“Precisamos destruir essa mulher!”. Essa foi a frase mais perturbadora que li ao final da apuração do primeiro turno do pleito de 2026, referindo-se à Ana Paula Renault, campeã do BBB 26, mas que doeu não somente como se fosse pra mim - e não digo apenas pela identificação com a Ana Paula - mas porque sou mulher e me reconheço em tantas outras. Isso dói em todas nós. O projeto misógino de aniquilamento fica muito claro e evidente e vem disfarçado de “fogo amigo”, de “esquerda progressista” e não, não estou aqui para tacar pedras em quem está no mesmo campo político pró-democracia e progressista.
Vamos aos fatos. O tuíte foi feito em 27 de janeiro deste ano e replicado ao final da noite. Nele, o usuário da rede que se apresenta como “Leonardo”, usa, no perfil, a foto da atriz Patrícia Pilar, e segundo informações visíveis do próprio aplicativo, está nele desde 2015, escreve: “Estava conversando com um cientista politico da USP e ele me explicou q hoje Ana Paula Renault é uma ameaça a reeleição do Lula. Que essa militância vazia q ela identifica como esquerda (e não é!) afasta o eleitor de centro q vai decidir a eleição.Precisamos destruir essa mulher!”.
E segue: “Ele ressaltou ainda, o Lula não encampa esses valores pq sabe q o brasileiro abomina essa hipocrisia psolista RJ dela. Segundo ele é um erro associar Ana Paula ao Governo do PT. E pode custar caro.”
Nesta data, Ana Paula Renault estava confinada no reality show. Na noite de domingo (4), ele próprio se retuitou com a frase: “eu alertei vocês”.
Aqui, não sei se vocês percebem a gravidade do post. Ele não só atribui a uma mulher, jornalista, ativista, o resultado das urnas e do primeiro turno das eleições presidenciais, como reforça o alerta de que ela precisa ser destruída.
Minha pergunta é: quem é esta pessoa? Por que ele entendeu que Ana Paula Renault precisa ser destruída? Embasado no quê ele a ataca, quase que diariamente na rede, tentando atrair pessoas que possam odiá-la e desmoralizar todo e qualquer post feito por ela?!
Críticas à parte, há quem goste e se identifique, há quem deteste, há quem ignore e há quem celebre que, com seus mais de 10 milhões de seguidores, Ana Paula tenha falado sobre bolsa família, fim da escala 6x1, direitos LGBTs, voto e sufrágio das mulheres, bets, aposentados, as funções de cada cargo na Câmara dos Deputados, na Assembleia Legislativa, no Senado, no Governo Estadual e no Governo Federal e, ainda sim, foi alvo de muitas críticas e cobranças por um posicionamento sedento por uma foto fazendo o “L”, que somente ela pode dizer porque não existiu nesta eleição, muito embora, venha, desde sua primeira aparição em reality show, em 2016, participando de muitos programas, inclusive de direita, e se posicionando de forma progressista, com a esquerda, em inúmeras pautas.
Minha questão é que este ataque não é apenas à Ana Paula Renault e não respinga apenas nela. Ele entristece e, sabemos, tristeza é uma tática extremista e fascista, para nos roubar a alegria de vida, a festa, o corpo em celebração, nossa capacidade de reagir e guerrilhar. Num país em que quatro mulheres morrem por dia vítimas de feminicídio, normalizar o ódio às mulheres de forma pública é perversidade, maldade e perpetuação do fascismo disfarçado de esquerdomachismo.
E não só: é uma tática extremamente misógina. Desejar a aniquilação pública e incentivá-la, apenas porque você não gosta da pessoa e da figura que ela representa, é criminoso. Doentio.
Ler o tuíte, ao final da noite, me deixou desolada. Minutos antes, eu tinha, justamente, elogiado Ana Paula por sua voz, consistência e insistência em falar fora da bolha. Soube, de casos próximos, de fãs que votavam em candidatos da direita e que, após ouví-la falando e integrarem o clube do livro que leva o nome dela, repensem seus votos e escolheram candidatos à esquerda. A mudança está aí. E ela aconteceu diante da gente.
Poder incentivar, influenciar alguém e jogar o jogo da internet em época eleitoral é algo extremamente delicado e melindroso. Nem todo mundo consegue, porque não têm estômago, porque não tem traquejo, porque não quer. E Ana Paula quis. À sua maneira. Da forma como conseguiu se posicionar e da forma como, para mais de 10 milhões de pessoas, falou de pautas urgentes. Com um nível de engajamento que beira o do deputado mais bem votado do nosso Estado de Minas Gerais, isso não deve ser menosprezado.
Tá tudo bem não gostar da Ana Paula, não acompanhar, fazer críticas. Não estou aqui para fazer defesas irrestritas, embora goste muito dela. Mas, existe um abismo em dizer: “não curti x coisa” e “precisamos destruir essa mulher”. Digo isso, porque quando anunciamos que uma mulher precisa ser destruída, destruímos muitas outras.
