Leandro é mestre e doutor, professor na graduação e na pós-graduação na USP, no Insper e em um monte de outros lugares. É coautor de dois livros sobre estratégias e mercados para o desenvolvimento sustentável e de um mundo de artigos. Mais do que isso, um grande amigo.
Em uma de nossas conversas pelo Whatsapp, falando sobre o Sesc Pompeia, projeto icônico e atemporal de Lina Bo Bardi em São Paulo, Leandro disse que “a primeira vez que estive lá ele ainda era uma novidade - nem sempre muito compreendida. Eu nem sonhava em me mudar para São Paulo ainda. Mas eu me lembro bem do impacto que aquela visita me trouxe. Parecia algo europeu, uma espécie de Pompidou (Centro George Pompidou, importante museu em Paris, com uma inédita tipologia lembrando uma fábrica) local - que, por sinal, também emocionou tremendamente, quando o conheci poucos anos depois do Sesc Pompeia”.
E segue: “Vocês lidam com algo muito poderoso. Eu ressalto aqui sempre que os efeitos das intervenções urbanísticas me parecem muito transcendentes, porque as muitas toneladas de ferro e concreto durarão por dezenas ou centenas de anos, produzindo efeitos continuados bons ou ruins que afetarão gerações. Há raras áreas da atividade humana que permitem isso (...) Como no Sesc Pompeia, gerações não apenas verão as obras, como se estivessem apreciando uma escultura; elas terão a oportunidade de entrar, usufruir daquilo por dentro, viver a (e na) obra de arte. Não é só um edifício; é um legado de beleza e esperança”.
E arremata, resumindo a importância da Arquitetura não apenas no plano espiritual, mas na qualidade e habitabilidade das cidades, e no impacto (positivo ou negativo) dessa qualidade (das cidades) na saúde de sua população: “Afinal, "a beleza salvará o mundo", como Dostoievski nos ensinou, na fala do príncipe Mykin em O Idiota”.
A afirmação não vem solta, como uma afirmação definitiva e simplória. Em Dostoiévski, é necessário perceber que a “beleza” não é somente estética, e nem um mero invólucro encantador, mas algo mais profundo: uma beleza ligada à verdade, compaixão, pureza moral, retidão. De certa forma, trata de redenção.
Sim, apenas a beleza nos salvará, não pelo atributo em si, mas por tudo o que a decisão de conceber o belo (pelo Arquiteto) e de construir o belo (pela iniciativa privada, pelo poder público, pelos gestores públicos, por uma administração pública qualquer, em qualquer lugar e em qualquer nível) carregam junto: a vontade de maravilhar, o desejo de criar um marco urbano e de melhorar a cidade, o compromisso com a população, o desprendimento de conceber e construir edifícios que melhorem - efetivamente - a vida das pessoas.
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A beleza não acontece por acaso (senão na natureza) e não surge da ausência de vontade, de desejo e capacidade. Tampouco num vácuo de vontade e compromisso.
