Por Isabel Gonçalves
A Copa do Mundo sempre foi sinônimo de coisa boa, reunião entre amigos, bolão e muita torcida. Nos últimos anos, porém, um novo personagem passou a fazer parte desse universo, as casas de apostas online. O que antes era uma aposta valendo uma pizza, deu lugar a plataformas que prometem ganhos rápidos, oferecem bônus de entrada e incentivam palpites a cada lance da partida.
Para muita gente, tudo começa como entretenimento. Mas o que estamos vendo é que essa diversão sai cara até demais. Brasileiros já acumulam dívidas, recorrem a empréstimos para continuar apostando e enfrentam problemas de ansiedade e compulsão após perder o controle. E então, surge o governo com um novo recurso que permite bloquear casas de apostas. Mas será que é suficiente?
Por que a Copa do Mundo faz crescer o número de apostas?
Porque a Copa desperta emoções que vão muito além do futebol. O torneio faz até quem não costuma acompanhar o esporte assistir às partidas. Esse envolvimento emocional cria o cenário perfeito para as casas de apostas atraírem novos usuários. Não por acaso, a expectativa é que a Copa de 2026 movimente mais de R$ 255 bilhões em apostas esportivas no mundo, superando os cerca de R$ 187 bilhões registrados na edição de 2022.
Outro fator que impulsiona esse crescimento é a forte presença das bets durante o Mundial. Propagandas durante as transmissões, redes sociais, influenciadores e promoções tornam as apostas praticamente onipresentes. Especialistas alertam que essa exposição, somada à falsa sensação de que entender de futebol aumenta as chances de ganhar, pode levar muitas pessoas a apostar por impulso e assumir riscos maiores do que imaginam.
O caso Caze TV mostra que o problema é maior
A CazéTV vem sendo um dos grandes sucessos da Copa do Mundo de 2026 ao transmitir gratuitamente todos os jogos do torneio. Mas, para manter esse modelo, a plataforma conta com um forte apoio das casas de apostas. As bets que patrocinam o canal aparecem em anúncios, ações comerciais e até em promoções que aumentavam temporariamente as cotações para incentivar apostas durante as partidas, as “odds turbinadas”.
Isso gerou uma repercussão enorme e levantou uma discussão importante. Como resultado, deputados acionaram o Ministério Público Federal para proibir a divulgação de apostas e “odds turbinadas” por comentaristas.
Isso porque, os especialistas em futebol estavam usando sua profissão para sugerir apostas que (teoricamente) teriam resultados positivos. O que não aconteceu, já que um levantamento feito pelo ICL Notícias mostrou que o público perdeu cerca de 61% das apostas sugeridas pela emissora.
Como saber se a aposta deixou de ser diversão?
O primeiro sinal de alerta aparece quando a aposta passa a ocupar um espaço cada vez maior na rotina, nas finanças e até nos relacionamentos. Em vez de ser um passatempo, ela vira uma preocupação constante.
Especialistas explicam que a dependência costuma acontecer de forma gradual. Muitas pessoas começam apostando pequenos valores, têm um ganho inicial e ganham confiança. Depois, quando surgem as perdas, tentam recuperar o dinheiro fazendo novas apostas. Esse ciclo, na maioria das vezes, leva ao endividamento e à perda de controle.
Fique atento a alguns sinais:
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Você aposta mais dinheiro do que havia planejado.
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Tenta recuperar o que perdeu fazendo novas apostas.
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Usa dinheiro destinado às contas da casa para apostar.
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Faz empréstimos ou usa o limite do cartão para continuar jogando.
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Esconde as apostas da família ou dos amigos.
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Fica irritado, ansioso ou frustrado quando não consegue apostar.
Se você se identificou com um ou mais desses comportamentos, encare o problema com seriedade. Além de buscar apoio de familiares ou de um profissional de saúde, uma medida prática é utilizar as ferramentas de autoexclusão oferecidas pelas casas de apostas e pela Plataforma Centralizada de Autoexclusão, do Governo Federal.
