Por Ana Flávia Sales e Cristhiane Simões

Durante muito tempo, o roteiro das separações com filhos parecia quase pronto: as crianças permaneciam com a mãe, o pai pagava a pensão alimentícia e a convivência acontecia, em regra, em finais de semana alternados. Esse modelo começa a mudar.

Na advocacia especializada em Direito das Famílias, temos acompanhado um movimento cada vez mais frequente de homens que, depois do fim do casamento, não querem ser apenas “pais de finais de semana”. Querem buscar os filhos na escola, levá-los às atividades, acompanhar reuniões, consultas médicas, tarefas de casa e compromissos. Querem dormir e acordar com os filhos durante a semana.

Querem participar da vida real deles.

Essa mudança não começou no divórcio. Ela é resultado de uma transformação que já vinha acontecendo dentro das próprias casas.

A formação das famílias mudou. Hoje, em muitos lares, ter um filho é uma decisão pensada, planejada e muito esperada. Há casais que passam anos organizando a vida profissional e financeira antes da chegada de uma criança. Outros enfrentam tratamentos de reprodução assistida, dificuldades para engravidar ou simplesmente esperam o momento que consideram adequado.

Ao mesmo tempo, também mudou a presença masculina no ambiente doméstico.

O pai que chega do trabalho e espera que a mãe resolva tudo relacionado aos filhos ainda existe, mas essa já não é a única realidade das famílias brasileiras.

Há pais dando banho, trocando fralda, preparando mochila, fazendo dever de casa, levando ao pediatra, participando de reunião escolar, buscando nas atividades, preparando jantar e colocando a criança para dormir.

Quando acontece o divórcio, é natural que muitos desses homens não estejam dispostos a simplesmente desaparecer da rotina que ajudaram a construir.

O divórcio encerra a relação conjugal e não a relação parental.

Por isso, começa a perder espaço a ideia de que exercer a paternidade significa pagar corretamente a pensão e buscar os filhos de quinze em quinze dias.

Pensão é obrigação alimentar. Sustento material é indispensável, mas filho precisa de presença, cuidado, referência, limite, afeto, disponibilidade e responsabilidade.

É comum recebermos pais no escritório dizendo: “eu não quero deixar de pagar nada, só quero ficar mais com meu filho”. Esta frase revela uma mudança importante.

A discussão deixa de ser apenas sobre quanto será pago e passa também a envolver quanto aquele pai poderá efetivamente participar da vida da criança. Ou seja, deixar de transformar a convivência em uma disputa matemática de dias e horas. Criança não é patrimônio a ser dividido ao meio.

Cada família possui uma dinâmica própria. Distância entre as residências, horário de trabalho dos pais, idade dos filhos, escola, atividades, rede de apoio e, principalmente, as necessidades da criança devem ser consideradas.

Também existem separações marcadas por violência, abandono, negligência ou outras circunstâncias que exigem cautela e proteção. Nenhuma fórmula serve para todas as famílias. Mas, quando existem pai e mãe capazes, responsáveis e efetivamente interessados no cuidado dos filhos, manter automaticamente uma estrutura em que um deles concentra quase toda a rotina e o outro participa apenas de alguns finais de semana, já não parece acompanhar a transformação das próprias relações familiares.

E essa mudança também pode ser muito positiva para as mulheres.

Durante décadas, após o divórcio, muitas mães permaneceram responsáveis pela maior parte da rotina dos filhos e, junto com ela, por uma enorme carga de responsabilidades.

Na maioria dos casos, são elas que organizam horários, conferem material e uniforme, recebem mensagens da escola, levam ao médico, reorganizam o trabalho quando o filho adoece, acompanham atividades e administram uma infinidade de pequenas tarefas que fazem parte da criação de uma criança. Essa carga mental não desaparece com o divórcio. Em muitos casos, aumenta.

Por isso, ter um pai verdadeiramente presente não significa apenas assegurar à criança uma convivência mais ampla. Significa também permitir que a mãe tenha espaço para continuar sendo uma pessoa além da maternidade.

Ter alguns dias sem os filhos pode significar trabalhar, estudar, encontrar amigos, jantar, descansar ou simplesmente ter tempo para si. E não há nada de errado nisso.

Uma mãe não precisa estar permanentemente sobrecarregada para demonstrar que é uma boa mãe. Da mesma forma, um pai não deve ser tratado como visitante na vida do próprio filho quando sempre participou ativamente de seus cuidados.

Quando a responsabilidade é efetivamente compartilhada, ambos podem exercer a parentalidade e, ao mesmo tempo, preservar espaço para a própria vida.

Isso exige maturidade.

Pais separados continuarão precisando conversar sobre escola, saúde, viagens, atividades, limites, rotina e inúmeras decisões durante muitos anos. O casamento termina, mas a necessidade de decidir sobre os filhos permanece.

Talvez esse seja um dos maiores desafios das famílias contemporâneas: compreender que o ex-marido ou a ex-mulher deixou de ser companheiro, mas continuará sendo pai ou mãe daquela criança.

Também precisamos abandonar a ideia automática de que o pai que deseja ampliar a convivência está necessariamente tentando reduzir a pensão ou incomodar a mãe. Isso pode eventualmente acontecer, assim como mães ou pais que utilizem os filhos como instrumentos em conflitos conjugais. Mas transformar esse comportamento em regra é totalmente injusto.

Temos encontrado homens que querem assumir mais responsabilidade, e não menos. Querem dividir despesas, mas também querem dividir consultas, compromissos escolares, decisões difíceis, noites mal dormidas e toda a rotina que faz parte de criar um filho.

Esse movimento merece ser percebido como aquilo que ele representa: uma mudança no modo de exercer a paternidade.

Não porque pais devam “ajudar” as mães, mas porque cuidar dos filhos nunca deveria ter sido uma responsabilidade predominantemente feminina.

Talvez estejamos finalmente começando a compreender algo bastante simples: depois do divórcio, pai continua sendo pai e mãe continua sendo mãe.

E, quando ambos têm condições de exercer esses papéis de maneira saudável, os filhos não precisam ter um responsável principal e um visitante.

Podem ter ambos os pais, verdadeiramente, presentes em suas vidas.

Ana Flávia Sales é advogada, mestre e professora de Direito Processual Civil.

@advogadaanaflaviasales

Cristhiane Simões é advogada.

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