Quem entra em uma farmácia conhece o protocolo. Diante da receita, a pergunta é automática: “o senhor vai querer o original ou o genérico?”.
Lei da economia. O genérico traz o mesmo princípio ativo, a mesma eficácia, mas dispensa os custos de pesquisa, a embalagem bonita e o marketing. Custa metade do preço e resolve a dor de cabeça.
O problema é quando o mercado imobiliário resolveu aplicar a mesma lógica à produção das nossas cidades.
Se houvesse uma vigilância sanitária urbana, boa parte dos lançamentos que brotam semanalmente nos bairros de Belo Horizonte — do Buritis ao Vila da Serra, do Funcionários ao Santo Antônio, Savassi e Lourdes — deveria vir com uma advertência obrigatória na fachada. Uma imensa tarja amarela de ponta a ponta, com a letra G maiúscula adesivada na fachada principal.
Na tarja amarela e na letra G gigante, um alerta de utilidade pública: Cuidado, arquitetura genérica.
Diferente do medicamento da farmácia, que mantém a substância que cura, o "Genérico Urbano" é uma cópia que joga fora justamente o que importa. É o edifício derivado de outro, que por sua vez já era o rascunho de um terceiro. Uma fórmula requentada. Uma receita aplicada sem investimento em pesquisa, sem dedicação ao entorno, sem qualquer pudor bioclimático. É o urbanismo do “Ctrl+C / Ctrl+V”.
A "Arquitetura G" é fácil de reconhecer nas nossas caminhadas. Ela se manifesta naqueles edifícios desenhados como se fossem uma batedeira aerodinâmica branca, alternando curvas em ACM e painéis de vidro concebidos por estúdios de design de automóveis; ou no caixote espelhado que ignora o sol tropical e frita o pedestre na calçada; ou na profusão de iluminação em LED nas fachadas, ou no prédio revestido em porcelanato que imita madeira e que, com meia dúzia de samambaias na varanda, se apresenta como projeto biofílico e sustentável (até mesmo quando as plantas são plásticas, de mentira). O genérico gourmet, tecnológico e reluzente.
A ironia aqui é econômica, e cruel. Na drogaria, o genérico é mais barato porque economiza na pesquisa. Na cidade, o mercado imobiliário economiza no pensamento, elimina o diálogo com a rua, empurra os prédios para trás de recuos obrigatórios e grades, mas cobra preço de remédio de referência, de "alto luxo". Pagamos uma fortuna pelo direito de morar em um clone tecnológico.
A culpa é das construtoras e incorporadoras, por óbvio: pressa, preguiça, falta de visão e economia nos itens errados, com prioridades invertidas. Mas é, também, dos consumidores que, inseguros, optam pelo que parece familiar - cópia da cópia, a “cara” de batedeira aerodinâmica - em detrimento do que é original, bom e relevante. A síndrome da “Arquitetura G” também ganha uma “senhora” ajuda dos nossos formuladores de políticas públicas que, submersos em teorias, continuam assinando legislações urbanísticas obsoletas que limitam o adensamento e obrigam a cidade a se espalhar.
O resultado? Destruímos a vitalidade das ruas e afastamos as pessoas.
O design urbano e a arquitetura não são caprichos cosméticos de prancheta. São, literalmente, a fórmula química que dita o humor coletivo, a segurança da calçada e o vínculo com o lugar.
A cidade com prédios genéricos se torna uma cidade placebo, sem princípio ativo. Ela tem cara de cidade, tem preço de cidade, tem a cenografia da portaria e do recuo regulamentar, mas não entrega o efeito real de urbanidade: o pertencimento, o adensamento que energiza e o encontro. Uma floresta de árvores sem raízes, sem vida, e sem graça, inerte.
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O genérico cura a dor de cabeça do lucro rápido de curto prazo. Mas para a ressaca urbana que fica para as próximas gerações, não há paracetamol que resolva.
