O desfazer é tão importante quanto o fazer. Explico: na cultura da ação constante, passaporte sem volta para o sanatório da sociedade do desempenho, passamos a acreditar que aquilo que nos torna quem somos é o que fazemos e construímos por meio de nossas ações. Meia verdade. Também somos feitos daquilo que escolhemos não ser, do tempo que dedicamos a nos desfazer daquilo em que não queremos nos transformar.
Talvez seja por isso que Paulo Freire, patrono da educação brasileira, afirmava quando dizia que a “educação quando não é libertadora cria no oprimido o sonho de ser opressor”. Ao entrar em uma sala de aula, como na vida, um bom professor não é aquele que pensa somente no que “deve ser feito”, mas, principalmente, no que deve ser “desfeito”.
Dentre muitas coisas que aprendemos com Foucault, uma merece destaque: o convívio humano nunca será neutro ou simétrico, pois ele se constitui como relação de poder. Uma via de mão dupla que produz em todos os envolvidos prazeres, controles e resultados. Tudo isso ao mesmo tempo. Afinal, há um enorme prazer no moralista que vive de controlar o prazer alheio. É uma troca, um deslocamento, uma relação.
O professor faz o conhecimento acontecer, e isso é verdade. O bom professor faz a aula ter sentido, e isso é experiência concreta. Mas o professor comprometido é aquele que desfaz as amarras que prendiam outro ser humano às redes dos pequenos poderes.
Isso exige uma outra operação docente: reconhecer que nem todo poder exercido em nome da educação é emancipador, assim como nem toda intenção de ensinar está livre do desejo de conduzir o outro.
Não basta ao professor transmitir conhecimentos sobre a liberdade; é preciso examinar as práticas pelas quais ele distribui a palavra e legitima determinados saberes. Às vezes, a violência mais duradoura de uma educação não está no que ela impede o aluno de fazer, mas no modo como o ensina a desejar a própria submissão.
Desfazer-se, portanto, não significa abdicar da autoridade, fingir que as diferenças entre professor e aluno não existem ou transformar a sala de aula em um espaço sem conflitos. Significa submeter a própria autoridade à crítica, reconhecer seus limites e recusar a tentação de confundir a formação do outro com sua adequação às nossas expectativas.
O professor deve-se fazer um mestre na avaliação das aprendizagens, mas desfazer-se da pretensão de avaliar a vida de alguém. Aprender, em sentido mais radical, é adquirir condições para pensar inclusive contra aquele de quem se aprendeu.
A tarefa de um bom professor, e o êxito de sua ação, podem ser medidas pelo fato de sua presença se tornar dispensável ao longo da vida de seus alunos. Difícil admitir. Por isso, o professor, diariamente, é convidado a se desfazer de um certo narcisismo.
O mestre que necessita ser indispensável transforma, mesmo sem perceber, a aprendizagem em dependência.
A prática docente mais profunda começa quando o professor deixa de perguntar apenas o que precisa produzir no aluno e passa a investigar o que, em suas próprias aulas, impede o aluno de se produzir de outra maneira.
Educar é aceitar perdas: o privilégio de definir sozinho o sentido do que acontece, a segurança de ser sempre reconhecido como referência e o conforto de encontrar no aluno a confirmação da própria competência.
O desfazer da vida não é, portanto, o contrário da construção. É a crítica das construções que se tornaram prisões, inclusive daquelas que erguemos com as melhores intenções, supostamente neutras e libertadoras.
É fato que ensinar exige uma disposição rara: trabalhar para que a própria autoridade deixe de ser necessária sem que o conhecimento compartilhado perca sua importância. E o professor é fundamental para essa passagem.
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Na sala de aula, como na vida, talvez a medida ética de uma presença não esteja apenas no que ela acrescenta à existência de alguém, mas também naquilo que deixa de exigir dessa existência. E isso pode ser libertador!
