Ele era um homem apaixonado pela mulher. Expansivo, de riso aberto e confiante, fazia da conversa uma arte à que dedicava integralmente seu talento. Ela, terna, de poucas palavras, gostava mesmo era do marido e de viajar. Quando ele recebeu a primeira missão e saíram pelo mundo, já tinham cinco filhos. Partiram como uma caravana à moda antiga, levando apenas poucas mudas de roupa para cada um e os objetos de maior apego da família, incluindo algumas panelas, os melhores livros e os discos mais tocados. O cachorro foi também, dopado e trancado em uma pequena caixa.

E tal foi o poder de conciliação do diplomata e tamanha sua capacidade de encontrar soluções para as complexidades das relações de ultramar que ao primeiro êxito outros desafios foram dados em diferentes lugares do planeta. Em poucos anos, não havia mais fronteira nem pátria – os diferentes países como quintais. As crianças foram crescendo obrigadas a fazer e desafazer malas, a aprender um idioma a cada nova estação, cada vez mais cansadas de tanta caminho novo, ansiosas por um canto para crescer entre amigos. Cientes do desarranjo crescente, os pais atenderam aos protestos e foram deixando seus meninos e meninas em casas de amigos para que completassem os estudos. Cada filho em lugar diferente, cada qual em continente distinto, os cinco.

Os dois seguiram em movimento, apaixonados e encantados pela possibilidade de conhecer de perto as diferentes paisagens e os diversos povos deste mundo. Anos foram escorrendo como água servida e as casas dos filhos tornaram-se cômodos da imensa morada, lugares aconchegantes para um descanso entre uma e outra missão. Os cinco, afeitos aos lugares escolhidos, alegremente enraizados, deixaram de se ver e de se falar sob o efeito anestesiante da mistura de distância e tempo.

A mais velha se fez museóloga, um outro seguiu vida religiosa, a terceira foi artista, havia um publicitário bem-sucedido e o caçula, funcionário público, fugiu da guerra civil em sua pátria de adoção. Quando os dois ficaram muito velhos, resolveram aposentar as malas e voltar para o ponto de partida da longa viagem. Os cinco logo se inquietaram com o fato extraordinário, cada qual fez sua leitura. Trocaram cartas e descobriram ordinária a preocupação: seria a morte pedindo pouso? Marcaram uma visita coletiva à casa original, de onde cada um tinha lembranças da primeira infância.

Na data combinada, foram chegando ao sobrado até que o último bateu campainha à hora do almoço, mas não encontraram os dois. Um bilhete informava que tinham saído bem cedo para uma caminhada, seguida de compras. Sentaram-se os cinco à sala para esperar. Entre curiosos e constrangidos, se observaram e não foi preciso nenhum esforço para perceberem a enorme distância que o tempo havia construído entre eles. Cinco estrangeiros em sua terra natal, sob o telhado comum de tantos anos atrás. Cinco águas, todas passadas. Até os idiomas de uso diário eram cinco. A conversa começou difícil e cerimoniosa. O publicitário considerou os irmãos deselegantes, para a museóloga pareciam superficiais, a artista não gostou de ser desconhecida para os outros, o religioso lamentou o quanto eles estavam distantes da verdade e o fugitivo manteve-se à parte, em silêncio.

Os dois tardavam. Desconforto. Passaram à mesa da copa para espantar o silêncio e um café. O silêncio nem tchum! Então, um percebeu o nariz afilado e insinuante como traço comum entre eles. Disse-o e logo se arrependeu, sem saber se era prudente aquele repentino lugar de encontro. Todos olharam atentamente para a coincidência. Associado ao nariz comum veio à memória um caso engraçado da infância: um visitante que tinha o nariz tão protuberante que deixou a mãe deles profundamente angustiada com a possibilidade de uma de suas crianças comentar o assunto à mesa do jantar. Tão obcecada com o risco de gafe ficou a anfitriã que perguntou ao convidado, à hora da sobremesa, se aceitava “um pouco de chantili sobre o seu nariz” quando queria dizer “sobre seus morangos”.

As mesmas gargalhadas se fizerem ouvir à volta da velha mesa. Seja pela graça do caso, seja pelo alívio alcançado, os cinco perderam o fôlego. Foi parecido com um milagre. O riso, feito um rosário, puxou outra história e mais outra e outra mais. O fugitivo, então, pigarreou e o silêncio voltou ao lugar. Grave, contou tudo o que tinha passado nos últimos anos. Foi uma comoção: “logo você, nosso caçula”! A museóloga contou sua trajetória e a ela seguiu-se a atriz que, subitamente à vontade, encenou um monólogo de seu último espetáculo teatral. Foi aplaudida de pé! Os relatos se sucederam, sempre diversos e exóticos para quem ouvia. Lágrimas desceram, mãos se tocaram. Ao cabo de algumas horas, a copa estava tomada por um converseiro animado.

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Aconselhados pela fome, resolveram ir para a cozinha. Descobriram a geladeira farta e prepararam uma refeição variada, com um tira-gosto típico da cultura de cada um. Compartilharam temperos, experimentaram sabores. Gostos foram dados a conhecer. A cada porção oferecida chegava à boca uma descoberta. Serviram-se tão generosamente que, ao final, em todos já havia partes de cada um. No momento da sobremesa já não se sabiam pelas convicções e lugares de onde vinham, mas pelo que de si continuava no outro. E quanto mais se recebiam, melhor se viam. Quando os pais chegaram, o tempo não era mais o mesmo. A separação, com que vinha sendo medido, não apareceu na foto de família.

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