Nicholas Winton, inglês que trabalhava como corretor na bolsa de valores de Londres, liderou, com o apoio de um grupo, a transferência de 669 crianças, na sua maioria judias, da cidade de Praga, na antiga Tchecoslováquia, para Londres, salvando-as do que viria a ser o Holocausto da Segunda Guerra Mundial.

 

Winton viveu o amor doação e sofreu por não ter conseguido salvar mais vidas. Viveu o amor que toda a humanidade deveria buscar. Winston dizia-se agnóstico.

 

O filme “Uma vida – a história de Nicholas Winton” estreou recentemente nos cinemas. Seu roteiro foi baseado no livro biográfico de Winton, escrito por sua filha e publicado há 10 anos. A obra tem Anthony Hopkins como protagonista em mais um trabalho impecável. Como todo filme que trata dos horrores do Holocausto, há um tom de expectativa, ao longo da história, mas o que mais me impactou foi a figura daquele homem: discreto, silencioso, empático e obstinado.


Winton certamente tinha consciência dos privilégios que a vida lhe proporcionou e os transformou em partilha. Seus atos revestidos de coragem e determinação, para salvar o máximo de crianças expostas à iminência da Segunda Guerra mundial, são, dentre outros exemplos que a história tem revelado, dos maiores gestos do chamado amor doação.


De forma simplista, o amor doação é a essência do que podemos extrair de melhor de nós mesmos. Não é o amor incondicional, muito vivido nas relações mãe-pai-filhos(as); não é o amor condicional, tão vivido nas relações de interesse mútuo que unem pessoas, mas que, a qualquer incômodo, é interrompido com a política do cancelamento. Não é o amor passional, que “mata por amor”. É o que nos preenche pelo simples ato de nos sentirmos conectados a um propósito maior.


Na última quinta-feira (27/03), a especialista em direitos humanos Francesca Albanese, após cinco meses de um trabalho de monitoramento e análise da situação em Gaza, realizado juntamente com colaboradores externos, produziu um relatório intitulado “Anatomia de um genocídio”, o qual foi apresentado ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, nessa data.

 

O relatório é devastador. Albanese define genocídio como “um conjunto específico de atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo étnico, racial ou religioso”. Baseia-se na Convenção de 1948 de Prevenção e Punição ao Crime de Genocídio. Seu relatório foi produzido com dados, relatórios investigativos e análises de organismos, indivíduos afetados, autoridades e especialistas sediados em Gaza, uma vez que o governo de Israel proibiu sua entrada no território.


O genocídio que Winton temia, ainda nos bastidores da eclosão da Segunda Guerra, produziu, somente em Praga, local de onde ele conseguiu salvar 669 crianças, a morte de aproximadamente 15 mil crianças durante aquela guerra. Atualmente, em Gaza, as estatísticas indicam que mais de 30 mil pessoas já foram mortas, em cinco meses, das quais cerca de 13 mil são crianças, segundo “Anatomia de um genocídio”.

 

“Anatomia de um genocídio” aponta três crimes que têm sido provocados por Israel e que se incluem no conceito de atos genocidas, de acordo com a Convenção de 1948, das Nações Unidas. São eles: (1) matar membros do grupo; (2) causar danos físicos ou mentais graves aos membros do grupo; e (3) infligir, deliberadamente ao grupo, condições de vida calculadas para provocar sua destruição física, no todo ou em parte.


Há pouco mais de dois anos, o mundo assiste à guerra na Ucrânia, com a invasão russa àquele país em fevereiro de 2022. Assim como Putin, com argumentações persuasivas para obter o apoio da sociedade russa e do mundo, o governo de Netanyahu utiliza-se de argumentações manipuladoras extraídas do conteúdo normativo das leis humanitárias internacionais para defender seus ataques. Não há defesa para a guerra.

 




Ao revivermos a Paixão de Cristo, temos a oportunidade de aumentarmos nossa consciência sobre a manipulação dos povos como estratégia de cometimento de crimes contra a humanidade. A figura de Pilatos, nos tempos de Cristo, nos traz, para os tempos de hoje, como os Putins, os Netanyahus e outros líderes disfarçam suas ambições proferindo discursos de benfeitores.


Ainda na Páscoa, temos a oportunidade de refletir sobre o papel das mulheres e das mães. Colocarmo-nos no lugar de Maria, refletirmos sobre seu sofrimento ao ver seu filho sendo humilhado e injustamente julgado, para, por fim, ser morto na cruz. Segundo o Papa Francisco, Maria é o ícone do sábado de Aleluia. Aquela figura que sofreu e aguardou a ressureição de seu filho em silêncio

.
Não há termômetro para o sofrimento humano. Nicholas Winton foi perseguido interiormente por não ter conseguido salvar mais vidas. Sofreu em silêncio, ao ponto de só vir a público, quase cinquenta anos depois, sua história de amor doação. Maria sofreu em um silêncio interior dilacerante. Não há como alcançarmos a dor alheia, mas há como nos compadecermos dela.


Lamentavelmente, hoje, na Terra Santa, onde Jesus experimentou sua paixão e ressureição, somos informados, em tempo real, das privações de acesso a alimentos, tratamentos médicos e destruição de casas e aos deslocamentos de milhares de palestinos, em Gaza. Simbolicamente, na região da Terra Santa, revivemos a injustiça e a desumanidade e clamamos pelo fim do massacre. Sofremos interior e silenciosamente.

 

Não vivemos a dor de Cristo, mas somos capazes de nos compadecermos dela; não vivemos o sofrimento de Maria, mas também somos capazes, sobretudo as mães, de colocarmos nosso coração no seu sofrimento. Escrevo essa coluna no sábado de Aleluia, o dia em que se encerra o Tríduo Pascal. Neste domingo, o amor renasce e celebramos a vida, brindamos a ressureição do Senhor.

 

Somos genuinamente constituídos para experiências de amor puro e profundo, um amor que nos permite doarmo-nos em entrega absoluta. Portanto, somos capazes de adquirirmos consciência plena e não aceitarmos os Pilatos no poder; somos capazes de clamar pelo fim das guerras e pela união dos povos. Que assim o façamos! E assim viveremos, com mais plenitude, a Páscoa do Senhor.

compartilhe