Recentemente, um aluno comentou na aula de gastronomia que havia comido um carbonara na noite anterior. O colega ao lado imediatamente retrucou, espantado: “numa quarta-feira???”


Este breve diálogo mostra como comer hoje virou uma contravenção passível de penalidades. A maior delas é a atividade física encarada como castigo ou pagamento de dívida – algumas pessoas depois de treinar falam “está pago.” A segunda delas são as injeções da moda como Mounjaro e Ozempic.


Já ouvi algumas vezes que a pessoa vai provar tudo o que quiser porque, chegando em casa, vai tomar o remédio. Uma amiga endocrinologista, que também é aluna do curso, elogiou a medicação, falou que finalmente há uma boa ajuda para redução de obesidade, mas que não adianta tomar depois de comer, não aumenta o metabolismo, não faz emagrecer.


O efeito é anterior, por tirar a fome. E é para tratamento de obesidade em alto grau, não para magros se manterem magros. Magreza virou virtude, proporcionalmente comer virou um delito.


Claro que uma circunferência abdominal saudável é indicada, que comer para mais pode ser uma disfunção, mas comer para menos também é.


Milhares de dietas entram e saem de moda, mas o que fica é o que todo mundo já sabe: comer de tudo com moderação e fazer atividade física regular e pronto. É simples. E a saúde mental agradece, “corpo são, mente sana” é uma frase milenar. Como disse Shakespeare numa frase que vale aqui, “é uma novidade bastante velha, porém é a novidade de todos os dias”.


A revista The Economist fez uma matéria neste mês sobre o impacto nos restaurantes do consumo de Mounjaro e Ozempic na Inglaterra. Como os clientes que podem pagar uma conta de restaurante regularmente são os mesmos que podem pagar pela medicação, e uma boa parte está fazendo uso dela, sem fome o cliente não vai jantar fora. Reduzir as porções? Fazer comida de passarinho? Pílulas de astronauta? Parece que o futuro chegou de vez.


Outro vilão do momento é o vinho. A Geração Z não o está consumindo. Mas, como a geração que virá depois vai questionar a anterior, a futura geração vai protestar e descobrir como vinho é bom. E assim caminha a humanidade.


Comer é um grande prazer, cozinhar também. Me lembro da reclamação que Luís Fernando Veríssimo fez quando começaram a falar que ovo frito era recomendável para a saúde. Ele estava desolado por ter ficado anos proibido de comer algo que ele adorava.


Quando vejo uma pessoa magra, abrindo um pote na academia com peito de frango e batata doce frios, vejo uma cena deprimente. A começar pela expressão desolada de quem está abrindo a caixinha.


Toda vez que leio matérias sobre como se manter saudável e viver muito, a receita é a mesma: não ingerir bebidas alcoólicas, evitar carne vermelha, comer muitas frutas e legumes, peixes e carnes brancas. E o mais importante: brócolis! Este está sempre presente, como se fosse o passaporte para a imortalidade.


Nenhum centenário saudável, quando fala o que comeu a vida inteira, menciona brócolis: em geral falam de lombinho com whiskinho e travessuras do gênero.


A rainha Elizabeth tomava cinco drinques por dia, até o fim da vida. Como bem disse outro aluno, também médico, “não fomos feitos para durar para sempre”. Então, “let’s have fun”. Não defendo a esbórnia, mas o prazer. E adoro atividade física. Atleta – não é o meu caso – come muito. Um personal trainer que conheço janta todos os dias, carboidratos e tudo o que tem direito. Comer não é crime. E muito menos passível de castigo depois.

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E viva o carbonara numa quarta à noite!

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