos 60 e 70, talvez não tivesse ocorrido.
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Já em tempo mais recente, tivemos Fernando Collor, o caçador de marajás. Venceu os maiores líderes do país, fundadores da redemocratização, com promessas de uma revolução moral e acabou sendo afastado por corrupção. Retornando à vida pública, voltou a delinquir, foi condenado pela Justiça e cumpre prisão domiciliar por razões humanitárias.
Enquanto esteve na oposição, o PT foi implacável e mesmo injusto nas denúncias de ordem moral contra os seus adversários, tendo colocado a luta contra a corrupção acima de outras bandeiras. É fato que nos seus primórdios o partido tinha mesmo uma certa inocência, mas tendo assumido o poder viu-se em meio a sucessivos escândalos, e até hoje vive na defensiva. Não seria justo acusar o partido em sua totalidade, mas diante das realidades do poder foi, pelo menos, mais complacente do que prometia ser.
Tudo isso justifica uma certa reserva quando se trata de trazer a questão moral para o centro do debate político. As questões centrais sempre deverão ser as que dizem respeito ao crescimento econômico, à prosperidade da população, à segurança das pessoas e à soberania e independência do país. Mas há certos momentos em que precisamos abordar a questão da moralidade e da decência dos políticos e das autoridades públicas.
A população brasileira vive hoje sob a percepção de que a corrupção e a busca do interesse pessoal dominam completamente os Poderes da República. A confiança nas instituições está em seus limites mais baixos. Uma pesquisa do Instituto Datafolha revelou que 59% dos brasileiros se confessaram tristes. Esta tristeza vai além das dificuldades econômicas, que sempre estiveram presentes no cotidiano da maioria das pessoas. Ela tem um ingrediente de desesperança e de desalento. Ninguém espera nada mais da esfera pública. Diante da pobreza e das dificuldades econômicas generalizadas, o espetáculo aberto de políticos e autoridades envolvidos em escândalos financeiros acrescenta ao desengano uma dose de raiva, que não era até há pouco um sentimento generalizado entre nós.
Diante da falta de rumo e de esperança, os brasileiros parecem dispostos a se refugiarem em suas identidades de grupo, juntando forças apenas para derrotar o adversário político, sem nenhum outro propósito construtivo, praticamente desistindo de qualquer projeto de futuro. Todos correm atrás de um projeto de sobrevivência.
Este tipo de vitória não garante a sobrevivência. Como se governará depois de uma vitória deste tipo? Os brasileiros só voltarão a se reunir em torno de um projeto de futuro se voltarem a ter alguma confiança e algum respeito pelos seus políticos e suas autoridades. Por isto, desta vez será preciso colocar no debate político a questão moral, a questão dos padrões mínimos de comportamento e de decência. Não contamos para isso com a Justiça, ela também envolvida em graves suspeições e armada antes para se defender do que para defender o que resta da República.
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Chegamos a um ponto em que só as pessoas comuns podem salvar a República. A única arma das pessoas comuns é sua voz e seu voto. Os sob suspeita que nos perdoem, mas nesta hora não ser suspeito é fundamental. Na política brasileira de hoje não há lugar para a presunção de inocência. A hora agora é dos impecáveis, para todos os cargos da República. Eles existem.
Vamos em busca deles.
