Meu amigo Rodolfo Gropen não sabe, mas, além de advogado, é também um poeta. Pegou um verso da Marselhesa atleticana, suprimiu uma única letra, e produziu a mais condensada verdade sobre a nossa seita e seus adeptos: “Nós somos o Clube Atlético Mineiro”. Note, apressado leitor, a sutileza da reconstrução na retirada do tijolo: não somos DO Clube Atlético Mineiro, conforme errou Vicente Motta. Nós somos O Clube Atlético Mineiro, como tratou de corrigir o atento editor.
Há clubes que fabricaram suas torcidas pela imposição midiática ao resto do país. É o caso do Flamengo, exportado desde o balneário até as veredas do grande sertão, desde a Rádio Nacional até a Rede Globo. Outras se criaram a partir de sentimentos difusos, que ora envolveram a xenofobia, ora a aporofobia (o ódio aos pobres) e o racismo. Em comum, times que existiram antes que houvesse sua gente.
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O Galo nasceu do inverso. Em 1908, Belo Horizonte tinha apenas 11 anos. Era um ajuntamento de gente vinda principalmente do interior do estado, que por si só já é um conjunto bastante desigual, com paisagens, economias e sotaques diversos. Desembarcados na nova capital, precisavam de alguma coisa que costurasse seus retalhos sociais, que produzisse identidade própria e uma coletividade capaz de sonhar junta um futuro melhor. Precisavam da seita.
Não sei se estavam a pensar nisso aqueles Jim Jones que se reuniram no coreto do Parque Municipal, em 25 de março de 1908, quando fundaram o Atlético. O fato é que foram certeiros: juntaram pretos e brancos, pobres e ricos, e deram à cidade um motivo para caminhar juntos na dureza das pedras e das montanhas, da poeira de um lugar que, a partir daquele dia, podia finalmente começar a existir.
No ajuntamento desse pessoal em torno do “time da cidade”, tinha toda a utopia de um país que havia “libertado” seus escravos fazia apenas 20 anos: o preto seria igual o branco, o pobre sentaria do lado do rico, a mulher, na figura de dona Alice Neves, seria protagonista. As nossas cores, o preto e o branco. E a nossa torcida, todo mundo.
118 anos depois, eu vi a cidade parar para celebrar o Galo. Não havia jogo. Não havia uma taça para se buscar. Ao contrário. Há um Galo, hoje, vendido à iniciativa privada, até outro dia a privar os pobres de conhecer sua nova casa. A promover o branqueamento da sua torcida pela exclusão social que afeta principalmente os negros e favorece o branquinho do shopping, como falam os Racionais.
No dia 25 de março, no entanto, eu vi a cidade, todas as raças, todos os credos, velhos e meninos, mulheres e meninas, a celebrar o Galão. Aquela gente toda em frente à sede de Lourdes, a procissão pelos botecos do Galo, as fotos de família com aqueles que se foram. O meu menino, o Francisco, ainda criança, orgulhoso ao posar para a fotografia com o pessoal da Galoucura no antigo Morumbi.
Acordei em São Paulo e botei uma bandeira na varanda. O porteiro me perguntou se tinha jogo. “Não, a gente não precisa de jogo. Hoje é aniversário do Atlético e estamos celebrando a sorte de ser Galo.” Passei o resto do dia chorando como um idiota ao ver a comoção dos meus irmãos da seita.
Beth Carvalho, chorei, Ronaldinho, chorei. Patric, Mexerica e demais pernas-de-pau, chorei, meu filhote paulistano nos Stories, chorei, Vilibaldo Alves, Willy Gonzer, Pequetito, chorei, chorei, chorei. Frases piegas, chorei, músicas emotivas, chorei, poetas do twitter, chorei, posts do estagiário do Galo, chorei. Gol do Dinho, chorei, pênalti do Tijuana, chorei, Leonardo Silva aos 42 do segundo tempo, chorei, Galvão Bueno com medo do Mineirão cair, chorei. O Galo é uma máquina de fazer homem chorar. E mulher também.
Não tinha jogo, não era velório, passaram nos cobres o meu Galão. Por que então esse estado de coisas nesse coraçãozinho carcomido por tantas dores de amor? O Gropen é que matou a charada – nós somos o Clube Atlético Mineiro e estamos de parabéns. Viva os maluco! Gaaaaaaaalooo!!!
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