Na última semana, escrevi sobre essa ser uma eleição extremamente importante e como nós, como mulheres, precisamos não apenas ir votar, mas pensar por conta própria. Nossos direitos não estão garantidos e nem assegurados. Já li muita teoria feminista e pratiquei muito encontro com tantas mulheres de todas as raças, credos e classes sociais, para saber que somos as primeiras e sermos, literalmente, chutadas e que a violência não ocorre apenas no campo físico, mas moral e subjetivo. Disparar a sentença: “precisamos destruir essa mulher” e culpá-la por um resultado eleitoral é perverso.
Tudo tem limite e esse extrapolou demais o meu. É esdrúxulo que alguém profira isso, que outras pessoas concordem, endossem e que tal post siga no ar, incentivando publicamente a violência contra as mulheres.
Já falei aqui sobre controle de corpos. Ana Paula falou sobre isso no programa. Escrevi. E escrevi muitas outras colunas descartando-a. E escreverei quantas forem preciso. E quantas eu quiser. Mas, sinceramente, não dá pra gente achar que uma pessoa que está do nosso lado e que fala com mulheres de diferentes realidades é uma inimiga porque ela desfruta de algum privilégio social e econômico. Tudo bem não gostar, mas passou da hora da gente, enquanto esquerda, entender quem é aliado e, pra mim, aliança é prática e não tuíte vazio.
Minha pergunta para o “Leonardo”, autor do tuíte é: qual foi a contribuição dele para a eleição deste ano?
Porque vejo muitas críticas de pessoas que se dizem entendedores de comunicação, sobretudo, mas que sequer conseguem construir uma frase de 300 caracteres que seja entendível e que não conseguem sequer trocar uma ideia, mas, mais do que isso, cometem crimes de forma indiscriminada em nome de uma ideia de destruição que só os separa dos fascistas autodeclarados pela autodeclaração mesmo.
Minha pergunta é bem prática: O que o cientista político disse ao Leonardo que foi posto em prática - - além de perseguir a Ana Paula diariamente - que surtiu efeito no resultado que tivemos ontem?
Vai que a gente aprende a fazer, não é mesmo? Às vezes a arma deles é o fascismo e tá disfarçada com outro nome. A misoginia é fácil de perceber, mesmo com muito esforço retórico.
Este mesmo perfil, horas antes de repostar o “aviso” que tinha dado, escreveu: "Vou descontar todo meu ódio no canhao q era a arma secreta da esquerda e emperrou na hora de soltar bala kk”
Vejam: o ódio é explícito e proposital. E eu fico a pensar: Ana Paula é relevante, claro. Mas em janeiro havia um cientista da USP preocupado que ela seria o “desastre” da campanha do Lula?
Para quem isso faz sentido exceto para quem tem um plano de odiar as mulheres?
Aqui, também, peço perdão a Ana Paula (insira o meme da Carminha gritando: ME PERDOA, ME PERDOA!), porque no sábado (3), ela publicou uma carta aberta pedindo aos fãs que não comprassem brigas em nome dela, que deixassem os haters falando sozinhos e que não transformassem o carinho por ela em combustível para quem vive de ataques.
A carta na íntegra pode ser lida aqui. Porém, meu limite foi essa mensagem. O ódio explícito. O desejo de aniquilar alguém de forma gratuita - e não me interessam os motivos que levam este perfil fake a não gostar da Ana Paula, eu não gosto do Jair Bolsonaro pelo que ele fez com o país na época da pandemia e você não vai achar uma postagem minha desejando que ela seja destruído, por exemplo.
Na carta aberta, Ana Paula destaca: “Vamos entender nosso lugar no mundo e a responsabilidade que temos nele. Ser melhor precisa aparecer nas atitudes”.
Exaltei, porque sou uma entusiasta da prática. Embora escreva muito, gosto muito de viver aquilo que digo. Não posso, inclusive, dizer o que não pratico. Minha prática é soberana em qualquer palavra e/ou teoria. Se eu disser, estarei vivendo. Gente que faz, além de gente que fala, me interessa demais. E me irrita muito quem cobra tudo e todos, com uma régua moral imensa, sem qualquer alinhamento prático.
Dito isso, a luta não acontece a cada dois ou quatro anos por aqui. Sigo em permanente estado de guerrilha e quem acompanha meu trabalho, esta coluna, o que tenho feito ao longo da vida, tem a plena consciência de que minha exaustão não só excesso de capitalismo (uma boa parte, sabemos), mas também investimento libidinal num futuro que eu acredito ser possível. Um futuro que fale as línguas que o imperialismo não entenda. Um futuro onde a cryptograginga seja o código.
