Cada dia fico mais surpreso com este país. Para o bem e para o mal. Desta vez, o palco foi nada mais nada menos que o púlpito da ONU, organismo criado depois de duas guerras justamente para evitar que a loucura humana produzisse a terceira. Estamos quase lá.


De um lado, vimos nosso presidente dar um show de lucidez, falando de paz e de harmonia entre os povos, da gente que precisa comer e da gente que não precisa matar para comer. Discurso de estadista e, por que não dizer, de cristão — dos que leram o Sermão da Montanha inteiro, e não só o versículo que convém.


Do outro lado, o presidente da nação mais poderosa militarmente do planeta desfilou arrogância e truculência. Ameaçou vizinhos, ameaçou o mundo, ameaçou até o ar-condicionado do plenário. Faltou apenas a braçadeira no ombro. E aqui entra o meu espanto, que resumo como se resume em Minas, com um suspiro: “Né possível!”. Né possível que as pessoas não estejam vendo que esse pode ser o nosso verdadeiro presidente nos próximos anos — por procuração.


As eleições do próximo domingo podem entregar de bandeja ao senhor da guerra a nossa soberania, a nossa dignidade e, de brinde, as terras raras, o nióbio, a Amazônia e o que mais ele mandar buscar. Com laço de fita e porteira aberta pra passar a boiada.


Vocês podem estar se perguntando o que isso tem a ver com o Bem Viver, este cantinho do jornal onde costumo falar de vacina, de febre, de mosquito e, vez ou outra, da minha mãe. Tudo. E muito mais.


Foi exatamente esse mesmo indivíduo que, negando as vacinas e entregando a saúde de um país inteiro a negacionistas de carteirinha, está promovendo o maior surto de sarampo dos tempos modernos, doença que já dávamos por vencida e que agora bate, outra vez, no nosso quintal. Sarampo não pede visto. Negando o aquecimento global, coloca a humanidade em risco em nome dos interesses econômicos dele e de seus aliados de lá. E de cá. Não podemos esquecer quem são os de cá: são os mesmos que foram para lá pedir intervenção aqui. Esqueceram? Eu não esqueci.


Os golpistas daqui foram acolhidos lá, entre tarifas e tapinhas nas costas, e querem voltar para consumar o golpe que deu ruim aqui. Em suma: o 8 de janeiro não acabou. Pode estar apenas começando de novo, agora com carimbo de importação.


E a importação já desembarcou, com capacete e ombreira. Nesse fim de semana, um jogo da NFL em pleno Maracanã. O gramado de Pelé, Didi e Garrincha recebendo um monte de brutamontes correndo atrás de uma bola oval que não balança rede alguma — aliás, nem rede tem. Um esporte em que se avançam 10 jardas por vez (que diabo é essa tal de jarda?) e a cada 15 segundos para o comercial. Nada contra: cada povo com sua bola. Só me preocupa nossa mania de abraçar toda topeira que chega com sotaque e chamar de modernidade. Já fizemos isso com a cloroquina. Cuidado para não fazermos gol contra — e, pior, comemorar.


O representante dele por aqui, a essas alturas, todo mundo já sabe quem é. Sim, ele mesmo: o das rachadinhas do Rio, o do “Dark Horse” do Vorcaro. Aquele cujo pai, o dono do cavalo preto, num coice, só ajudou a matar mais de 700 mil brasileiros na pandemia de COVID-19, exatamente por nos sonegar vacinas no período mais crítico de nossa história recente. Tal chefe, tal pai, tal filho. Simples assim.


E aqui peço licença para uma lembrança pessoal, que é o que o cronista tem de melhor quando o mundo o assusta.


Em março de 2020, o prefeito me chamou. Não lembro se era terça ou quarta; lembro que fazia calor e que eu ainda não sabia o tamanho da encrenca. Aceitei sem pensar duas vezes, sem salário e sem gabinete, porque médico que se recusa a ir onde tem doente não é médico, é outra coisa.


Passamos meses fechando e abrindo a cidade como quem regula a torneira de um chuveiro velho: uma volta a mais, escaldava; uma a menos, gelava. Me lembro que dormimos pouco. Belo Horizonte, que não tem mar, descobriu que também não tinha leito de UTI sobrando — e se comportou como cidade grande: chorou seus mortos e cuidou dos vivos.


Enquanto isso, em Brasília, o dono do cavalo preto imitava gente sem ar, receitava vermífugo e deixava carta de laboratório sem resposta. Cada semana de atraso eu convertia em nomes. Não em números: em nomes. Infectologista tem essa deformação — não consegue arredondar gente.


Por isso, quando ouço que "já passou", que "é preciso virar a página", penso na minha mãe, que dizia que página a gente vira depois de ler. E a nossa ainda está aberta, com o sarampo na margem e a dengue no rodapé.


O sarampo, aliás, é um vírus honesto: não esconde o jogo, mancha a pele, avisa que chegou. Nós é que fingimos não ver. Ele só voltou porque abrimos a porta que a cobertura vacinal fechava com chave dupla. Quem tirou a chave da fechadura está lá, no púlpito, e seu seguidor aqui, no palanque.


Não estou pedindo voto. Cronista não pede voto. Pede atenção, que é coisa mais rara. Estou apenas fazendo o que fiz durante a pandemia: olhar o exame, ler a curva e dizer o que vejo, ainda que doa. E o que vejo é um país outra vez diante de uma escolha que parece ser sobre política, mas é sobre epidemiologia. Sobre quem vai atender o telefone quando o próximo vírus ligar.


Hoje, no fim da tarde, um bem-te-vi cantou no fio de luz em frente de casa e, por um instante, achei que ele também dizia "Né possível". Passarinho tem essa vantagem sobre nós: repete a mesma coisa a vida inteira e ninguém o acusa de incoerência.


O Brasil está em risco e pode sucumbir de novo a um desastre sanitário dos mais graves. Não por falta de aviso. Por falta de memória. E memória, como algumas vacinas, precisa de reforço de tempos em tempos.

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Nossa Senhora da Aparecida, rogai por nós.

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