Neste mundo caduco, mais bêbado que equilibrista – se me permite Aldir Blanc o arranhão em tão bela composição -, ainda há e haverá sempre janelas abertas para o amanhecer. Mesmo que a esperança tão rotineiramente se exponha ao risco de se machucar, há em cada ser humano, como parte de sua anatomia, uma janela permanentemente à espera.

Um belo dia alguém diz algo bonito, acontece a leitura de um poema que parece endereçado para o momento do leitor, ou é a beleza que se revela sem ser esperada. Qualquer dessas graças tão aparentemente ordinárias é suficiente para que a janela se abra bem no meio do peito da pessoa.

Dias atrás, no litoral da Bahia (ah, “a Bahia tem um jeito...”), eu mesmo testemunhei esse fenômeno acontecer três vezes. A primeira delas se deu com a chegada de Maria Nilza, uma preta de idade incerta, trajando um vestido estampado, um sorriso de batom e alegria, um jeito de gente que não se distancia de si mesma. Conversávamos com ela quando se aproximou uma criança de tranças e pele morena de sol, atraída certamente pelo mel de Maria Nilza. Olhou bem para ela e perguntou:

- Você é da África?

Eu e meus amigos ficamos surpresos e preocupados com a sequência do diálogo, receosos de que saísse pela boca da inocência algum preconceito aprendido. Fez-se breve silêncio e Maria Nilza, a bordo do mesmo sorriso, respondeu que ela particularmente não, mas que seus ancestrais tinham vindo de lá. A elegância da baiana me deixou à vontade para descobrir o que havia à sombra da pergunta inicial.

- Por que você pergunta?

E a pequena:

- Porque minha professora é da África e tem um vestido bem parecido.

A preocupação mostrou-se absolutamente pré e, portanto, inútil. Liberada a ocupação, a alegria se fez manifesta e nossa.

De outra vez, foi uma moça com um livro debaixo do braço, caminhando lentamente pra lá e pra cá, os olhos deixando escorrer pensamentos sobre a areia, logo atentos ao mar, intercalando distração e prazer. Antes da arrebentação, corria um menino pequeno de recente caminhar, a água pelo meio das canelas, em puro estado de euforia. Era filho. A moça com o livro debaixo do braço, o marcador pendente no meio das páginas, silenciosamente mãe.

Por fim, um menino numa rua de terra, a quem perguntamos uma informação sobre o caminho. Ele nos deu a direção e pediu:

- Agora, buzina!

- Mas buzinar pra quê? Eu quis saber.

- Ué, pra ficar alegre!

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Buzino até hoje quando me lembro dele. Essas crianças nos ensinando que caducos somos nós em dar autoridade às insanidades do mundo. Uma pessoa com a janela aberta bem no meio do peito sabe de imediato que essa solidão, esse desamparo perambulando pelas telas, desaparecem logo no primeiro facho de luz. Basta a pergunta “Em que posso ajudar?” para nos resgatar do delírio. É a ponte, meu amigo, é a senha.

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