Bloquear casas de aposta pode ser um passo importante para interromper o ciclo antes que ele comprometa de vez sua saúde financeira e emocional.
Como fazer para bloquear casas de aposta?
Desde dezembro de 2025, o Brasil conta com a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, criada para que os usuários possam solicitar o bloqueio do CPF em todas as casas de apostas licenciadas pelo governo federal de uma só vez.
A ferramenta é gratuita e funciona para as bets autorizadas a operar no país. Ao solicitar a autoexclusão, o usuário fica impedido de criar novas contas, fazer apostas e acessar os serviços das empresas participantes durante o período escolhido (pode ser de 1, 3, 6 ou nove meses, um ano ou tempo indeterminado). O objetivo é oferecer um tempo de afastamento para quem sente que perdeu o controle ou quer evitar recaídas.
O processo é simples e leva apenas alguns minutos:
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Faça o login com a conta gov.br e confirme sua identidade.
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Escolha o período de bloqueio
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Confirme a solicitação.
Depois disso, as casas de apostas participantes recebem a informação e devem bloquear o acesso da conta vinculada ao seu CPF.
A adesão à ferramenta mostra que o problema é maior do que parece. Segundo dados da própria plataforma, quase 700 mil brasileiros já solicitaram a autoexclusão desde o lançamento. Entre eles, 40% afirmaram ter perdido o controle sobre as apostas e sofrer impactos negativos na vida pessoal, enquanto 69% optaram pelo bloqueio por tempo indeterminado. Os números reforçam que o vício em apostas não é um caso isolado e que cada vez mais pessoas estão buscando formas de interromper esse ciclo.
Vale lembrar que a autoexclusão é uma importante ferramenta de proteção, mas ela não substitui o acompanhamento psicológico ou médico quando há sinais de compulsão. Se as apostas estão afetando seu orçamento, seus relacionamentos ou sua saúde mental, procurar ajuda profissional também faz parte da solução.
A regulamentação das bets diminui os riscos?
Não. As regras aumentaram a fiscalização, exigiram licenças para operação, criaram mecanismos para proteger o dinheiro dos apostadores e estabeleceram normas para publicidade e jogo responsável. Ainda assim, elas não impedem que uma pessoa fique endividada e suscetível à ludomania (vício em jogos de azar). Ou até que uma casa de apostas enfrente dificuldades financeiras ou até deixe de operar.
Um exemplo disso são os primeiros casos de bets endividadas registrados no Brasil. A Alfa Bet, por exemplo, acumulou cerca de R$ 90 milhões em cobranças judiciais após deixar de pagar contratos de patrocínio com clubes como Grêmio e Internacional. Segundo a própria empresa, os altos custos da regulamentação e o aumento da carga tributária contribuíram para a crise financeira. Outras operadoras menores também acabaram sendo compradas por grupos maiores para conseguir sobreviver em um mercado cada vez mais concentrado.
Conclusão: Vale a pena apostar durante a Copa do Mundo?
Não. E a verdade é que não vale a pena apostar em época nenhuma. O problema é quando a emoção da torcida se mistura à ideia de que apostar é uma forma de ganhar dinheiro.
As casas de apostas investem pesado justamente porque sabem que grandes eventos despertam confiança, impulsividade e o desejo de "entrar no jogo". Para a maioria das pessoas, porém, o resultado é sempre o mesmo,mais perdas do que ganhos.
Quando a aposta vira uma tentativa de complementar a renda ou resolver dificuldades financeiras, ela deixa de ser diversão e passa a representar um risco real para o bolso. Os números mostram que esse cuidado é necessário. Centenas de milhares de brasileiros já pediram para bloquear o próprio acesso às bets, elas estão sendo cada vez mais responsáveis pelo endividamento, e o acesso continua sendo incentivado.
No fim das contas, a melhor aposta durante a Copa continua sendo torcer pelo seu time, reunir os amigos e aproveitar o campeonato sem colocar suas finanças em jogo. Afinal, a emoção de um gol dura alguns minutos. As consequências de uma dívida podem durar muito mais tempo.
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