Há dias em que o mundo parece grande demais para caber na cabeça. Acordo, abro o celular e antes mesmo de escovar os dentes já estou atravessando uma sequência de alertas: bombardeios em Gaza, em Dubai tensões militares que crescem no Oriente Médio, vídeos curtos, opiniões instantâneas, notificações que insistem em lembrar que há sempre algo mais urgente do que aquilo que estou fazendo.

A banda Eva que nos prometeu um fim mais caloroso e gostoso e, na verdade, o fim da aventura humana na terra é sobreviver ao dia a dia no mar de informações picotadas, mal recortadas, a autoverdade e as deepfake ditando o que vamos acreditar. O Big Brother Brasil é quase um refúgio, confesso. O dia mal começou e eu já estou cansada.

Essa sensação difusa de esgotamento não é individual. Ela é estrutural.

É também o ponto de partida de “Attensity! – A Manifesto of the Attention Liberation Movement”, livro organizado por Peter Schmidt e pelo coletivo Friends of Attention, que chega aos Estados Unidos propondo algo que soa quase revolucionário em 2026: recuperar a capacidade humana de prestar atenção. O livro parte de uma metáfora poderosa.

Assim como empresas de energia perfuram o solo para extrair petróleo, as grandes plataformas digitais perfuram a nossa mente para extrair aquilo que hoje vale mais do que petróleo: a nossa atenção. Mexeu comigo. Chamam isso de “fracking humano”. E eu, fragmentada, tento juntar as pecinhas por aqui e formar o grande quebra-cabeça de existir e disputar sua atenção com esse texto. 

A comparação pode parecer exagerada à primeira vista, mas basta olhar para a vida cotidiana para perceber que há algo de profundamente predatório no modo como as plataformas funcionam. Feed infinito, vídeos que começam sozinhos, notificações que piscam como pequenas sirenes privadas. Tudo foi desenhado para capturar tempo, emoção, curiosidade e até indignação.

A economia da atenção não quer que você pense. Ela quer que você permaneça.

No Brasil, onde passamos mais de nove horas por dia conectados, essa captura é ainda mais visível. Não é apenas uma questão de hábitos digitais. É uma questão política, cultural e até afetiva. Quando metade da população evita notícias porque não suporta mais o bombardeio de tragédias, e ao mesmo tempo as redes continuam a empurrar conteúdo incessantemente, estamos diante de um paradoxo cruel: somos informados demais e compreendemos cada vez menos.

Talvez por isso as guerras contemporâneas pareçam tão próximas e tão distantes ao mesmo tempo.

Nos últimos meses, enquanto conflitos militares escalam e o mundo assiste a cidades destruídas e populações deslocadas, as imagens chegam até nós na mesma velocidade com que chegam vídeos de dança, memes e anúncios de produtos milagrosos. O horror divide espaço com o entretenimento, e a timeline transforma tudo em um mesmo fluxo contínuo.

Não há silêncio entre uma coisa e outra. A guerra vira mais um item na fila.

Essa é uma das intuições mais inquietantes do manifesto de Schmidt: o problema não é apenas que estamos distraídos. É que nossa capacidade de atenção foi transformada em commodity, algo que pode ser medido em cliques, segundos e engajamento. O livro argumenta que essa definição estreita de atenção, quase sempre reduzida a tempo de foco diante de uma tela, nasceu de pesquisas financiadas por militares e pela indústria, interessadas em medir desempenho humano em ambientes de máquina. 

O resultado é que passamos a acreditar que atenção é apenas isso: manter os olhos grudados em alguma coisa. Mas atenção é muito mais. É a conversa demorada com uma amiga, ler um livro inteiro sem olhar o celular, cozinhar para alguém, olhar pela janela e deixar o pensamento vagar. Ou, talvez o mais difícil de tudo hoje: conseguir sustentar uma reflexão longa sobre o mundo.

Essa é a dimensão política da discussão. Se a atenção é capturada por sistemas algorítmicos que amplificam aquilo que nos prende por mais tempo, medo, indignação, choque, o debate público se torna refém dessas emoções. Não é coincidência que a desinformação prospere nesse ambiente. Ela foi literalmente otimizada para isso.

Mas há algo ainda mais íntimo acontecendo. Nos últimos tempos tenho percebido uma fadiga que não é apenas profissional ou mental. É uma fadiga de existir no meio desse fluxo interminável de estímulos. Como jornalista e escritora, trabalho justamente com aquilo que exige atenção prolongada: leitura, reflexão, escuta. E cada vez mais essas atividades parecem atos de resistência.

Escrever virou uma forma de respirar.

Talvez seja por isso que o livro insiste tanto na criação do que chama de “santuários da atenção”, espaços protegidos onde a lógica da captura digital não governa completamente nossas relações. Esses santuários podem ser muitas coisas: uma biblioteca, uma sala de aula, um jantar sem celular, um grupo de leitura, uma praça onde as pessoas ainda conversam olhando umas para as outras.

Ou, quem sabe, um texto de jornal que alguém lê até o fim. A ideia é simples e radical ao mesmo tempo: se a atenção é o recurso que sustenta nossas relações, nossas decisões políticas e até nossa capacidade de imaginar o futuro, então protegê-la é um ato coletivo.

Não basta desligar o celular. É preciso reconstruir as condições sociais para que a atenção exista.

Em tempos de guerras transmitidas ao vivo, algoritmos que moldam o debate público e uma avalanche de conteúdo que nunca termina, recuperar a atenção talvez seja uma das tarefas políticas mais urgentes da nossa geração.

Não apenas para pensar melhor. Mas para continuar humanos no meio do ruído.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

 

compartilhe