Sigo em punga para um futuro em que possamos sonhar e descansar. Que a gente possa existir. Que a poesia seja, de fato, gente com sonhos. Que os versos do Don L façam ainda mais sentido. Que gente como a Ana Paula, como eu, como minhas amigas, não sejamos atacadas. Que gente como nós pare de ser morta, simbólica ou literalmente. Inclusive, falamos para que quatro de nós deixem de morrer diariamente por causa, exclusivamente, de serem mulheres.
Me interessa muito que mulheres estejam unidas e me entristece, por exemplo, que diante do pleito ontem, a candidata mais votada de São Paulo seja uma jovem que já celebrou a colonização, chamou indígenas de canibais e se descreve como a maior inimiga das feministas.
Minha prática é, sobretudo, para que nossos atos sejam construtivos e que congreguem mulheres. Para que a gente tenha liberdade. Para que sejamos inteiras, a partir de quem somos. Talvez (na verdade, sim) por isso eu goste tanto da Ana Paula. Em larga escala, ela representa o que mulheres livres desejam. Ela consegue ser assim. Se colocar assim, na prática.
Aqui, acho importante também lembrar que Ana Paula Renault passa por um luto terrível. Além de ter perdido o pai recentemente e ter que lidar com uma mudança brusca na própria vida pessoal, ela perdeu quem esteve ali, por ela, a vida toda, como referência política - e não vou entrar no mérito partidário e de projetos que Gerardo Renault teve enquanto parlamentar - e pessoal guiando e direcionando pesquisas, dados, entre outras coisas. Essa tristeza e movimento entram na conta de alguém que está lidando com a própria dor e com a dor de ser atacada o tempo todo.
Por isso, frases como a que li mexem tanto comigo. Ela ameaça não apenas a Ana Paula, mas, toda mulher que, como ela, se coloca da forma como ela se coloca: de forma livre. De forma honesta. De forma a se importar nada com o julgamento alheio. De forma a não responder o ódio que lhe é dirigido.
Porém, assim como perguntei quando escrevi sobre a Thaís Carla e o ódio a ela dirigido. Volto a perguntar: se a Ana Paula Renault não existisse, quem estas pessoas odiariam?
Meu incômodo é porque, talvez, seja comigo. Seja com minhas amigas. Seja com as pessoas próximas a mim. Seja porque eu não abaixaria a cabeça para um fake que se vale de uma foto de mulher para dizer ser iconoclasta e progressista, mas, dedica-se horas diárias a perseguir mulheres na internet.
Subjetivamente, sei que o ódio velado e também explícito tem como objetivo nos violentar e que essa violência que não podemos provar, mas sentir, é absolutamente nociva. Por mais que nossa vida seja na prática e a gente ignore boa parte do tempo que pessoas assim sejam odiadoras, a gente precisa habitar o mesmo mundo e, nessa tentativa, vez ou outra, esbarramos nesse desejo de que não existamos e ele nos atravessa. Ontem doeu mais.
Hoje virou raiva e quando vira raiva, eu escrevo. Escrevo muito sobre. Uso minha caneta para envergonhar quem tentou me constranger de algo modo. E olha que nem foi comigo, mas, como eu, que na prática, prezo pela liberdade das mulheres, posso me calar diante do absurdo?!
Eu sei que Ana Paula possui equipes qualificadas e que zelam por ela e pela própria imagem. Isso não é uma defesa, por óbvio, mas um olhar: se desejam destruí-la, o que vem depois?
E a nossa resposta não é simples: o ataque vem de quem, supostamente, estaria do mesmo lado. É alguém que se apresenta como esquerdista, progressista, etc. Se alguém que luta com a gente, nos ataca de forma tão vil e cruel, o que podemos esperar?
A resposta está nas urnas. Temos um segundo turno para pensar, muita gente absente para convencer a ir votar e uma voz toda para amplificar?
A desesperança é uma arma do fascismo para nos fazer parar de tentar. O aniquilamento simbólico, idem. De onde venho, sei que o mundo já acabou para diversos povos e o planeta se recupera, de um jeito ou de outro. Na nossa história enquanto América Latina e Brasil, a gente sempre dá um jeito de continuar existindo e, penso que não deveria ser tão difícil.
Faço esse texto, sobretudo, para honrar a luta de quem veio antes. Para ouvir vozes como a da Ana Paula, para que a gente possa continuar lutando e construindo um jeito melhor de existir.
Sabemos que o voto é um dos maiores poderes de uma democracia conquistada à base de muita luta. Usemos o nosso poder. Mas usemos também o poder da união, de ficarmos juntos, de celebrar o que Emicida canta “tudo que nóis tem é nóis”. Usemos nossas sabedorias ancestrais para enfrentar as técnicas colonialistas e fascistas que tentam se impor sobre nossos sonhos.
Que os homens - e a sociedade - continuem tendo medo das mulheres que voam, que leem, que escrevem e que ousam organizar o ódio e o pensamento em informação para as massas. Sejamos livres e voemos juntas.
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