Outro dia, conversando com três conhecidos, entre os assuntos, surgiu a aparência física do jogador de futebol Vinícius Júnior. Fiquei ali, mais ouvindo do que falando, atentamente. A percepção deles era bastante previsível: a do senso comum racista que decreta que o homem negro é automaticamente feio e que a mulher loira ao seu lado é, compulsoriamente, linda.
Conversa vai, conversa vem, expressei minha opinião. Então, na minha percepção, Vinícius Júnior não é feio. A réplica deles foi deselegante, para não dizer machista. Insinuaram que eu só o achava bonito porque ele é rico. Como se minha leitura estivesse contaminada por interesse financeiro, como se eu fosse, no fundo, uma mercenária.
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E foi aí que a conversa, de fato, ficou interessante. Talvez eles não tenham se dado conta de quetenho idade suficiente para ser mãe de alguém da idade do Vinícius Júnior. Mesmo não sendo mãe, consigo olhar para ele com uma percepção atravessada por afeto e cuidado, algo que não passa pela hipersexualização, muito menos pela objetificação. É um tipo de carinho semelhante ao que sinto pelos meus alunos na universidade. Mas, à medida que eu ouvia os argumentos deles, fui entendendo outra coisa: para eles, Vinícius Júnior não é digno de ser amado, desejado ou bem-quisto. O dinheiro dele, sim.
Não, eu não me esqueci que vivemos em uma sociedade capitalista, em que o dinheiro dita inúmeras regras. Mas também não posso deixar de pontuar que estamos inseridos em uma sociedade profundamente racista, na qual o belo e o bom são associados ao branco, enquanto o feio e o ruim são alocados de forma inerente aos corpos negros . Não é assim que funciona?
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Admito que fiquei com preguiça de argumentar, até porque é algo tão óbvio pra mim e fica realmente difícil entender como não é para eles. Então perguntei: Será que se o Vinícius Junior fosse branco a beleza, ou não dele, seria uma questão? Provavelmente não. São inúmeros os jogadores brancos desprovidos de beleza e não vejo ninguém falar da aparência deles. Já adianto que eles ficaram pensativos, mas não me responderam.
Vinícius Júnior é um homem preto, com traços fenotípicos da negritude muito bem marcados. Ele não tem nariz fino, nem lábios finos, nada que remeta a traços de ascendência europeia. E isso importa. Importa porque, historicamente, a beleza só é reconhecida em corpos negros quando ela se aproxima de características associadas à branquitude.
Você já reparou como, muitas vezes, a beleza exaltada em corpos negros está ligada a traços considerados “brancos”? Nariz fino, lábios finos, cabelos lisos, ditos 'bons' ou apenas levemente cacheados. Ou seja, aquilo que, de certa forma, nos torna “negros de menos”.
O que mais existe nas quebradas, nos subúrbios, nas periferias do Brasil, são pretinhos como Vinícius Júnior, considerados lindos por suas famílias, pelos amigos, pelas namoradinhas. Esses não incomodam. Não incomodam porque ainda não alçaram voos altos demais. Porque não se tornaram craques do Real Madrid. Porque não romperam o lugar social que lhes foi destinado nessa necropolítica.
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O incômodo não é o corpo preto em si. O incômodo é o corpo preto que vence, que brilha, que prospera e que insiste em existir sem pedir licença.
