Adam Smith é famoso por uma frase que todo mundo já ouviu pelo menos uma vez: o açougueiro não te serve por bondade, mas pelo seu próprio interesse. É o mercado funcionando pela lógica do interesse próprio — cada um puxando para o seu lado, e o resultado coletivo surgindo quase por acidente, como uma ordem que ninguém planejou, mas que funciona.
Certo. Mas Smith escreveu outro livro, 17 anos antes do mais famoso, que a maioria dos economistas simplesmente ignorou. Enquanto a "Riqueza das nações" circulava em toda biblioteca de economia do mundo, a "Teoria dos sentimentos morais" ficava esquecida na prateleira.
Deirdre McCloskey, economista, PhD em Harvard, professora na Universidade de Chicago, figura de trânsito improvável entre a economia rigorosa e a filosofia moral, chamou atenção para o equívoco, em uma trilogia de livros publicados entre 2006 e 2016. Em sua visão, a profissão ficou com a metade conveniente de Smith, a que cabia dentro de um modelo matemático, e descartou a outra metade — a que explicava por que o mercado funciona de verdade.
Isso porque Smith nunca disse que o interesse próprio era suficiente. Ele disse que mercados funcionam quando a sociedade que os sustenta desenvolve virtudes. Prudência, justiça, temperança, coragem. O interesse próprio é o motor. A virtude é o que decide para onde esse motor canaliza a energia, e como.
Sem a "Teoria dos sentimentos morais" como fundação, a "Riqueza das nações" é só metade do argumento. E uma cidade construída com metade de um argumento espelha isso na paisagem.
Pense nas nossas metrópoles: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza — cada uma delas é o resultado de décadas de decisões tomadas pelo incorporador que comprou o terreno; pelo arquiteto que assinou o projeto; pelos investidores e financiadores que aportaram o capital; pelo vereador que votou o zoneamento; e pelo prefeito que sancionou o plano diretor e cada lei. Cada um respondendo à sua esfera de responsabilidade.
O problema não está no interesse próprio. O problema é quando ele opera inteiramente desconectado de virtude — sem nenhuma consideração pelo que fica depois que o contrato é assinado; o apartamento, vendido; o mandato, encerrado. O incorporador já foi, mas os moradores ficaram. O prefeito foi embora, porém suas obras ficaram. A cidade ficou, e a conta do que foi feito errado vai sendo cobrada, silenciosamente, de todos.
O resultado está nas ruas. Nas fachadas que negam o pedestre. Nos térreos fechados por muros e guaritas. Nos prédios sem qualquer expressão, sem harmonia, muito feios. Nos viadutos e nas trincheiras que apodrecem quarteirões e bairros inteiros, deixando como legado a negação da cidade, a destruição do senso de comunidade, um cenário feio, um caminho pobre, inóspito e desinteressante.
Há uma ironia aqui, e ela dói. O arquiteto que assina qualquer coisa que o cliente pede, o incorporador que pede soluções fáceis e aceita prédios feios e desinteressantes, o gestor que zoneia de forma míope, segregadora e limitante — todos operam dentro de uma legalidade impecável. Não há crime, e, no entanto, há mesquinhez, preguiça, pressa. A visão de quem vê no espaço urbano apenas uma oportunidade de extração, e não um bem que será partilhado com muita gente, por muito tempo.
McCloskey argumenta que o capitalismo prosperou quando as sociedades passaram a tratar comerciantes e inovadores com respeito, em vez de desprezo. Quando a cultura reconheceu dignidade em quem produz. Ela chama isso de “dignidade burguesa” — e sustenta que essa mudança cultural fez mais pelo crescimento econômico do que o carvão, o capital ou qualquer política pública.
Mas essa dignidade tem uma contrapartida. Quem produz em um espaço compartilhado assume uma obrigação que vai além do contrato. Assume a obrigação ou ao menos a responsabilidade, de deixar o lugar um pouco melhor do que encontrou.
Arquitetos e incorporadores não vendem apartamentos. Vendem pedaços permanentes de uma cidade. O prédio que entregam hoje vai estar lá em cem anos (ou mais, com a onda de retrofits que vem ganhando corpo). A rua que ele cria — ou destrói — vai ser percorrida por pessoas que ainda nem nasceram. O cenário vai impactar a vida de gerações, e isso muda a natureza da responsabilidade.
Não é filantropia. É interesse próprio em perspectiva longa — a que considera o legado, a reputação, o nome que fica gravado no que foi construído. É o interesse próprio de quem entende que a cidade é a obra, não o balanço.
E as políticas públicas, os planos diretores? Têm o mesmo problema, pela outra ponta. Um plano diretor que enxerga a cidade por meio de grandes manchas, restrição de usos, subaproveitamento dos lotes e soluções genéricas para casos muito diferentes (uma aberração, com o volume de dados disponíveis, e a capacidade atual de ver em detalhes cada quadra), uma visão de cidade que ignora o pedestre, obras viárias como pretenso indutor de desenvolvimento urbano — isso também é interesse próprio sem virtude. Também constrói cidade, mas constrói mal.
A cidade é o espelho fiel das intenções de quem a produz. Não apenas do investimento público e privado acumulado ao longo do tempo, mas da qualidade moral empenhada — ou desperdiçada — por cada agente, perante sua comunidade.
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O açougueiro de Smith não precisa ser bondoso para te alimentar. Mas o arquiteto e demais agentes que produzem a cidade não podem se dar ao luxo de ser apenas eficientes. Porque o açougueiro vende carne. O arquiteto, o incorporador e o gestor público produzem a cidade. E a cidade, ao contrário da carne, não tem prazo de validade.
