Conhecemos empresários que trocam equipes, reformulam processos, mudam gestores e, ainda assim, continuam vivendo conflitos parecidos, como se a cena mudasse, mas algo se repetisse. Quando isso acontece, talvez seja necessário perguntar se o problema está apenas nas pessoas ou se existe um padrão sendo repetido pela própria liderança. À luz da psicanálise, aquilo que retorna insiste e, muitas vezes, precisa ser compreendido.  

Manfred Kets de Vries, professor clínico de liderança no INSEAD, na França, e uma das principais referências internacionais na relação entre psicanálise, liderança e comportamento organizacional, desenvolveu uma leitura psicodinâmica da gestão. Em sua abordagem, o líder não leva para a empresa apenas estratégia, experiência e capacidade de decisão. Leva também as suas crenças, inseguranças e formas inconscientes de como liderar com confiança.


 

Uma reunião sobre metas pode, na verdade, revelar medo; uma resistência a uma decisão estratégica pode esconder a necessidade de ser ouvido; e uma cobrança aparentemente objetiva pode carregar a angústia de quem sente que está perdendo o controle. Nesse sentido, o conflito empresarial nem sempre começa na divergência, mas quando algo importante não encontra nome, elaboração ou escuta e, sem reconhecimento, cristaliza-se nas relações.

Existe uma frase comum no universo empresarial: “minha equipe não funciona sem mim”. À primeira vista, ela parece ter responsabilidade, mas pode revelar algo mais profundo: um líder que não consegue soltar, delegar ou descansar talvez esteja tentando se proteger da incerteza, da frustração e do risco de confiar e se decepcionar. Nesse caso, delegar deixa de ser apenas uma decisão de gestão e se torna uma questão emocional; o que a empresa chama de gargalo, a psicanálise pode compreender como uma dificuldade interna de separação, confiança e autonomia.

Nem todo conflito aparece como conflito: às vezes, ele se manifesta em rotatividade alta, perda de talentos, reuniões sem conclusão, decisões travadas ou falta de comprometimento. A abordagem sistêmica amplia essa leitura ao mostrar que muitos conflitos não pertencem apenas a uma pessoa, mas ao sistema de relações em que ela está inserida, onde papéis confusos, hierarquias mal definidas e histórias não elaboradas continuam influenciando decisões atuais.

Em empresas familiares, isso aparece com frequência. A reunião pode parecer sobre decisões do negócio, mas envolve sentimentos antigos: necessidade de reconhecimento, disputas entre irmãos, medo de perder espaço ou dificuldade de separar família e gestão. Nesses casos, o conflito nem sempre está no cargo ou na função; muitas vezes, revela uma pergunta: “qual é o meu lugar nessa história?”

Por isso, olhar para os conflitos empresariais apenas como problemas técnicos pode ser insuficiente. Comunicação, processos e métodos importam, mas há desafios que a técnica, sozinha, não resolve, porque o que está travado nem sempre é o conflito em si, mas algo emocional preso nas relações.

 

A mediação de conflitos, especialmente quando orientada por uma leitura sistêmica, pode ajudar a empresa a observar aquilo que se repete por trás do conflito. Não se trata de transformar a empresa em um consultório. Trata-se de reconhecer que toda decisão humana carrega também uma dimensão emocional.

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Empresas maduras também têm conflitos; a diferença é que aprendem a escutá-los antes que se transformem em cultura. O conflito não compreendido se repete, a repetição se normaliza e o custo aparece em talentos perdidos, decisões adiadas e relações desgastadas.  Talvez a empresa não esteja desmoronando por falta de controle. Talvez esteja mostrando que, quando o conflito não é escutado, ele passa a conduzir silenciosamente as decisões. Ou você conduz o conflito, ou o conflito conduz você. 

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