Por Isabel Gonçalves 

Durante muito tempo, falar de dinheiro nunca foi uma conversa confortável entre mulheres. A gente aprende cedo a economizar, a “não gastar à toa”, a ter cuidado. Ao mesmo tempo, somos perseguidas pelo estereótipo de “gastadeiras”, incontroláveis e emocionais. E quando aparece o assunto das finanças e dos investimentos, eles vêm acompanhados de culpa, vergonha ou da sensação de que “isso não é pra mim”. 

Comigo foi um pouco diferente. Lá em casa quem controla as finanças é a minha mãe, e meu pai, com todo carinho do mundo, é o “gastadeiro”. Eu tive um exemplo feminino forte em casa, mas sei que sou exceção. Sei que a maioria das meninas do país cresceram vendo mulheres que davam conta de tudo, mas terceirizavam as decisões financeiras. E também cresceram achando que investir era coisa de gente rica, de homem de terno ou de quem “entendia muito”. Spoiler: não é.

Esse texto é uma conversa aberta. De amiga pra amiga. Sobre dinheiro, investimentos, culpa, aprendizado, e sobre como a minha geração está, aos poucos, mudando essa história.

Como a criação influencia a relação das mulheres com o dinheiro?

Desde cedo, ser mulher influencia como a gente aprende, ou deixa de aprender, a lidar com dinheiro. Não é algo explícito, ninguém nos convida para sentar à mesa e diz “olha, você não precisa saber investir”. Mas as mensagens estão ali, o tempo todo, nas entrelinhas.

Na escola, a educação financeira é obrigatória de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Os temas abordados são os conceitos básicos de economia (poupança, juros, despesas fixas, orçamento), tipos de investimento, formas de guardar dinheiro e outros. Mas, sendo bem sincera, a única coisa que eu lembro foi o cálculo de juros compostos, o resto eu aprendi na vida mesmo.

E aqui entra um ponto importante. Enquanto homens são livres para falar e entender sobre tudo, para nós, o dinheiro não era assunto aberto. Não se falava de salário, de dívida, de investimento ou de erro financeiro. Quando o assunto surgia, vinha carregado de vergonha ou medo de julgamento. 

No fundo, crescer sendo mulher muitas vezes significa aprender a ser responsável com o dinheiro, mas não protagonista das próprias decisões financeiras. Isso porque sempre vamos achar que o outro que entende mais, e por isso, é o responsável pelas decisões. Mas a grande verdade é que nem eles sabem o que estão fazendo com o dinheiro. 

Os números mostram o que a gente já sente - o cenário atual das mulheres investidoras no Brasil

Pesquisas recentes mostram que as mulheres ainda representam uma parcela menor dos investidores no país. Dados da ANBIMA, em parceria com o DataFolha, mostram que menos de 10% das mulheres aplicaram recursos em produtos financeiros no país no último ano. 

Isso não quer dizer que mulheres não saibam investir ou não tenham capacidade. Quer dizer, simplesmente, que menos mulheres chegaram até esse espaço. E quando a gente cruza esses dados com renda, jornada de trabalho e responsabilidades domésticas, o cenário fica ainda mais claro.

“É fundamental que nós, mulheres, busquemos ativamente nossa liberdade financeira, em outras palavras, sermos protagonistas do conhecimento sobre investimentos.” afirma Michelle Vilarinho, vice-presidente da Via Direta Consultoria. E aqui entra outro ponto importante: cuidar do próprio dinheiro é a chave da liberdade e da autonomia. 

Porque entender de finanças é mais do que necessário

Existe um tipo de violência que não deixa marca, mas deixa a conta zerada, o nome sujo e a sensação de chão sumindo. A violência patrimonial acontece quando a mulher perde o controle, ou nunca teve, sobre o próprio dinheiro e os próprios bens. E ela é mais comum do que a gente imagina. De 2022 para 2023, por exemplo, as taxas de violência patrimonial cresceram 35%.

Conheço casos reais de mulheres que passaram anos trabalhando, cuidando da casa, dos filhos e sustentando emocionalmente a família, enquanto todas as decisões financeiras estavam no nome do parceiro. Quando o casamento acabou, descobriram que não tinham patrimônio, não tinham reservas e, em alguns casos, nem acesso às próprias contas. Algumas saíram do divórcio sem nada, mesmo tendo contribuído por anos para aquela construção.

Não foi falta de esforço. Foi falta de autonomia financeira. E por isso, falar sobre construir o próprio patrimônio não é sobre desconfiança ou frieza. É sobre proteção. É sobre garantir que, independentemente de tudo, você tenha segurança para recomeçar, escolher e sair se precisar. 

Portanto, falar de finanças para mulheres, ter dinheiro e entender sobre investimentos não é luxo, nem modinha. É uma questão de dignidade, segurança e liberdade.

A boa notícia: cada vez mais mulheres estão falando de dinheiro

Se por muito tempo falar de finanças parecia um território hostil, hoje o cenário começa a mudar e isso dá um alívio bom. Cada vez mais mulheres estão ocupando esse espaço, criando conteúdos, canais e conversas sobre dinheiro que fazem sentido para nossa realidade.

Não é aquele discurso distante, cheio de termos difíceis e zero empatia. São mulheres falando com outras mulheres. Contando erros, acertos, dúvidas e aprendizados. Usando referências do dia a dia, cultura pop, experiências reais e uma linguagem que não faz ninguém se sentir burra por não saber algo.

Nath Finanças

 
A Nath mudou o jeito de falar sobre dinheiro no Brasil a partir da realidade de quem ganha pouco. Ela lembra que educação financeira não começa em investimento sofisticado, começa em entender o próprio orçamento, pagar dívidas e sobreviver com dignidade. O trabalho dela mostra que investir em si mesma também é uma forma de construir futuro.

O que tem na sua carteira? (Steal The Look + B3)

O Steal The Look é um dos maiores portais de moda e beleza no país. E em parceria com a Bolsa de Valores, o podcast mistura finanças, consumo consciente, carreira e estilo de vida, mostrando que investimento não existe fora da vida real. Ao trazer conversas acessíveis e experiências de diversas mulheres diferentes, o programa ajuda a normalizar o tema e a mostrar que cada carteira reflete escolhas, prioridades e momentos diferentes.

Nathalia Arcuri - Me Poupe!


Nathalia ajudou a popularizar o tema dos investimentos com uma linguagem direta e didática, mostrando que fazer o dinheiro render não é privilégio de poucos. Seu conteúdo aproximou muita gente da ideia de investir e reforçou que aprender sobre finanças é uma habilidade, não um dom.

@suabffrica

Falar de dinheiro como se estivesse conversando com uma amiga muda tudo. A proposta da “sua BFF rica” (Karla Freitas) é justamente essa: usar referências pop, histórias pessoais e uma linguagem sem julgamento para tratar de finanças como ferramenta de liberdade, segurança e autonomia, e não como motivo de culpa.

Conclusão: dinheiro tem que ser papo de mulher 

Falar de dinheiro como mulher é, antes de tudo, um ato político. É romper com o silêncio que ensinou a gente a ter cuidado, mas não autonomia. É encarar os números que mostram que ainda somos minoria nos investimentos e entender que isso não é falha individual, é estrutura. E nem precisa ser em um podcast ou no Instagram, trazer o assunto na roda de conversa das amigas é o primeiro passo para o assunto deixar de ser tabu. 

E se você tem vergonha porque acha que não sabe o bastante sobre finanças, olhe para o lado e veja que está cheio de homens falando pelos cotovelos e tomando decisões financeiras questionáveis sem o mínimo conhecimento.

Por isso, esse texto também é sobre o outro lado. Mulheres estão falando de dinheiro do nosso jeito, ocupando espaços, criando linguagem e abrindo conversa. Eu estou aqui, escrevendo sobre finanças, porque acredito que aprender a lidar com dinheiro também é aprender a se proteger. Não é sobre enriquecer rápido, é sobre construir algo que seja só nosso.

Falar de finanças entre mulheres não é tendência, é necessidade. E quanto mais a gente fala, menos exceção a gente vira.


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